O presente estudo teve como objetivo geral avaliar o engajamento escolar, a utilização de estratégias de aprendizagem e a compreensão de leitura de alunos do Ensino Médio de duas Intituições Públcas do Norte do Paraná. Os objetivos específicos visaram levantar e buscar possíveis relações entre as variáveis estudadas, para isso recorreu-se à correlação de Pearson. Neste contexto, esta seção apresenta a discussão dos resultados obtidos, tendo em vista o referencial teórico e os resultados encontrados em outras pesquisas.
Quanto à proposta do estudo e visando atender os objetivos da pesquisa foram feitas análises estátisticas descritivas e inferencial. Para avaliar o engajamento foi utilizado como instrumento um questionário de Megliato (2011). A análise dos dados revelou que, à média de pontos acerca da avaliação de engajamento foi de 58,5, sendo a pontuação mínima de 32 pontos e a máxima de 91, pode-se dizer com esses resultados que, houve uma variação considerável. Isso equivale dizer que os participantes deste estudo estão com um nível de engajamento escolar considerado como médio, haja vista que não obtiveram resultados tão baixos nessa escala. Essa análise revela que o engajamento aumenta à medida que o aluno se identifica com a atividade escolar. No entanto, hipotetiza-se que a motivação e o interesse com a atividade realizada podem aferir o engajamento do aluno.
Faria (2008) corrobora com os dados deste estudo, pois ao investigar alunos de uma escola Pública de Belo Horizonte o autor também evidenciou que os alunos do Ensino Médio investigados também demonstraram engajamento nas tarefas escolares. O autor afirma que o engajamento ocorre quando os estudantes demonstram compreender os objetivos da atividade. Esse conceito permite olhar para a maneira como os estudantes se relacionam com a atividade de forma diferenciada. O interesse acerca do engajamento escolar e os esforços para aumentá-lo têm sido recorrentes entre os educadores e pesquisadores do contexto escolar nas últimas seis décadas (FARIA, 2008).
Os dados encontrados na presente pesquisa e também no estudo de Faria (2008) podem ser compreendidos com base na seguinte hipótese: é possivel que os alunos do Ensino Médio demonstrem maior engajamento, pois estão prestes a ingressar no mercado de trabalho e/ou no Ensino Superior. Partindo desse
pressuposto, Fredricks, Blumenfeld e Paris (2004) apontam que o engajamento é um conceito que se refere à relação que o estudante estabelece com as atividades escolares que lhes são propostas. Essa relação é influenciada pela interação entre o estudante e o contexto no qual a atividade ocorre, envolvendo aspectos comportamentais, emocionais e cognitivos. Nessa mesma direção, Smalls (2008) relaciona o engajamento escolar às atitudes dos estudantes com as atividades e situações em sala de aula e a sua persistência nas tarefas escolares, enfatizando que o engajamento não se restringe apenas ao ambiente da sala de aula.
Evidente que somente o fato de ingressar no mercado ou Ensino Superior ainda é pouco como hipótese que explicaria o resultado. Dessa forma, Júlio, Vaz e Fagundes (2011) ao analisarem alunos do Ensino Médio de uma escola Pública Federal concluiram que a participação dos alunos depende de aspectos intrínsecos da dinâmica dos grupos de aprendizagem. Por isso é possível supor que pode ser que os alunos participantes tenham tido experiências intrínsecas mais positivas e isso também tenha beneficiado seu engajamento.
Outra questão levantada por Santos et al. (2014) é o papel da relação parental. Santos et al. (2014) ao buscarem conhecer a correlação entre as dimensões (responsividade e exigência) dos estilos parentais e o engajamento escolar apontaram que, quando as mães são sensíveis às necessidades de seus filhos, apoiando-lhes e provendo-lhes afeto, estes se sentem valorizados e apoiados emocionalmente, aspectos que favorecem a autoestima e o engajamento escolar.
A esse respeito, Stelko-Pereira, Valle e Williams (2015) ao analisarem o 1º ano do Ensino Médio de duas Escolas Públicas de uma cidade do interior de São Paulo apontaram que quando os pais são mais exigentes na educação escolar de seus filhos, os mesmos demonstram mais independência, autoconfiança e engajados nas atividades escolares. Os autores apontam que o engajamento maleável é relevante para prever e prevenir o abandono escolar, bem como facilitar os resultados educacionais positivos para todos os alunos. Appleton e Reshly (2006) vão além e concordam que o engajamento é o alicerce para uma reforma do Ensino Médio.
Para responder ao que concerne levantar as Estratégias de Aprendizagem foram feitas análises descritivas e inferencial. Cabe lembrar que os dados foram obtidos com a utilização da Escala de Avaliação das Estratégias de Aprendizagem – EAVAP-EF- (OLIVEIRA; BORUCHOVITCH; SANTOS, 2010). Pela
análise dos dados pôde-se verificar que, enquanto a média das Estratégias Cognitivas ficou em 8,0, às Estratégias Metacognitivas ficou em 9,8. Já para às Estratégias Metacognitivas Disfuncionais a média foi de 13,5. A partir desses dados, é possível dizer que os alunos são mais orientados metacognitivamente.
Considerando-se os escores máximos possíveis em cada subescala e na escala total de estratégias de aprendizagem, constata-se, em linhas gerais, que os participantes utilizam as estratégias de aprendizagem, sobretudo das metacognitivas, mencionando uma considerável ausência de estratégias metacognitivas disfuncionais. Os dados da presente pesquisa vão de encontro aos dados obtidos por Scacchetti (2013). Pois o referido autor ao investigar a motivação para aprender e a utlização de estratégias de aprendizagem em alunos do Ensino Técnico profissional, utilizando como referência a classificação de estratégias cognitivas e metacognitivas, obteve um escore maior para a utilização de estratégias cognitivas do que para metacognitivas. Talvez esse fato tenha acontecido, pois hipotetiza-se que o Ensino Médio Técnico seja mais instrucional, o que talvez, remetesse as estratégias cognitivas, ao passo que o Ensino Médio regular seria mais amplo no sentido de não ser tão auto-dirigido, de modo que ficaria mais propício ao emprego daquelas metacognitivas.
Cabe lembrar que a literatura científica sobre o assunto indica que os alunos, de uma forma geral, independentemente da etapa de escolarização, não utilizam ou até mesmo desconhecem as estratégias de aprendizagem (RIBEIRO, 2014). O repertório reduzido de estratégias de aprendizagem e principalmente quanto à diversificação durante a utilização, remete às deficiências no ensino de estratégias, principalmente pela falta de políticas educacionais concisas, comprometidas em reverter a atual situação, na qual os alunos percorrem o ensino com sérias deficiências educacionais em diversas habilidades escolares. Reforçando essa afirmação, a partir de uma revisão na literatura sobre o tema, Costa e Boruchovitch (2000) levantaram alguns pontos que influenciam o uso de estratégias e, dentre estes, destacam-se variáveis motivacionais, em geral, crenças sobre inteligência, autoeficácia, idade e série escolar, entre outros aspectos.
O uso das estratégias possibilita ao indivíduo instrumentos para potencializar os estudos, permitindo entender e compreender a informação, considerados processos básicos em qualquer aprendizagem e realização cognitiva, além dos processos metacognitivos de planejar, monitorar e regular a aprendizagem
(GOMES, 2002; BORUCHOVITCH et al., 2006; OLIVEIRA, 2008). Diante dessa análise de dados, observa-se que o estudante cognitivamente engajado ou autorregulado é aquele que utiliza estratégias para elaborar e organizar o material a ser aprendido, bem como para planejar, monitorar e regular sua cognição, tempo e ambiente de estudo e o seu esforço cognitivo antes, durante e após a realização das tarefas de aprendizagem. As análises permitiram, dentre outras reflexões, supor que as práticas de leitura voltam-se ainda à visão conteudista, ao trabalho de resumos e fragmentos, não permitindo, com isso, que o educando se torne um leitor proficiente. Nesse sentido, o presente estudo trouxe contribuições relevantes, ao indicar que os alunos do Ensino Médio recorrem pouco às estratégias metacognitivas e às estratégias cognitivas e, quando as utilizam, eles o fazem de maneira mecânica mostrando com isso a necessidade de mais ações docentes e divulgação desses dados de pesquisas. No entanto, ainda há muito o que se aprender e estudar acerca do uso das estratégias, pois observa-se que, em regra geral, todos os estudantes deveriam dominar as estratégias, tais como, escrever palavras-chaves, paráfrases, riscar textos, e também a refletir sobre a sua utilização, no entanto, nem sempre isso acontece.
No que tange ao levantamento da compreensão de leitura foi usado o Teste de Cloze, lembrando que foi empregado o texto de Veríssimo (1995), intitulado “Desentendimento”, adaptado por Santos (2005). Foi possível levantar que a média de pontos da compreensão de leitura foi de 16,9 (DP= 6,3), a pontuação mínima foi de 0 e a máxima 35. Com esses dados pode-se dizer que a compreensão de leitura está muito aquém do esperado para esse tipo de escolaridade, haja vista que estão na iminência de ingressarem na Universidade e/ou no mercado de trabalho.
Apesar da compreensão de leitura no Ensino Médio ser fator preponderante para esse tipo de escolaridade, Joly, Santos e Marini (2006) ressaltam que as dificuldades dos alunos no entendimento dos textos pode ser justificada pelo pouco conhecimento que estes têm acerca de sua própria compreensão, ou seja, da pouca utilização de estratégias de leitura. A pesquisa de Oliveira, Cantalice e Freitas (2009) vai ao encontro desse estudo, pois ao buscarem verificar a compreensão de leitura com alunos do Ensino Médio constataram que a média de acertos foi muito baixa, indicando que os alunos apresentam sérias dificuldades para essa etapa de escolarização. Nessa direção, Joly e Piovezan
(2011) avaliaram a compreensão de leitura com alunos do Ensino Médio e observaram que os estudantes utilizam mais estratégias do que solução de problemas na leitura, o que denota ações empreendidas quando há dificuldade para o entendimento dos textos.
No entanto, o que mais chama a atenção é o fato de que a leitura, segundo Brito (2010) apesar de ser apresentada como habitual, não é uma tarefa simples, pois, exige que o leitor consiga transformar a informação lida e estabelecer relações com as informações já armazenadas ou vivenciadas por ele, tornando-se com isso um leitor proficiente. Cabe aqui ressaltar que a leitura e os processos que envolvem sua compreensão são habilidades relevantes e tão necessárias não apenas na educação formal quanto na educação informal, visto que o estudante estará aplicando todo conhecimento adquirido no contexto escolar na sociedade na qual está inserido. Para Garner e Alexander (1989), uma explicação plausível para esta dificuldade de compreensão de leitura são as relações estabelecidas com os diferentes gêneros textuais que circulam em nossa sociedade e as diferenças na motivação dos alunos. Posto isto, muitos são os desafios para se buscar estratégicas de enfrentamento para que a baixa compreensão de leitura dos estudantes sejam remediada e desenvolvida de forma eficiente.
Com o objetivo de buscar possíveis relações entre o engajamento escolar, as estratégias de aprendizagem e a compreensão de leitura dos alunos do Ensino Médio utilizou-se correlação de Pearson. Os dados revelaram que quanto mais engajado, melhor é o comportamento estratatégico e a compreensão de leitura. As relações foram todas positivas e significantes. Esse dado leva a reflexão hipotética de que quanto maior o investimento na formação do aluno, na qualidade de sua leitura melhor engajamento ele terá na realização das tarefas, por isso há que se investir em projetos interventivos que possam ensinar o aluno a estudar de modo a melhorar a habilidade de leitura. Cabe mencionar que não foi possível localizar na literatura estudo que tivesse relacionado as três variáveis aqui investigadas de modo que pudéssemos ter um parâmetro de comparação.
Cabe aqui ressaltar que a observação e avaliação in loco permitiu constatar e avaliar na prática, visto que, a pesquisadora é docente em uma das instituições, de que o aluno não é um mero espectador passivo ao processo de aprendizagem, mas um sujeito ativo neste processo. Esta condição é primordal e necessária para o aprimoramento do educando à medida que recebe novos desafios
para aprender e fazer uso das estratégias nas aprendizagens, principalmente, no que tange à aquisição e compreensão de leitura.
Pode-se salientar que o primeiro aspecto proeminente é que os alunos, de modo geral, desconhecem ou não utilizam as estratégias de aprendizagem adequadas durante a leitura e isso nos remete às deficiências no ensino de estratégias, principalmente pela falta de políticas educacionais concisas, comprometidas em reverter a atual situação. É consensual que a maioria dos alunos percorre todo o Ensino Médio com sérias deficiências educacionais, principalmente, quanto à compreensão de leitura. Além da necessidade de investimentos em materiais para leitura dentro da educação formal, é indispensável que o aluno tenha acesso a diferentes gêneros textuais para que possa manifestar opiniões reflexivas e divergentes das apresentadas pelo autor do texto, bem como identificar problemas e apresentar soluções (AMARAL, 2010).
Diante destas pesquisas e das análises apontadas pela literatura, percebe-se que o estudo é extremamente relevante no que concerne às carências e aquisição da leitura e que, ainda, há muito o que pode e deve ser pesquisado, principalmente, as relacionadas à compreensão dos textos nessa fase do Ensino Médio. Em suma, este estudo aponta a necessidade de implementar novos projetos com disciplinas voltadas à formação do leitor, em que se criem oportunidades aos alunos para que saibam utilizar técnicas e estratégias de leitura, entre outros. Nessa direção, faz-se necessário que a leitura seja contemplada na educação formal de maneira profícua e rotineira para que tenhamos em um futuro próximo leitores proficientes que sejam capazes de ler, compreender e refletirem sobre o que estão lendo.
Cabe destacar que, no que diz respeito aos instrumentos utilizados, o presente estudo trouxe algumas contribuições que podem ser utilizadas para trabalhos futuros. Quanto ao uso da técnica Cloze e à EAVAP-EF para avaliar a compreensão de leitura e desempenho em alunos do Ensino Médio, pôde-se observar que os instrumentos mostraram-se eficientes para aplicação nas séries investigadas e atingiram o objetivo proposto pelo estudo.
Por fim, cabe lembrar que, pretendeu-se apenas evidenciar a realidade dos alunos do Ensino Médio de duas Instituições Estaduais do Norte do Paraná. Ainda, é necessário aprofundar estudos sobre as questões relacionadas ao Engajamento Escolar, as Estratégias em aprendizagem e à Compreensão de Leitura
como uma proposta significativa para a construção do conhecimento. Assim sendo, embora o presente estudo tenha contribuído para a ampliação das considerações sobre o assunto, esse dado deve ser mais bem explorado. Devem ser reconhecidas suas limitações e alguns itens dos questionários podem ser aprimorados ou ainda substituídos, com o intuito de conseguir um maior índice de fidedignidade em algumas das subescalas, principalmente da escala de estratégias. Sob essa perspectiva, na sequência algumas considerações e implicações educacionais serão tecidas.