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A proposta metodológica dos CES tornava as escolas diferenciadas de todas as outras encontradas nos diversos sistemas de educação do país, pois estava pautada no que se denomina ensino individualizado ou personalizado19.

Em sentido puro, como apresenta Pimentel (1998), ensino individualizado é o método educativo no qual um professor se ocupa de um único estudante por determinado período de tempo. Sendo assim, seria o mesmo utilizado no passado pelas classes privilegiadas, no qual as crianças não se dirigiam à escola, recebiam formação escolar em casa, destacando-se a figura do preceptor20. Esse entendimento não estaria totalmente correto, pois tais ações educativas, na maioria das experiências, não levavam em conta uma das marcas do ensino individualizado, considerar as características e as necessidades dos estudantes.

Ramírez (1975) alerta para o equívoco cometido, ao entendermos que esse ensino sugere apenas a promoção do individualismo, porque, na verdade, o que se pretende é proporcionar ao estudante o ensino e a atenção necessária que o mesmo merece ter. Para o autor, cada homem possui um ritmo próprio de assimilação e crescimento que se distingue dos demais. Por isso, considera não ser aceitável um

19 Consideraremos neste trabalho ensino individualizado e ensino personalizado como sinônimos. Mas é preciso entender que isso não é consensual entre os estudiosos da área. Para alguns autores, segundo Mello (1982), o ensino individualizado está dividido em graus de individualização, medidos a partir da interferência do professor no processo pedagógico e do poder de decisão do estudante envolvido. O ensino personalizado seria apenas um desses graus, cabendo aos estudantes a seleção dos objetivos e ao professor a escolha dos materiais didáticos a serem utilizados durante todo o processo ensino- aprendizagem.

20De acordo com Cunha (1987), o termo tem origem no século VXI e significa “aquele que ministra preceitos e instruções”.

ensino para uma massa, que se baseia num hipotético estudante intermediário, ou médio, que acaba impedindo muitos de avançar, abandonando outros que não conseguem acompanhar o ritmo imposto.

Saldanha (1972) considera a origem do ensino individualizado no pensamento de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) e Santo Tomás de Aquino (1224 – 1274), pois, para a referida autora, em ambos se verifica a intenção de colocar o estudante no centro do processo, sendo ele o responsável pela aprendizagem, cabendo ao mestre o papel de orientador da autoinstrução do estudante. Afirma ainda que a individualização do ensino foi sistematizada por John Dewey (1859 – 1952) e se pautava na utilização do método científico, na participação ativa do estudante, na orientação individualizada e na busca pela socialização dos conhecimentos. A partir dos trabalhos de Dewey, surgem variadas experiências, como as de Robert Dottrens (1893 1984), Ovide Decroly (1871 1932), Maria Montessori (1870 1952), Fred Simmons Keller (1899 1996), dentre tantos outros.

Parra (1978) credita que a ampla divulgação do ensino individualizado se deu por três razões, a primeira seria fruto da insatisfação das sociedades, naqueles países onde a comunidade costuma participar ativamente do processo educacional, com a qualidade do ensino ofertado. A segunda estaria no desenvolvimento da tecnologia educacional, trazendo não só um amplo arsenal instrumental adequado, como também diversos estilos de aprendizagem, influenciando em características sistêmicas, para conhecer o potencial do estudante, suas limitações, o nível de domínio dos conteúdos, suas habilidades, entre outros. Que revelam as diferenças individuais de cada um estudante. A terceira repousa nas contribuições da psicologia, reconhecendo as diferenças individuais, como fator importante no processo ensino-aprendizagem. Saldanha (1972) aponta a grande relevância do trabalho de Jean Piaget (1896 –1980), que procurou compreender o desenvolvimento do ser humano a partir de dois movimentos relacionados ao conhecimento, a assimilação e a acomodação. Através do primeiro, cada sujeito vai adaptando os novos conhecimentos ao seu mundo pessoal; através do segundo, vai se adaptando ao mundo, dentro do seu próprio ritmo. Nessa perspectiva, o processo de aprendizagem, para ser efetivo, deve estar centrado no sujeito:

[...] cada indivíduo desenvolve os processos de assimilação e de acomodação segundo seu ritmo próprio, ou seja, cada indivíduo alcança o equilíbrio das estruturas cognoscitivas, numa determinada

situação de aprendizagem, em diferentes períodos de tempo. Isto significa que cada indivíduo deve ter sua oportunidade de avançar na aprendizagem não só de acordo com suas capacidades e motivações, mas também segundo o seu ritmo próprio. (SALDANHA, 1972, p. 53) Além desse posicionamento de respeito às individualidades, Zaniol (1982) e Parra (1978) destacam ainda que as teorias behavioristas21 deixaram influências na estruturação do ensino individualizado, principalmente em procedimentos para a aquisição de novos comportamentos, a ser mensurados no levantamento do comportamento inicial e final do sujeito envolvido.

É dentro desse entendimento de respeito a cada sujeito e da mensuração de comportamentos que encontramos uma definição adequada para o entendimento do ensino individualizado. Por isso, podemos entendê-lo como

[...] um método que atende às diferenças individuais, proporciona a cada um o tempo necessário para atingir os objetivos e conduz os estudantes a elevado nível de proficiência no atingimento de objetivos. (ZANIOL, 1982, p. 12)

Como já abordamos, surgiram várias experiências de ensino individualizado. E de acordo com Zaniol (1982), todas deveriam seguir alguns princípios básicos que listamos abaixo:

1 – a modificação de comportamento a ser atingido pelo estudante deve ser algo a ser concretamente observado e mensurado;

2 – para que o professor possa programar um ensino adequado ao estudante, precisa realizar um levantamento prévio para quantificar as aquisições pretendidas no final do processo;

3 – o estudante deve participar ativamente do processo de aprender; para tanto, a realização de exercícios, atividades de campo e experiências de laboratório são fundamentais no alcance dessa participação;

4 – o estudante deverá ser informado constantemente do seu desempenho nas atividades, pois o sucesso reforça para a continuação dos estudos; ao conhecer o fracasso, o estudante evita sua repetição;

21 De acordo com Abbagnano (2012, p.119), o behaviorismo trata-se de uma “corrente da psicologia contemporânea que tende a restringir a psicologia ao estudo do comportamento, eliminando qualquer referência ‘consciência’, ao ‘espírito’, e, em geral, ao que não pode ser observado e descrito em termos objetivos”.

5 – o programa instrucional se desenvolve e deve ser percorrido em pequenas etapas;

6 – programar contingências de reforço para aumentar comportamentos desejados, pois as pessoas tendem, em suas vidas diárias, a se comportar de modo a evitar experiências negativas e a repetir experiências recompensadoras. Por isso, ações como elogios verbais, reconhecimento público, participação em atividades de interesse do estudante após bons resultados, utilização de materiais que conduzem ao sucesso do estudante, são importantes para reforçar comportamentos positivos nos estudantes;

7 – o estudante deve ser o responsável por controlar a velocidade do seu progresso nos estudos, pois cada estudante tem características, história de vida, experiência e tempo disponível para se dedicar aos estudos.

Percebe-se que, independentemente da proposta de ensino individualizado a ser considerado, o que se busca é atender às necessidades educativas, respeitando as possibilidades e as limitações de cada sujeito. Deve haver claro entendimento de que todos são capazes de seguir com os estudos e aprender, mas cada sujeito necessita de um tempo hábil para conseguir atingir determinados objetivos. Essa forma de pensar a educação é contrastante com o modelo chamado tradicional. Para compreender melhor as diferenças entre o ensino tradicional e o ensino individualizado, podemos utilizar o quadro comparativo dessas duas propostas.

Quadro 09 – Comparação entre as características do ensino tradicional e as do ensino

individualizado.

ENSINO TRADICIONAL ENSINO INDIVIDUALIZADO

O foco está no trabalho do professor. O foco está no trabalho do estudante. O estudante participa passivamente. O estudante participa ativamente. Tempo de estudo constante. Tempo de estudo variável.

Objetivos para conhecimento do professor. Objetivos definidos para o conhecimento do estudante.

Predominância de um meio instrucional. Utilização de múltiplos meios de acordo com os objetivos

O professor é o veículo transmissor da

informação. O professor planeja as situações de ensino-aprendizagem, orienta e avalia. O material didático complementa as

informações do professor. O material didático promove a autoinstrução. Fonte: Zaniol (1982).

Como podemos verificar nesse quadro, as posições ocupadas por estudantes e professores no processo ensino-aprendizagem se invertem nas duas propostas. No ensino individualizado, os estudantes participam ativamente das atividades propostas e passam a ser o centro de todo o processo, e não mais o professor. A função principal deste é facilitar e orientar a aprendizagem, avaliando, planejando atividades que poderiam prever a utilização de variados recursos didáticos promotores da autoinstrução, haja visto que o professor não se configura como única fonte de informação.