O conto “Mariazinha Tiro a Esmo”, publicado junto à seleção de outros textos jornalísticos, sob o título de Malhação do Judas Carioca (1975b), reaparece posteriormente em duas antologias de textos ficcionais, entre os melhores contos do escritor20 e entre outros contos cuja temática trata de rua.21 Os textos desse livro se
alicerçam no popular, neo-realista, picaresco e urbano, com o propósito de crítica social, numa tentativa de aproximação a Lima Barreto, cuja obra “estigmatizou costumes e falsos valores de seu tempo” (BRUNO, 1980, p. 242).
A aproximação entre João Antônio e Lima Barreto, comum à crítica, devido à programática citação desse por aquele, dá-se pelo interesse de ambos frente ao descalabro do homem na sociedade em valores contra a vida. O conto Mariazinha
Tiro a Esmo também se encontra inserido na parte final do livro Ô Copacabana!
(ANTÔNIO, 1978), cuja crônica descreve o famoso bairro carioca - moradores, freqüentadores da vida noturna, costumes – por meio de palavras e fotografias.
A crítica de Haroldo Bruno estabelece a relação essa narrativa ficcional, que abre a reunião de Malhação do Judas Carioca, o manifesto Corpo a corpo com a
vida, depoimento teórico com que João Antônio fecha o volume, discorrendo a
respeito do engenho e arte de sua criação poética. Para tanto, o crítico aponta um descompasso entre a proposta do escritor e seu fazer ficcional. A literatura do escritor, sob este ponto de vista, escapa da própria concepção que engendrou como itinerário de artista. Ao apontar a insuficiência da crítica acadêmica, no entanto, apenas indica uma perspectiva diversa da corrente interpretação realizada por leitores acadêmicos.
A “estética da porrada”, expressão utilizada por Haroldo Bruno, remete indiretamente à “filosofia das marteladas”, a expressão que Nietzsche utilizou para nomear sua filosofia de futuro. A terceira dissertação de Genealogia da moral desdobra a interpretação do crítico, cuja posição centra-se no ataque de João Antônio contra as posições das Belas Letras, ao exacerbado formalismo experimental e ao afunilamento da dimensão da literatura (BRUNO, 1980, p. 244).
20 HOHLFELDT, Antônio. Os melhores contos de João Antônio. São Paulo: Global, 1986. 21 ANTÔNIO, João. Sete vezes rua. São Paulo: Scipione, 1996.
A personagem Mariazinha Tiro a Esmo vive na incerteza como seu nome anuncia. Da infância em família, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a menina segue para uma vida errante pelas favelas suburbanas da cidade. Primeiro, de casa em casa e sem paradeiro certo; posteriormente, na rua e nas andanças das pequenas trampolinagens e às voltas de carro com homens que apenas lhe oferecem algum dinheiro pela companhia sexual. O período que encerra a narrativa, nesse sentido, funciona como sintoma dessa observação:
− Sou piranha, e daí? Eu tenho culpa? Acho que não gostaria de ser. Seria bom ter um homem só com um carro só. Parece que seria legal. Mas está aí uma coisa que eu acho que os homens não querem (ANTÔNIO, 1975b, p. 9).
De certa forma, a expressão desse desejo revela um ideal ascético. Desencorajada do sonho de uma vida ideal, de moça moderna, que se veste e se arruma a fim de ser como as outras da sua idade, desfruta apenas de condição social superior, embora com mais consciência sobre a complexidade da vida urbana.
Dois olhares se cruzam em torno da personagem Mariazinha, olhares procedentes de lugares opostos no cenário de Copacabana. De um lado, olham-na como uma menina direita; por outro, como dissimulada e matreira. Essa situação ambígua prova que há duas morais em vigor na sociedade por onde transita a menina. Mariazinha transita neste meio através do disfarce, pois não se enquadra junto ao tipo de mentalidade das garotas de sua idade, embora se vista como elas:
Teve escola, aos trancos e barrancos, mas a convicção, que impõe em tudo o que diz, faria inveja às frivolidades amenas das mais lindas garotinhas do Leblon ou Ipanema (p. 7).
Mariazinha não teve escola nos moldes da estrutura educacional vigente no Brasil contemporâneo. Aprendeu a leitura com as aulas de catecismo na favela, ministradas por um padre, e com auxílio da Bíblia. Na terceira consideração extemporânea, Nietzsche dá ênfase ao fato de uma distorção no mundo acadêmico, que coloca a ciência acima dos interesses da humanidade. O parâmetro para viver, de acordo com suas considerações, encontra-se relacionado à vontade de potência, diretamente fundado no anseio de realização humana, no reconhecimento do
desejo, mais do que em diretrizes científicas e doutrinárias, advindas da necessidade de verdade divina (NIETZSCHE, 2003, p. 144-5).
Nesse sentido, o narrador arranja uma perspectiva de acesso à obra pelo viés nietzschiano. Vê Mariazinha como diferente das outras meninas da classe média carioca, pelo aspecto da maturidade de posicionamento frente à vida. Ela tem convicção, ao passo que as meninas vivem de frivolidades. Essa polaridade coloca seu olhar numa perspectiva diversa a Nietzsche. Para o filósofo, a moral nobre comparece ao lado da moral de escravos na mesma pessoa. O que está acima dessa divisão são os fundamentos de uma sociedade calcada sob a vontade de verdade, na qual uma menina de catorze anos estaria em ambiente de formação escolar e familiar, em outra atividade de maior sentido à vida.
Do ponto de vista genealógico, Mariazinha exemplifica a formação desorientada que a sociedade decadente oferece à juventude. A falta de princípios de vida para o futuro, ou vida nobre, revela-se em seu comportamento desregrado e agressivo, bem como na falta de perspectiva quanto a possível relacionamento amoroso e convivência de família no futuro. Da mãe, ela não sabe; do pai, apenas lembra de seu desregramento alcoólico e a agressão sexual aos doze anos:
Maria, claro, nasceu pobre. Pai, ferroviário português; mãe, marafona loira. Não se pode dizer que tenha tido um lar, mas morou ou se escondeu num barraco de uma favela, a Catacumba. Pouco viu a mãe, e o pai só via já calibrado, braseado, bebido de tantas cachaças da birosca (ANTÔNIO, 1975b, p. 6).
A menina se revela por inteiro através do diálogo que estabelece com o narrador. A cena principal da narrativa se dá na rua, quando a personagem que narra anota as respostas e o relato da menina numa entrevista, cuja pauta descortina o cotidiano e algum dado da formação da moça. Esse roteiro poderia ser considerado um produto de ideal ascético, não fosse conduzido pela estratégia literária e perspectiva extramoral do narrador. O caso desta menina de rua, que enfrenta a vida com postura de garota independente, não impede o trabalho genealógico do narrador de desvelar a perspectiva que as aparências insistem em encobrir.
Mariazinha se posiciona frente ao jogo social como uma representante da ética da malandragem. Embora esteja emaranhada nas contradições de uma sociedade dividida moralmente, a menina representa uma ética rigorosa em favor da vida, de potência de viver, presente no desempenho de seu trabalho, na contravenção com outras meninas que vendem produtos – sem registro ou nota – nas esquinas da cidade e pedem esmolas. Ela administra a situação, põe em prática sua desenvoltura no conhecimento de leis da malandragem.
A personagem desempenha um trabalho de ponte entre o submundo, que anda pelas ruas à cata de algum comércio de sobrevivência, e o outro lado da sociedade, que transita pela cidade em busca de algum divertimento com o comércio sexual, as drogas e o consumo de moda.
O narrador, portanto, faz distinção entre a malandragem que existe na noite carioca e a malandragem no viver a partir de situação muito depauperada. Nesse sentido, o narrador do conto transita pela fronteira entre o discurso ficcional e o discurso jornalístico.