Van Dijk (1989) defende a necessidade de distinguir diferentes tipos de superestrutura. Nas bases puramente formais da superestrutura da dissertação argumentativa, reconhecemos a divisão do texto em parágrafos conforme as ―categorias‖ que apresenta. Essas ―categorias‖ a que nos referimos se refletem diretamente na estrutura do texto, todavia os critérios para a construção dessa estrutura não desconsideram aspectos funcionais, visto que as categorias são definidas de acordo com a função do conteúdo que abarcam.
Por conseguinte, consideramos como básica a divisão da dissertação argumentativa em, no mínimo, três parágrafos. Essa estrutura mínima obedece à definição da superestrutura em três blocos, introdução, desenvolvimento e conclusão, para cada um dos quais se deve destinar um parágrafo.
Contudo, segundo Toulmin (2006), embora haja, em cada texto, um argumento maior (que é desenvolvido num contexto amplo, desde a afirmação inicial relativa a um problema até a apresentação final da conclusão), deve-se também ―reconhecer uma estrutura mais fina, dentro de cada parágrafo‖ (p. 135). Desse modo, cada microargumento (argumento individual) compõe um parágrafo do texto, enquanto o texto todo compõe o argumento geral.
Assim, adotando a perspectiva de Toulmin (2006), devemos considerar que, para cada argumento apresentado na dissertação argumentativa, deve corresponder um parágrafo do bloco de desenvolvimento.
Com base nessas considerações, analisamos os textos que compõem o corpus desta pesquisa e verificamos que apenas um deles (T27) não realizou a divisão do texto em parágrafos, conforme se pode observar na transcrição do texto a seguir.
T27
O Brasil é um país democrático, pois seus cidadãos têm o direito de votar e, assim, podem escolher seus representantes. No entanto, o fato do voto, que é um direito, ser obrigatório, transformando-se em um dever, gera muitas polêmicas. O país precisa evoluir bastante em termos eleitorais. É urgente reconhecer que o voto facultativo é que torna o processo eleitoral mais democrático. O voto facultativo tem o poder de selecionar os eleitores. Sem a obrigação, só se dirigem às urnas os eleitores conscientes, que realmente querem contribuir positivamente para o desenvolvimento do país. Assim, a democracia prevalece à medida que participam das eleições apenas as pessoas que
se sentem motivadas para isso. Como as pessoas precisam estar motivadas, os políticos se esforçam mais para atrair os eleitores. Esse esforço pode levar à uma diminuição da corrupção, do não cumprimento de processas eleitorais e de outras práticas que tanto desagradam os cidadãos. Logo, a facultatividade do voto beneficia a todos, os que desejam participar e os que optam por se abster das eleições. Uma democracia se faz quando os cidadãos têm direitos e deveres, não só deveres. O voto é um direito, que não deve ser confundido com um dever. Portanto, a facultatividade do voto é a melhor opção para a construção de um país verdadeiramente democrático.
Apesar de não ter procedido à divisão de parágrafos, constatamos que o texto apresenta os três blocos que compõem a superestrutura do gênero, visto que é possível identificar as partes que exercem a função de introdução, desenvolvimento e conclusão, fenômeno que será analisado no item 3.2.1. Além disso, nossa análise nos permitiu averiguar que há dois argumentos sendo apresentados no texto: (1) o voto facultativo seleciona os candidatos que desejam exercer esse direito e isso beneficia a democracia; (2) todos se beneficiam quando o voto é facultativo, até aqueles que optaram por não votar, já que a facultatividade exige maior esforço dos candidatos.
Isso nos leva a crer que T27 poderia ser dividido em parágrafos do seguinte modo:
O Brasil é um país democrático, pois seus cidadãos têm o direito de votar e, assim, podem escolher seus representantes. No entanto, o fato do voto, que é um direito, ser obrigatório, transformando-se em um dever, gera muitas polêmicas. O país precisa evoluir bastante em termos eleitorais. É urgente reconhecer que o voto facultativo é que torna o processo eleitoral mais democrático.
O voto facultativo tem o poder de selecionar os eleitores. Sem a obrigação, só se dirigem às urnas os eleitores conscientes, que realmente querem contribuir positivamente para o desenvolvimento do país. Assim, a democracia prevalece à medida que participam das eleições apenas as pessoas que se sentem motivadas para isso.
Como as pessoas precisam estar motivadas, os políticos se esforçam mais para atrair os eleitores. Esse esforço pode levar à uma diminuição da corrupção, do não cumprimento de processas eleitorais e de outras práticas que tanto desagradam os cidadãos. Logo, a facultatividade do voto beneficia a todos, os que desejam participar e os que optam por se abster das eleições.
Uma democracia se faz quando os cidadãos têm direitos e deveres, não só deveres. O voto é um direito, que não deve ser confundido com um dever. Portanto, a facultatividade do voto é a melhor opção para a construção de um país verdadeiramente democrático.
Os demais textos apresentaram a divisão mínima, destinando parágrafos distintos para os blocos da superestrutura do texto dissertativo-argumentativo. Apesar disso, considerando a proposta
de Toulmin (2006), de acordo com a qual, para cada argumento, corresponde um parágrafo, percebemos algumas inadequações, que serão analisadas a seguir.
T3
Voto facultativo reflexo do desenvolvimento social e politico
O voto é um direito e, ao mesmo tempo, um dever de todo cidadão brasileiro com idade entre 18 e 70 anos. Dada a condição de país democrático do Brasil, é necessário analizar as condições da permanência da obrigatoriedade do voto em nosso cenário político.
Muitas pessoas acreditam que o brasileiro não desenvolveu maturidade politica suficiente para adotar o voto facultativo. O cenário politico atual ainda não é propício para a facutatividade do voto, pois só uma sociedade evoluída compreende a necessidade de cada cidadão exercer sua cidadania através do voto de maneira comprometida e consciente.
No entanto, o brasileiro, hoje, está bem mais informado que em outros tempos mais de 80% da população vive em áreas urbanas, o acesso à informação nunca foi tão democratizado quanto agora e o senso crítico dos cidadão está cada vez mais desenvolvido.
Nosso povo sabe o que é democracia e tem plenas condições de exercê la sem a necessidade que o estado autoritariamente obrigue.
O voto obrigatório torna o processo politico antidemocrático e se baseia na crença equivocada que o povo, se não for ―conduzido‖, será incapaz de exercer seus direitos, entre eles o de votar.
É fundamental reconhecer as lacunas dessa concepção e instituir o voto facultativo.
O desenvolvimento de T3 foi dividido em três parágrafos. Contudo se observa a existência de dois argumentos: (1) acredita-se que o Brasil não desenvolveu maturidade política para adotar o voto facultativo, que exige uma sociedade evoluída; (2) hoje, o brasileiro está mais bem informado que em outros tempos e, por isso, tem plenas condições de exercer sua cidadania, sem a intervenção do Estado. O primeiro parágrafo apresenta o primeiro argumento. O segundo argumento encontra-se nos dois parágrafos seguintes: o dado (―o brasileiro, hoje, está bem mais informado que em outros tempos‖) e a garantia (―mais de 80% da população vive em áreas urbanas, o acesso à informação nunca foi tão democratizado quanto agora e o senso crítico dos cidadãos está cada vez mais desenvolvido.‖) estão em um parágrafo; e a conclusão (―Nosso povo sabe o que é democracia e tem plenas condições de exercê-la sem a necessidade que o Estado autoritariamente obrigue.‖), em outro. Esse argumento poderia compor um único parágrafo. Além disso, a conclusão do texto foi fragmentada em dois parágrafos, quando, nesse caso, seria adequado que compusesse apenas um.
T5
O voto é um elemento muito importante numa democracia. Mas será que isso significa que todos os cidadões devem ser obrigados a votar?
Muitos eleitores vão pras urnas sem vontade e nesse contexto fica difícil se preocupar se está votando no candidato certo.
A democracia exige liberdade de escolha e o cidadão devia ter o direito de escolher se quer votar ou não, a menos que o próprio Estado tenha assumido para si o papel de promover o voto do cabresto.
Portanto, sem dúvidas, para o pleno exercício da cidadania, o voto facultativo é mais que necessário, é imprescindível.
Em T5, o desenvolvimento foi dividido em dois parágrafos, conforme recomendação recorrente dos professores de produção textual, segundo os quais esse bloco da dissertação argumentativa deve apresentar, no mínimo, dois parágrafos. No entanto, percebe-se que o autor desenvolve um único argumento, fragmentado pela paragrafação: levar o cidadão às urnas sem que ele tenha vontade de votar desrespeita seu direito de escolha e a própria democracia, que exige liberdade. De acordo com o layout do argumento proposto por Toulmin (2006), os dois parágrafos de desenvolvimento desse texto compõem um único argumento, uma vez que neles se distribuem estes elementos: dado e garantia se encontram no primeiro parágrafo do desenvolvimento; conclusão e refutação se localizam no segundo parágrafo.
T15
Os brasileiros adquiriram o direito de votar com muito esforço. Comparecer nas urnas é um direito de todos. Democracia é a política do povo e a forma de governo que a maioria dos países desenvolvidos exercem.
No Brasil, além de direito, votar é um dever, ou seja, é obrigatório. Apesar disso, muitas pessoas não se importam com a política e acabam por votar em qualquer um.
Algo que contribui a falta de interesse é o histórico de corrupção dos políticos. Isso requer estudo e sabedoria na hora de votar, para ter um voto inteligente por aqueles que se importam pela política.
O voto obrigatório atrai quem não se interessa pela política e votam sem pensar. O voto facultativo atrai aqueles que se importam pelas eleições. São esses votos conscientes que queremos para o Brasil.
Observamos que, em T15, o desenvolvimento, novamente, é dividido em dois parágrafos, mas apenas um argumento é desenvolvido: o voto de pessoas que não se interessam pela política é prejudicial ao país e a melhor forma de evitá-los é por meio da instituição do voto facultativo. O
primeiro parágrafo do desenvolvimento apresentas dados, enquanto o segundo traz a garantia e a conclusão do argumento.
T9
O voto pode ser obrigatório ou facultativo. Muitas pessoas defendem que o voto no Brasil seja facultativo, outras querem que continue obrigatório. Qual deles representa a melhor escolha para o país?
Todo cidadão brasileiro é obrigado a votar, já que é obrigatório, o cidadão não tem livre escolha e o voto perde o caráter de direito, transformando-se em dever. Quando o voto é facultativo, só se dá o trabalho de ir nas urnas quem tem opinião. O autoritarismo que leva todos os brasileiros para as urnas não contribui com a democracia. Um número alto de eleitores vai só para anular o voto ou votar em branco, o que não ajuda em nada, pois não é um ato de consciência.
Sendo assim, o voto obrigatório tira a liberdade de escolha do cidadão e não representa sempre um ato de consciência política. O Brasil deveria adotar o voto facultativo, que favorece os ideais democráticos.
Ao contrário do que ocorreu em T3, T5 e T15, o texto que identificamos como T9 apresenta um único parágrafo de desenvolvimento, todavia constatamos nele a existência de dois argumentos: (1) como todo cidadão é obrigado a votar, o voto deixa de ser um direito e se transforma em um dever; (2) levar às urnas, por obrigação, quem não tem ou não deseja expressar sua opinião não contribui para a democracia.
T20
Voto facultativo: a voz de quem interessa
O voto tem uma importante função pública num país democrático. O ato de votar leva as pessoas à ter compromisso com a política do seu país. Mas será que isso justifica que o voto tenha que ser obrigatório no Brasil?
O voto é um direito e não um dever. Todo direito se caracteriza pela subjetividade pois, cada pessoa deveria escolher se quer exercer esse direito (ou não). Como é um direito, deve haver liberdade de escolha: Cada cidadão só deve votar se quiser, sem punições do Governo caso não deseje comparecer nas urnas. Quando o eleitor vai nas urnas contra sua vontade ele vota em qualquer candidato ou vota nulo pois, quando vota só pela obrigação o cidadão não está exercendo um ato de conciencia e tende a tratar esse direito sem a importância devida. O voto facultativo dará condições de ter resultados melhores, que venham expressar a vontade dos eleitores responsáveis e motivados.
A melhor opção para um país, que quer viver uma democracia plena é adotar o voto facultativo pois, assim só aqueles que se interessa pela política vão votar.
Do mesmo modo como ocorreu em T9, percebemos, em T20, a existência de um único parágrafo de desenvolvimento, no qual são apresentados dois argumentos: (1) o voto é um direito que só deve ser exercido se o cidadão quiser; (2) o voto obrigatório pode não expressar a vontade e o compromisso do eleitor.
T29
Voto facultativo: vale a pena?
Um assunto muito discutido hoje em dia é se o voto deve ser facultativo ou obrigatório. No Brasil o voto é obrigatório e deve continuar assim.
O voto facultativo é mais propenso a fraudes. Afinal, não há como determinar quantas pessoas irão votar e isso torna mais fácil corromper o sistema. Logo, a legitimidade das eleições poderá ser posta em dúvida. Além disso, o voto facultativo favorece quem tem poder econômico, pois quem tem dinheiro usa seus recursos para identificar onde estão os eleitores que querem votar e faz campanha só para eles. A facultatividade fará com que vença as eleições não os candidatos mais bem preparados, mas os mais ―bem equipados‖.
Pode-se concluir, portanto, que o voto facultativo traz muitas desvantagens, por isso não vale a pena pôr fim a obrigatoriedade do voto, principalmente no Brasil, que não é um país muito conhecido pela honestidade de seus políticos.
Mais uma vez, o autor construiu, em T29, um único parágrafo com dois argumentos: (1) o voto facultativo, mais suscetível a fraudes, põe em dúvida a legitimidade das eleições; (2) os candidatos com maior poder econômico são favorecidos pelo voto facultativo.
T30
Voto obrigatório: incoerência da democracia
O voto no Brasil é obrigatório, porém diversos brasileiros, insatisfeitos com a política atual preferem não votar e são punidas por isso. Punir alguém que não quer exercer um direito é um absurdo tão grande que nos faz pensar que a melhor saída para o Brasil é o voto facultativo.
O voto é um direito do cidadão, por isso a facultatividade é mais coerente com o princípio que rege o voto, pois, sendo um direito, o cidadão não deveria ser castigado ou perder outros direitos se não quiser exercer seu direito ao voto. As pessoas, muitas vezes, defendem o voto obrigatório porque acham que ele vai fazer com que todos participem, mas isso não passa de um mito, pois boa parte dos eleitores já fica em casa no dia da eleição. Prova disso são os dados do TSE que indicam que 20% dos brasileiros se ausentam das urnas.
A adoção do voto facultativo não mudaria quase nada na situação atual do país, só oficializaria uma prática que já acontece. A única diferença seria que menos brasileiros arcariam com o ônus de serem punidos por sua escolha de não exercer aquilo que supostamente é um direito.
O mesmo ocorre em T30, no qual dois argumentos se apresentam em um único parágrafo: (1) se o voto é um direito, o cidadão deveria poder escolher se quer exercer esse direito e ninguém deve ser punido por não votar; (2) a ideia de que o voto obrigatório garante a participação de todos os eleitores é um mito.
Um caso especial ocorre em T23. O texto foi dividido em quatro parágrafos: o primeiro corresponde à introdução, o segundo e o terceiro ao desenvolvimento do texto e o último à conclusão. No segundo parágrafo do texto, o autor desenvolve dois argumentos: em um deles, defende que o voto obrigatório não é característico de uma democracia; no outro, alega que o voto facultativo é o melhor para a democracia. No entanto, no parágrafo seguinte, não desenvolve bem a argumentação, apresentando apenas dois embriões de argumento, ou seja, dois argumentos incompletos, conforme será analisado no item 3.2.2.2. Como a argumentação está mal construída, foi inviável tratar da divisão de parágrafos de T23.
Com base nessa análise, criamos as categorias apresentadas abaixo para apresentar os resultados obtidos.
TABELA 1 – A divisão da dissertação argumentativa em parágrafos
Categorias Resultados
Textos em um único parágrafo 3,6%
Textos com quantidade superior a um parágrafo, mas, ainda assim, insuficiente 13,7%
Textos com a divisão de parágrafos adequada 72,4%
Textos com excesso de parágrafos 10,3%
Assim, podemos concluir que a maioria dos estudantes voluntários desta pesquisa realizam adequadamente a divisão dos parágrafos: 72,4%. Isso indica uma compreensão adequada das partes que integram a estrutura composicional do gênero dissertação argumentativa, com o devido reconhecimento daquilo que corresponde à introdução, a cada um dos argumentos que compõem o desenvolvimento do texto e à conclusão. No entanto, ainda é necessário um maior investimento em relação à clareza acerca da composição dessas partes, tendo em vista que 24% dos alunos ainda realizam uma divisão inadequada dos parágrafos e 3,6% redigiu o texto em um único bloco.