• No results found

Continuando com o mesmo critério, observamos cinco aulas da P4, ocorridas em dois dias letivos, sendo três aulas na quinta-feira e duas na sexta-feira. Analisamos as duas primeiras aulas ministradas na quinta-feira, no horário das 13 às 14h30.

A turma é do 2º ano do Ensino Médio, na modalidade regular. Composta por 30 alunos, entre 15 e 19 anos; são bem comportados, mas não mostram disposição para o estudo.

P4 iniciou a aula apontando o assunto no quadro de giz – Mecanismo de Coesão Textual. Introduziu a explicação sobre o que é um texto e o que o diferencia de um amontoado de frases. Falou sobre a importância da relação, ou seja, da conexão entre as

77

palavras que constroem a coesão textual. Expôs o conteúdo através de exemplos em enunciados curtos anotados no quadro; leu e analisou pequenos textos para a compreensão dos mecanismos de coesão.

Em seguida, distribuiu a atividade que realizaria (PA P4); fez a leitura do texto em voz alta e solicitou que os alunos respondessem a tarefa dentro de um determinado tempo.

Na sequência, foi corrigindo a atividade, oralmente, fazendo as alterações, ao tempo em que explicava as possibilidades de uso dos diferentes termos como mecanismo de coesão textual.

P4 utiliza, além do livro didático, textos impressos, recortes de jornais, de revistas, que, segundo ela, lhe servem de suporte para trabalhar gêneros textuais diversos. Não utiliza as chamadas novas tecnologias, assumindo não ter muita habilidade e tampouco dispor de apoio técnico para isso. Mas reconhece que as aulas seriam mais atrativas se usasse o retroprojetor, o vídeo ou o data-show disponibilizados pela escola.

Sobre as dificuldades que enfrenta junto aos alunos, P4 avalia que tem um bom relacionamento com eles. Segundo a entrevistada, o que atrapalha, às vezes, a aprendizagem do grande grupo é a inquietação constante de alguns, a falta de concentração, o pouco interesse em aprender o novo, o não cumprimento das atividades de casa e a carência de uma boa educação doméstica.

No que se refere à realização profissional, P4 ressalta que ama o que faz. ―Estar diante de uma turma transmitindo o que sabe e, mais ainda, mostrar o outro lado da vida, preparando o aluno para além dos muros da escola, é algo mais que gratificante‖. Apesar de todas as dificuldades que o professor enfrenta nessa profissão, ela defende que vale à pena ser educadora/professora.

Questionada sobre a interligação dos eixos de ensino, P4 respondeu que, atualmente, o ensino de língua portuguesa não pode ser ministrado de forma compartimentada. Explica que, ao utilizar um texto, o professor deve mostrar ao aluno que a gramática está ali, dentro do texto. É a gramática que o estrutura. A docente destacou a importância de haver uma interligação, cabendo aos professores possibilitar essas articulações, atentando para o seguinte fato: ―assim como os textos explorados do

78

ponto de vista da análise linguística podem e devem ser percebidos em traços estilísticos e contextuais, os textos analisados do ponto de vista literário podem e devem ser analisados na perspectiva de sua organização estrutural‖. Para ela, a criatividade depende de cada um.

Ao ser interrogada sobre a utilização dos PCN, dos PCNEM e das Orientações Curriculares para o Ensino Médio, respondeu: ―Se o objetivo maior é preparar o jovem para participar de uma sociedade complexa como a atual, que requer aprendizagem autônoma e contínua ao longo da vida, eis o desafio que temos pela frente. Para tanto, os PCN, PCNEM e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio norteiam as nossas práticas pedagógicas em busca de uma melhoria do ensino‖. P4 afirmou, também, que costuma ler a bibliografia da área de linguística, fato que está evidenciado nas respostas por ela articuladas na entrevista.

Sobre a importância que atribui ao ensino da gramática prescritiva, P4 afirma não priorizar a ―gramática pura‖. Em suas palavras: ―Já foi o tempo em que se escrevia uma frase no quadro e ensinava a sua estrutura – classe morfológica e funções sintáticas. Hoje, trabalhamos a gramática contextualizada, o que facilita ao aluno apropriar-se da variedade culta da língua. A leiturização e a observação estrutural do texto são atividades de extrema importância para a aprendizagem do mecanismo das competências discursivas e gramaticais‖.

P4 enfatiza que considera, em sala de aula, todas as formas de expressão dos alunos. Assim, para ela, é fundamental trabalhar as variedades linguísticas, ―o que, infelizmente, o estudo prescritivo despreza, uma vez que objetiva levar o aluno a substituir seus próprios padrões de atividade linguística considerados errados/inaceitáveis por outros corretos/aceitáveis. É, portanto, um ensino que interfere com as habilidades do aluno‖.

Quanto ao trabalho sobre oralidade, P4 relatou que observa as formas diferentes dos alunos se expressarem; já realizou trabalho de escuta, analisando os sotaques e explorando as variedades, discutindo as diferenças entre os aspectos exigidos na norma culta e os motivos e circunstâncias em que são exigidos. E, além disso, já discutiu em quais momentos se pode adequar essa fala, utilizando a linguagem popular.

79

Questionada sobre se trabalha, em sala de aula, as demais variedades linguísticas, como a popular, por exemplo, respondeu que sim. Embora não despreze o ensino prescritivo, dá preferência ao ensino descritivo que objetiva mostrar ao aluno como a linguagem - e como determinada língua em particular - funcionam. Isso ―sem, necessariamente, alterar as habilidades já adquiridas, porém mostrando a necessidade de saber algo da instituição linguística de que se utiliza para melhor atuar em sociedade‖.

Apresentado esse panorama que revela a essência do conteúdo das entrevistas realizadas com as professoras, tentamos, no próximo tópico, analisar aspectos gerais que perfazem a prática docente alvo de interesse neste trabalho.