4.3.1 Trabalhando com o conceito de patrimônio individual e coletivo
Mas qual será o significado do conceito de patrimônio para crianças de dez anos? Será que possuem uma ideia de que o termo vem nos últimos anos alcançando e abrangendo expressões culturais tão distintas entre si?
Ao realizar a atividade O que é Patrimônio? , em sala de aula, com as turmas do estudo de caso, totalizando 65 alunos, buscamos analisar quais relações eram possíveis de serem feitas, se eles eram capazes de compreender conceitos como o de patrimônio pessoal e coletivo, já que, em um momento anterior, como já descrito no Capítulo 3, diversas definições foram citadas, escritas no quadro e agrupadas por categorias: patrimônio natural e cultural, patrimônio coletivo e individual.
A atividade apresentou como proposta que os alunos expressassem por meio de registros pictóricos e escritos, as seguintes questões: 1) Escreva o que significa patrimônio para você., 2) Agora, vamos desenhar: um patrimônio coletivo., 3) Um patrimônio individual.
Na primeira questão, encontramos diferentes tipos de categorias de patrimônio, que muitas, vezes têm relação com a vida pessoal das crianças e que têm importância para ela. Assim, foram citados: animais, a casa, o padre, o casaco e a escola. Algumas respostas ampliaram o universo individual e mencionaram a natureza, a ecologia, a mata, fruto do trabalho de educação ambiental desenvolvido nas escolas; outras, ainda, associaram a palavra patrimônio a algo, velho, antigo, ou mesmo a uma coisa “nossa” ou da família, e, finalmente, muitas crianças simplesmente afirmaram que desconheciam a palavra.
Seguem algumas respostas que ilustram o que foi mencionado acima: “O patrimônio é coisa preciosa” (Yasmim)
“Coisa velha” (Alex)
“Patrimônio é coisa antiga” (Vinícius)
“É um lugar onde fica coisa antiga e uma coisa nossa, é também a escola, coisas preciosas, natureza, casamento, padre, estojo e bonde” (Victor)
“Eu acho que patrimônio é uma coisa nossa, não só nossa como de nossos parentes, amigos e de todos, e o nosso patrimônio a gente tem que cuidar, zelar, se a gente quiser que esse patrimônio dure para sempre” (Vitória)
“É a escola” (Luma)
Na segunda questão, os alunos escolheram como patrimônio coletivo: a natureza, a escola, o mundo, Deus, a cidade, ônibus, o planeta, a praia, entre outros, sendo os mais lembrados a natureza e o planeta, por identificarem como algo pertencente a todos.
Na última questão, os alunos identificaram como patrimônio pessoal objetos de importância para sua vida, tais como: computador, celular, roupa, a casa, fotografias, a bola, óculos, boneca, bolinha de gude, o videogame, um anel, pulseira, o celular, a mochila e o cachorro. Também foram citados o amor, a família, o time de futebol e os amigos.
Acreditamos que os alunos foram capazes de compreender os conceitos trabalhados, identificando que o patrimônio é algo que merece ser cuidado e preservado, porque tem um valor para a comunidade em que está inserido e para o indivíduo ao qual o pertence.
4.3.2 Fotografias e sentimentos: patrimônio de Santos
A atividade já relatada no Capítulo 3 objetivou analisar imagens antigas da cidade de Santos e propunha que os alunos respondessem, apenas utilizando a observação, as seguintes questões: 1) O que vemos?, 2) Que sons podem ouvir?, 3) Que cheiros podem sentir? e 4) O que está acontecendo?.
De uma maneira geral, os alunos, divididos em grupos, formularam hipóteses interessantes sobre as fotografias que retratavam a cidade de Santos no início do século XX.
Por meio das imagens, foi possível estabelecer uma conexão com o passado e comparar as mudanças e permanências ocorridas ao longo dos anos e perceber que tipo de trabalho era o mais comum no porto de Santos, qual era o nosso principal produto exportador, analisar as péssimas condições de higiene do porto e a necessidade da construção de canais de dragagem.
Os alunos também apreenderam quais eram os meios de transportes utilizados pela população (bonde e carroças), além de identificarem as principais construções da cidade, que, naquele momento, se concentravam na área central, podendo comparar com a realidade atual, em que o Centro da cidade é hoje uma área desvalorizada, em comparação com a região da orla santista.
Assim, a atividade proporcionou uma série de discussões sobre a ocupação da cidade, seus modos de vida, valores, formas de morar, tipos de construções, espaços de convivência e lazer e a influência da igreja na vida das pessoas.
A seguir, iremos registra e analisar as impressões de quatro imagens:
Grupo 1: Washington, Aline, Stephany, Adilson, Pedro e Vitor Hugo.
1) O que estamos vendo? “Uma casa de câmara e cadeia, casarões, postes de luz e cavalos”
2) Que sons podem ouvir? “Pessoas conversando sobre a cadeia”
3) Que cheiros podem sentir? “Cheiro de suor, cheiro de cocô de cavalo e cheiro de comida estragada”
4) O que está acontecendo? “Pessoas conversando, trabalhando e os guardas na janela vigiando”
Fig. 49: Casa de Câmara e Cadeia. Albúmen – 11,0 x 17, 3 cm. Fonte: Acervo Instituto Moreira Salles.
Grupo 2: João Vítor, Fábio, Kevin, Tárcio e Jorge.
1) O que estamos vendo? “Pessoas, prédios de três andares, postes, igrejas, trilho de bonde e casas”
2) Que sons podem ouvir? “Sino tocando, pessoas falando e padre falando” 3) Que cheiros podem sentir? “De café, perfume, gás”
4) O que está acontecendo? “Uma missa campal na Praça da República, no antigo Largo da Matriz que foi demolida em 1908.”
Fig. 50: Missa campal na Praça da República, antigo Largo da Matriz, 1908. Fonte: reprodução de cartão postal de João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo.
Grupo 3: Raquel, Vitória, Nathali, Nicolly, Medina, Evelin Gabriela.
1) O que estamos vendo? “Barcos, sacos de café, açúcar, pessoas e casas” 2) Que sons podem ouvir? “Mar, pessoas falando, sino de igreja, barulho das
carroças e do cavalo andando”
3) Que cheiros podem sentir? “Café, açúcar, cheiro de esgoto, de comida” 4) O que está acontecendo? “As pessoas estão transportando café”
Fig. 51: Marc Ferrez e o Porto de Santos, 1889. O mercado e o cais vistos do convés de um navio. Fonte: Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.
Grupo 4: Sara, Nayara, Vinícius e Sandy.
1) O que estamos vendo? “Estátua de Brás Cubas, muita movimentação, praça e bondinho carregado por burros”
2) Que sons podem ouvir? “Som das pessoas falando, o coral da Igreja cantando, o som da missa”
3) Que cheiros podem sentir?“Podemos sentir o cheiro do café, das fezes dos cavalos, cheiro de comida”
4) O que está acontecendo? “As pessoas estão assistindo uma missa, observando a estátua e andando de bondinho e charrete”
Fig. 52: Praça da República, 1908.
Fonte: reprodução de cartão postal de João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo.