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Studiets funn i lys av teorien og dets betydning for norsk ungdom

Iremos então seleccionar alguns exemplos de personagens femininas que, embora fazendo parte da narrativa breve, apresentam uma concepção aproximada à personagem redonda ou modelada, pelo facto de nos surpreenderem em algum momento da diegese, rebelando-se ou tomando uma atitude inesperada.

No conto “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”, a viúva Mississe, “chinesa, mulher de segredos e mistérios”, era, aparentemente, dona de uma vontade própria e senhora do seu destino. Já tinha sido bonita quando era nova, mas agora refugiava -se na sua cantina de onde saíam gritos de dor, aos sábados, depois que a “cerveja lhe molhava o sangue todo”213

. À medida que o narrador vai contando a estória, vamos sendo informados dos detalhes da vida desta mulher: aprisionada dentro de sua própria casa pelas cobras que o Patanhoca lançava no seu quintal, vive recordando a morte dos filhos de ambos. Parece ser uma mulher sofrida, sozinha, a quem a vida já nada poderá oferecer. Contudo, caminhando para o final, percebemos que algo nela mudara, como o próprio narrador anuncia: “Até que uma vez a viúva abriu a porta.”214

Leva a crer que houve uma alteração no comportamento dela, e assim põe “outra vez aquele alvoroço no coração dele.”215

Com efeito, no final percebemos que esta mulher recuperou a sua vontade própria, e mesmo arriscando a própria vida, engana o Patanhoca e tenta o regresso à sua terra natal. Curiosamente, é no início da narração que o leitor conhece o destino trágico desta mulher: a morte por envenenamento das cobras do amante. Embora personagem secundária, ela surge como uma figura capaz de revelar sentimentos próximos dos humanos, dona de uma vontade própria que, no final, lhe valerá a liberdade na morte.

213

Idem, Vozes Anoitecidas, op.cit., p. 157. 214

Ibidem, p. 159. 215

68 Em “As flores de Novidade”, a negra de olhos azuis, “espantadamente bela”216

, era um pouco “vagarosa de mente”217

, mas de uma dedicação extrema a seu pai, o mineiro Jonasse Nhamitando. Ela “crescia sem novidade”218

até que um dia surpreendeu todos com a sua desenvoltura aquando dum bombardeamento sobre a aldeia e sobre a mina. Assim, a mãe “se deixou conduzir pela mão da menina, confiante em não se sabe qual sapiência dela”219

, e ambas entraram no camião que as deveria levar para um lugar seguro. Mas a menina não quis abandonar o pai, ou seria o destino? E saltou do camião, “desafiando o andamento do momento”, “retomou o passo, cruzando a estrada em certo e exposto perigo” e foi escolher flores silvestres, “aquelas de olhar azul” e se fundiu com a terra, “para além do tempo”220

. Assim, uma menina que parecia não ter vontade própria afirma a sua vontade e adquire até uma certa áurea de personagem fantástica, num contexto de guerra.221

Na colectânea Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos encontramos algumas personagens femininas que sendo inicialmente tipificadas, na medida em que correspondem ao estereotipo da mulher africana – submissa, sofredora, obediente, solitária - subitamente se alteram, demonstrando terem vida própria e traços de originalidade. Tomemos como exemplo o conto “As lágrimas de Diamantinha”222

. A personagem principal é Diamantinha, cujas lágrimas são uma espécie de redenção para as almas daqueles que a procuram. Explorada pelo marido, que vê neste choro uma oportunidade de negócio, ela obedece-lhe e lá vai passando os seus dias. Até que aparece no djambalau um homem diferente, estranho até no nome, Florival, que lhe confessa o seu amor e que decide tornar-se mulher para ficar mais perto dela. Então ela desperta e compreende a verdadeira essência do amor, oferecendo-lhe as suas últimas lágrimas e fugindo com ele para paragens incertas.

Ainda na mesma colectânea, a Laura da história “A outra”, mulher ciumenta e desconfiada, surpreende-nos com a sua decisão final de desenraizar a árvore que rivaliza

216

Idem, Estórias Abensonhadas, op.cit., p. 21. 217 Ibidem, p. 21. 218 Ibidem, p.22. 219 Ibidem, p.23. 220 Ibidem, p.25. 221

Estes dois temas, o fantástico e a guerra, serão abordados em capítulos subsequentes. 222

69 com ela no casamento e de a levar para o seu quintal. Assim, a bauhinia e a mulher “parece que trocam confidências por entre a janela”223

.

Mas é na colectânea O Fio das Missangas que as personagens femininas adquirem maior relevância e se revelam mais enigmáticas e surpreendentes. No conto “O cesto”, a personagem feminina revê toda a sua vida e em especial os tempos que tem passado caminhando para o hospital, num registo próximo do monólogo interior. Anseia pela morte do marido, pois só assim ela poderá recuperar a sua “antiquíssima vaidade de mulher”224

, mas quando recebe a notícia do falecimento surpreende o leitor, pois desalinha-se em pranto e regressa a casa em “solitário cortejo pela rua fúnebre”225. Apesar de apanhar de surpresa o leitor, esta reacção de mulher abandonada e até de triste viúva num contexto de anterior submissão no casamento não é caso único no universo contístico de Mia Couto, como iremos ver mais adiante, aliás constitui também uma tipificação da mulher moçambicana, embora surpreendendo por não corresponder às expectativas criadas.

Também no conto “A saia almarrotada” encontramos uma mulher que utiliza um registo em monólogo interior, que lamenta uma vida passada entre o “pano e pranto”226

, sem amor nem divertimento. Obediente às figuras paternas da família, num acto de desespero, deita fogo a si própria em vez de o fazer ao vestido, como era desejo do seu pai. Só no fim, já velha, decide queimar o vestido, mas mantém acesa a chama do amor. Esta personagem mantém inalterada a sua acção durante algum tempo da diegese, mas muda subitamente, num trejeito de ser humano.

Mariazinha, do conto “Na tal noite”, surpreende por ser uma personagem fortemente estereotipada: mãe, esposa, obediente, submissa, dominada pelo marido, espera ansiosamente pela sua chegada na noite de Natal. Tudo decorre como sempre e, só no final compreendemos a rebeldia desta personagem, quando ela ensaia os mesmos gestos para o vizinho que está para chegar, numa traição surpreendente e risível no contexto227. A mesma situação de insurgimento face a uma vida de dor e sofrimento surge nas personagens femininas que protagonizam os contos “Os olhos dos mortos” e

223

Ibidem, p. 70. 224

Mia Couto, O Fio das Missangas, op.cit., p. 25. 225 Ibidem, p. 26. 226 Ibidem, p. 31. 227 Ibidem, p. 51.

70 “Maria Pedra no cruzar dos caminhos”228

. Estas são personagens que inicialmente são tipificadas, mas posteriormente apresentam laivos de personagem modelada, pela capacidade de transgressão.