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Strong growth in public spending

In document Inflation Report Fourth Quarter 1999 (sider 30-33)

Cerisara (1999) aprofunda a discussão do educar e cuidar em seu trabalho, Educar e cuidar: por onde anda a educação infantil, apresentando um panorama da Educação Infantil na última década do século XX. Partindo da Constituição de 1988 e da LDBEN de 1996, Cerisara (1999) busca apontar as concepções de creches e pré-escolas enquanto instituições educativas inseridas em seu contexto histórico. Segundo a autora, existe uma falsa dicotomia entre instituição de trabalho assistencialista e instituição de trabalho educativo, sendo que, todas as instituições eram de caráter educativo e só se diferenciavam em relação ao público

atendido. Instituições de educação assistencial eram voltadas para as crianças pobres e órfãs e as de educação escolarizante se direcionavam aos menos pobres. Seguindo estas questões, a autora aponta que as atividades ligadas a higiene, alimentação e sono eram desvalorizadas, enquanto as atividades consideradas pedagógicas eram consideradas como sérias e merecedoras de valor e atenção (CERISARA, 1996, p.12).

As instituições destinadas ao público infantil avançaram, resultando das lutas em torno dos movimentos em prol da criança, do adolescente e da mulher, representantes da sociedade civil, transformações na sociedade, nas famílias, e nos centros urbanos, principalmente com a entrada das mulheres no mercado de trabalho (CAMPOS, 1994, 2008, 2014). As instituições de Educação Infantil teriam a partir dali a tarefa de “trabalhar de forma indissociável e complementar a educação e o cuidado das crianças pequenas” (CERISARA, 1996, p.15). A transformação da Educação Infantil em nível de ensino com uma pedagogia própria, o envolvimento do cuidar e do educar, a necessidade de formação específica dos profissionais atuantes são, de acordo com Cerisara (1996) e Campos (1994), os desafios dessa mudança.

Por sua vez, Carvalho (1999) aponta a categoria cuidado como central para compreendermos o fazer diário de professores da Educação Infantil, em que a prática gira em torno da prestação de serviços pessoais, do carinho, do envolvimento afetivo, dos atos ligados à saúde e ao corpo, aspectos relativos aos valores éticos de compromisso e de responsabilidade. Uma abordagem histórico-social da infância é importante para entendermos o trabalho docente nesta etapa da educação básica em relação ao cuidado, mais adequado aos conceitos de maternagem e de qualificação feminina.

Na esteira de Carvalho (1999) podemos considerar que o cuidado se refere hoje a um conjunto de práticas sociais engendradas pela modernidade a partir de mudanças sociais e culturais na vida de homens, mulheres e crianças, atravessando os processos socializadores no cotidiano familiar, como também no universo escolar. O cuidado se efetiva através do encontro entre o adulto e a criança e o exercício profissional na escola seria uma extensão do papel doméstico da mulher, de mãe, de dona de casa, características menos competitivas, mais afetivas, relacionais, intuitivas e cuidadosas, pensando em uma interpretação contextualizada e amparada na construção histórica. “[...] o “cuidado” não é o único modelo de relação adulto- criança, ou a priori, o melhor, mas um modelo gestado historicamente nas sociedades ocidentais a partir de certas condições e associado especialmente às mulheres” (CARVALHO, 1999, p.59).

[...] a criança dessa faixa etária demanda um tipo de atendimento que não se encaixa

no modelo escolar – organização do tempo em aulas centradas na condução do

sobre essas diferenças, geralmente a função de “cuidado” é enfatizada como especificidade do trabalho na creche. No entanto, não é apenas esse o aspecto a ser considerado. Para crianças muito pequenas, o dia a dia na creche não se passa da mesma forma que na escola. Os diversos momentos e situações vividas ocorrem em um contexto muito mais informal, sem contornos nítidos que separem as atividades por sua natureza educativa, de cuidado ou de proteção. Tudo acontece de maneira integrada e a organização do tempo e do espaço deve permitir que o cotidiano ofereça oportunidades de desenvolvimento, de socialização e de interação às crianças, de acordo com suas possibilidades e necessidades (CAMPOS, 2008, p.127).

Verifica-se hoje que instituições de Educação Infantil, creches e pré-escolas, especialmente as creches, mantém em seus quadros a função de cuidador de crianças ou monitor infantil, este é um auxiliar das professoras da Educação Infantil que realiza, de certa forma, as mesmas tarefas da professora, profissional com formação específica, mas que se encontra em situação de desigualdade salarial e de carreira, como apontam os estudos de Pinto, Duarte e Vieira (2012), Oliveira e Silva (2007, 2013) e Campos (1994).

Campos (1994) em Educar e cuidar: questões sobre o perfil do Professional de educação infantil apresenta questões relativas ao cuidado, necessidades, oportunidades, auxílios destinados à criança na faixa etária de 0 a 5 anos e que devem ser respeitados pelas instituições educacionais. A creche, por sua vez, primeira etapa da educação básica, ainda hoje é vista muitas vezes como lugar onde o cuidado tem uma dimensão maior que a educação, o trabalho realizado com esse público é visto apenas como um conjunto de cuidados básicos que precisam ser realizados fora de casa. Cuidado e atenção são as primeiras preocupações identificadas nos relatos de quem procura instituições que atendam a criança pequena, ou seja, as famílias buscam um ambiente lúdico e seguro, que ofereça cuidados com a higiene, alimentação adequada, segurança em relação a acidentes e principalmente que contem com profissionais atenciosos e cuidadosos.

No Brasil, como destaca Carvalho (1999), alguns momentos históricos foram decisivos na constituição dos discursos e práticas de cuidado. A autora baseia-se em Fernando Novais (1997), História da Vida Privada no Brasil, para falar sobre a problemática que a vida privada e a esfera pública, que se apresentavam ligadas, apresentava no período colonial.

Para Novais, as manifestações de intimidade só vão se delineando em contraposição ao lento processo de gestação da nacionalidade, processo que dá início à delimitação de uma esfera pública. Esse quadro se complexifica pela presença da escravidão, “relação social dominante, embora não exclusiva”, nos termos de Novais (1997, p.29) e que coloca em primeiro plano a articulação entre privacidade e privilégio (CARVALHO, 1999, p.90).

Sobre o discurso educacional brasileiro no período colonial, Carvalho (1999) cita Marta Carvalho (1986), para falar em mudança no discurso educacional dominante, que passa a defender a escola pública não mais como templo da ciência, mas uma necessária atuação

frente à moralização, disciplina e higiene. Para que o Brasil alcançasse o progresso era necessário se ater ao povo mestiço, doente, ignorante e indisciplinado, utilizando a escolarização para o controle do corpo e da mente, disciplina para o trabalho e hábitos de higiene, promovendo assim a nacionalidade brasileira.

A criança, também presente nos discursos de meados do século XX, período em que se afirma a Pedagogia da Escola Nova, é vista como portadora de uma natureza própria, diferente do adulto, e esta precisa ser moldada através da educação.

A infância que se constrói nesses discursos é assim uma infância que deverá vir a ser laboriosa, ativa (no sentido de trabalhadora), virtuosa, sadia, disciplinada, higiênica e obediente. Enquanto principal instrumento na consecução desse projeto, a escola primária deve lançar mão de uma disciplina e uma eficiência inspirada nos novos modelos que a máquina e a fábrica imprimem à sociedade: aquela disciplina moderna, antes de mais nada voluntária, consciente, internalizada, conseguida sem recurso à força ou medidas externas (CARVALHO, 1999, p.91).

Todos os elementos apresentados precisam ser reunidos para que nos proporcionem bases sólidas para as investigações empíricas. Compreender as nuances do gênero na profissão do magistério pode possibilitar uma atuação mais coerente, crítica, consciente e reflexiva, livres de naturalizações, explicações reducionistas, simplificações, preconceitos e equívocos. Investigações que busquem o fazer diário, a prática das mulheres professoras na docência da Educação Infantil atual nos possibilitarão a desnaturalização provocada pela falta de conhecimento sociohistórico do campo e a abertura para novas propostas e experiências em favor da criança pequena.

Como aponta Aragão (2013), a representação da mulher professora enquanto uma boa mãe, que ocasionou a negligência de gestores e governantes em investimentos na formação, precisa ser abandonada para que uma formação docente completa, teórica, subjetiva e relacional, seja colocada em primeiro plano e para que a sociedade enxergue essa mulher professora é preciso que ela própria se aproprie e se coloque no papel de protagonista e autora de sua profissão, é o que abordaremos na próxima seção.

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