A maternalização intensiva, identificada por vários autores como a concepção dominante na actualidade (Arendell, 2000; Bell, 2004; Bemiller, 2010; Hattery, 2001; Johnston & Swanson, 2006; Lareau, 2003; Monteiro, 2005), é definida pela sua autora como “a gendered model that advises mother to expend a tremendous amount of time, energy, and money in raising their children” (Hays, 1996, p. x). Mais concretamente, o que constitui novidade nesta concepção, face àquelas anteriormente expostas, é a intensificação dos métodos de criação e educação das crianças e a consequente exigência de uma maior disponibilidade física, emocional e financeira por parte das mães.
Segundo Hays (1996) a ideia de que se deve respeitar o desenvolvimento natural da criança, assim como de que a satisfação das suas necessidades deverá constituir a base do processo educativo, que estão implícitas neste modelo de boa mãe, tem como consequência uma intensificação do papel da mãe na criação e educação das crianças. Tal como a própria autora afirma:
the recommended methods of child rearing become fully intensified: not only have they become expert-guided and child-centred, they are also emotionally absorbing, labor intensive, and financially expensive than ever before. All this money, time, and attention has as it goal not economic productivity or the nation’s greatness but the protection and preservation of the child’s natural innocence, affection, purity and goodness. (p. 46)
A emergência desta nova forma de encarar a criação e educação das crianças, designada de permissiva ou de centrada na criança, pode ser situada no período pós II Guerra Mundial. O desenvolvimento e o impacto social crescente da psicologia, em conjunto com o declínio, um pouco por todo o mundo ocidental, das taxas de mortalidade infantil, contribuem para que o objecto dos peritos não seja somente a questão do bem-estar físico das crianças, mas também o seu bem-estar psicológico (Arnup, 1994; Grant, 1998; Groenendijk & Bakker, 2002; Rose, 1999a).
Simultaneamente, a redescoberta da teoria psicanalítica e a sua interligação com a psicologia do desenvolvimento, designadamente no que diz respeito à importância atribuída às experiências precoces na formação da personalidade ou, mais concretamente, da descrição da forma como as experiências, memórias e fantasias das crianças influenciam a sua personalidade enquanto adultos (Lamb, Ketterlinus & Fracasso, 1992), provoca um interesse crescente, por parte dos peritos psi que até aí se tinham dedicado ao estudo da criança enquanto sujeito individual, pela análise da relação mãe-criança (Hollway, 2006; Rose, 1999a).
A mãe torna-se, desta forma, num objecto de estudo da psicologia do desenvolvimento, surgindo diversas investigações cuja finalidade é o estudo da sua influência, através da análise do comportamento maternal, no desenvolvimento dos filhos. Estes estudos, ao estabelecerem relações entre determinados comportamentos maternais, por vezes minuciosamente descritos, e o nível de desenvolvimento das crianças, possibilitam a definição da boa mãe, permitindo assim uma classificação dos comportamentos e, consequentemente, das próprias mulheres, de acordo com a forma como interagem com os seus filhos.
maternalização intensiva e, designadamente, para a centralidade do papel da mãe, deve- se a John Bowlby, autor da teoria da vinculação. Esta teoria, cujos princípios têm sido divulgados nos manuais, nas revistas e nos programas de rádio e de televisão dirigidos às mães, por autores como Winnicot, através da BBC, ou Françoise Dolto, na France- Inter, para além de ter influenciado as políticas sociais em relação à infância e à maternidade no período pós II Guerra Mundial (Davis, 2008), exerce ainda hoje uma enorme influência na forma como é encarado o desenvolvimento social e emocional da criança (Badinter, s.d.; Franzblau, 1999; Green & Goldwin, 2002; Hays, 1998).
Segundo a teoria da vinculação existe na criança uma necessidade natural e inata de estabelecer uma ligação privilegiada com a mãe, de cuja qualidade dependerá o seu desenvolvimento emocional e social. Mais concretamente, como explica Mayhew (2006), enquanto as crianças com uma vinculação segura se transformam em adultos socialmente responsáveis e autónomos, aquelas cuja vinculação à mãe é classificada como insegura desenvolvem personalidades anti-sociais.
A tónica colocada na existência de uma ligação natural entre mãe e filho, essencial para o desenvolvimento posterior da criança, vem reforçar a ideia de que a mãe não só deve ser a principal prestadora de cuidados físicos e afectivos, mas também de que a forma como interage com o seu filho é determinante para o seu bem-estar psicológico, presente e futuro. Como escreve o próprio Bowlby (1984, p. X) “o que se acredita ser essencial para a saúde mental é que o bebé e a criança pequena experimentem um relacionamento carinhoso, íntimo e contínuo com a mãe (ou mãe- substituta permanente), no qual ambos encontrem satisfação e prazer”.
A importância concedida à mãe, ou mais concretamente à relação que esta estabelece com o filho, está na origem da sua culpabilização quando algo corre mal (Caplan, 1998; Elvin-Nowak & Thomsson, 2001; Groenendijk & Bakker, 2002; Hays, 1996; Knibiehler, 2000; Thurer, 1995; Vanobbergen, 2008). Num estudo em que analisa 125 artigos publicados em revistas científicas sobre saúde mental, nos anos de 1970, 1976 e 1982, Caplan (1998) verifica que as mães são culpabilizadas pelos mais variados problemas, desde a esquizofrenia à agressividade: “In the 125 articles, mothers were blamed for seventy-two different kinds of problems in their offspring, ranging from bed-wetting to schizphrenia, from inability to deal with color blindness to agressive
behavior, from learning problems to 'homicidal transsexualism '” (p. 135).
Abre-se, assim, caminho ao que Groenendijk e Bakker (2002) designam de neurotização da maternidade, visível na transformação da relação mãe-criança na fonte de todos os problemas emocionais, o que aumenta a complexidade da função maternal, a ansiedade das mães e, consequentemente, o recurso aos peritos como fonte de aconselhamento na criação e educação das crianças e, mais concretamente, como forma de assegurar o seu bem-estar psicológico.
Os estudos realizados pelos seguidores de Bowlby permitem ainda que se preste mais atenção à microestrutura da vinculação, ou seja, que se analise de uma forma meticulosa cada aspecto da relação. A relação mãe-criança torna-se, assim, alvo de uma observação minuciosa, em que todos os pormenores são tidos em conta. São utilizadas, neste contexto, observações detalhadas, gravações audio e video, ou seja, todo um conjunto de técnicas que permitem aos psicólogos transformar todos os pequenos pormenores da interacção mãe-criança em conhecimento e que estão na origem da emergência do conceito de mãe sensível, ou seja, de uma mãe capaz de compreender e satisfazer as necessidades da criança.
Os conceitos de mãe sensível assim como de necessidades da criança, acima mencionados, são elementos centrais na concepção de maternalização intensiva. Para além de estarem na origem da classificação da mãe como a prestadora de cuidados mais adequada para os seus filhos, estas noções contribuem ainda para definir as características de uma boa mãe, muitas delas de natureza subjectiva já que se relacionam não com o comportamento em si, mas com a qualidade desse comportamento, como é visível na definição que a seguir se transcreve:
the mother’s responsiveness to her child; her ability to be warm and soothing when the child is distressed; her ability to negotiate conflictual moments; her ability to find interesting, stimulating and creative ways to play; and the quality of her affective interactions with their child. (Biringen, Matheny, Bretherton, Renouf & Sherman, 2000, p. 224)
emocionalmente disponível para satisfazer as necessidades do seu filho, quer seja a necessidade de amor e segurança, quer seja a promoção do seu desenvolvimento cognitivo.
Numa sociedade em que grande percentagem das mães trabalha esta ideologia coloca sérios problemas às mulheres, já que a única escolha possível se se quer ser uma boa mãe é envolver-se intensivamente nessa tarefa (Hays, 1996). A opção que resta é se se opta, quando essa escolha é possível, por exercer uma profissão ou não.
Este facto está na origem de dois discursos acerca da maternidade, derivados da ideologia da maternalização intensiva, o discurso da mãe tradicional, aquela que abdica da sua carreira para se dedicar à criação e educação dos seus filhos, e o discurso da supermãe, que concilia com sucesso a sua profissão e a vida familiar, que empurra o carro do bebé com uma mão e carrega uma pasta na outra (Buxton, 1998; Hays, 1996).
Contudo, como Hays (1996) afirma no final do seu livro, esta ideologia parece estar em transformação. Mais concretamente, como a própria autora afirma, existem indicadores de que uma revolução se está a operar em torno de três dimensões: maior poder público para as mulheres, elevação do estatuto social daqueles que tomam conta das crianças e um maior envolvimento do pai nas tarefas relativas à criação e educação dos filhos.
Este último aspecto está na origem da família democrática (Giddens, 2000), da emergência da ideia de coparentalidade (Vuori, 2009), ou seja, de que ambos os progenitores podem e devem ser responsáveis pela prestação de cuidados aos seus filhos, visível sobretudo, de acordo com Neyrand (2004), no discurso político acerca da igualdade entre géneros. Como afirma Hestbæk (1998) o papel da mãe e do pai na educação e criação das crianças tem estado no centro de diversas discussões, designadamente acerca do papel da pai em relação às crianças mais pequenas, que tem tomado especial relevo no contexto das discussões em torno da regulação do poder paternal nos casos de divórcio (Kurki-Suonio, 2000; Rhoades, 2002).
Apesar do pai estar cada vez mais no centro das atenções e de o termo mãe ser substituído cada vez mais, quer no discurso dos peritos, quer no discurso popular, por termos assexuados, como pais, o que pode ser interpretado como um sinal de que a
ideologia da maternalização intensiva começa a ser contestada, tal não significa que esta transformação dê origem a uma maior igualdade entre os géneros, ou a uma maior participação das pais nas tarefas relacionadas com a prestação de cuidados aos seus filhos (Vuori, 2009). Como verificou Sunderlan (2006) na sua análise de revistas de educação familiar, apesar do crescente recurso a designações neutras, os pais são ainda percepcionados como ajudantes das mães, que são consideradas as principais responsáveis pela criação e educação dos seus filhos.
Segundo Vuori (2009) assumir um papel mais activo no quotidiano das crianças é ainda considerada uma escolha individual, que resulta muitas vezes de uma negociação familiar, sendo que a atribuição de uma maior responsabilidade aos pais não resulta na diminuição da importância atribuída à mãe na criação e educação das crianças, mas sim de uma partilha de tarefas.
Em suma, apesar da crescente atenção concedida ao pai, a mãe continua a ser considerada a principal responsável pela criação e educação das crianças, tarefa que deve realizar com o auxílio dos peritos da infância, se o seu desejo é transformar o seu filho num adulto saudável, equilibrado e feliz.
Assiste-se, assim, ao reforço do poder dos peritos junto das mães, o que também é facilitado pelo aumento do nível educativo das mulheres nas sociedades ocidentais ao longo do século XX, assim como pelo acesso generalizado aos cuidados de saúde, fruto da emergência dos Estados Providência. Apesar de algumas mulheres continuarem a recorrer aos seus vizinhos, amigos e familiares para obter informação acerca da melhor forma de criar e educar os seus filhos, um número cada vez maior de mães recorre aos peritos quando precisa de obter esse tipo de informações (Apple, 2006; Civitas, ZerotoThree, & Brio, 2000; Geboy, 1981; Hays, 1996; Schwalb, Kaway, Shoji, & Tsunetsugu, 1995; Walker, 2005).
Os discursos dos peritos, as ideias e as práticas associados à criação e educação das crianças, o que Hays (1996) designa de cultura da maternidade socialmente apropriada, serão objecto de análise no ponto que se segue.
I.2.2. Discursos dominantes sobre as práticas de maternidade: Geração, criação e