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In document Fylkesmannen i Østfold (sider 107-113)

Luisa Barbosa Pereira*

Portugal, início do século XX. Um país macrocéfalo, concentrado na capital, sustentou a tese de que a República fora conquistada e proclamada em Lisboa e transmitida ao país por telégrafo. (1)

Inaugurada com a revolução de 5 de Outubro de 1910, a I República ini- cia um regime liberal-democrático em oposição à monarquia constitucional que então existia num país onde a agricultura ocupava 61% dos ativos e só 17% da população vivia em centros urbanos com mais de 5000 habitantes. (2)

As altas taxas de analfabetismo (78% em 1900 e 75% em 1910) e de mortalidade infantil (14,6% em 1910 e 22,4% em 1911) (3) evidenciavam as dificuldades vividas por grande parte dos portugueses. (4)

Mas ao longo do século XX, sob uma ditadura repressiva que durará 48 anos e utilizará de forma sistemática o trabalho forçado nas colónias (5), o operariado ganha estatura. Passa de 768 mil na década de 1950 para pouco * Luisa Barbosa Pereira é doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora da rede pública em Armação dos Búzios-RJ-Brasil. Pesquisa- dora doutorada vinculada ao Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro (PPGSA-U- FRJ), ao Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais do IHC-Universidade Nova de Lisboa e ao Projeto In the Same Boat, do Instituto de História Social de Amsterdão.

 (1)  Sobre a I República Portuguesa ver: Marques, Oliveira, A Primeira República Portu- guesa, Lisboa: Livros Horizontes, 1980.

 (2)  A respeito do papel dos trabalhadores na República o historiador Fernando Rosas declara que “A República nasceu aos ombros dos trabalhadores, mas depois rompeu essa aliança a partir de 1911, quando começam as greves e os republicanos espingardeiam as greves”. Paço, António Simões do. Entrevista com a República. Lisboa: Guerra e Paz, 2010, p. 72.

 (3)  Por cada 1000 crianças nascidas. Anuário Estatístico de 1908 a 1926.

 (4)  Mónica, Maria Filomena. A Queda da Monarquia: Portugal na Viragem do Século, Lisboa, Dom Quixote, 1987. 75% no ano de 1911 Rosas, Fernando. Salazarismo e fomento económico. Notícias Editorial, Abril, 2000, pp. 33-34.

mais de 1 milhão em 1970. Neste ano três quartos da população ativa era assa- lariada e 67,4% dos trabalhadores da indústria concentrava-se em unidades fabris com mais de 20 pessoas. (6)

O crescimento desse operariado, aliado às lutas no continente africano por independência e à derrota militar do Exército português, combinado com a crise económica do pós-guerra, formam o caldo histórico da ruptura de Abril de 1974, desencadeada pelos jovens capitães do Movimento das Forças Armadas (MFA) e apoiada por imensa parcela civil.

Mas que ruptura foi essa? Um golpe de generais seguido de um período de caos? (7) Uma transição para a democracia e não uma revolução? (8) Ou uma revolução passiva, excluída de participação popular? (9)

Neste texto analisamos o período entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975 em três regiões periféricas, fora do epicentro da revolu- ção: (10) no arquipélago da Madeira; no concelho de Loulé, no Algarve; e na Maia, Norte de Portugal. Nossa pesquisa, que ocorreu entre janeiro de 2015 e janeiro de 2017, contou com análise sistemática de periódicos de divulgação nacional e regional; (11) documentos depositados nos arquivos regionais das localidades pesquisadas; em coleções particulares; (12) pesquisa bibliográfica; e entrevistas com trabalhadores, populares e atores políticos locais.  (6)  Santos, Maria de Lurdes; Lima, Marinús Pires de; Ferreira, Vítor Matias, O 25 de Abril e as Lutas Sociais nas Empresas, Porto, Afrontamento, 1976, 3 volumes.

 (7)  Ramos, Rui (Coord.). História de Portugal, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009.

 (8)  Pinto, António Costa. “Saneamentos Políticos e Movimentos Radicais de Direita na Transição para a Democracia, 1974-1976”, in: Rosas, Fernando, Portugal e a Transição para a Democracia, Lisboa, Edições Colibri/IHC, 1999; Schmitter, Philip, Portugal: do autoritarismo à democracia, Lisboa, ICS, 1999.

 (9)  Sobre o conceito de revolução passiva Antonio Gramsci destaca que este parece exato não só para a Itália, mas também para os outros países que modernizaram o Estado através de uma série de reformas ou de guerras nacionais, sem passar pela revolução política de tipo radical-jacobino. Ver: Gramsci, Antonio. Cadernos do cárcere. V. 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, pp. 209-210.

 (10)  Ou seja, nas cinturas industriais e principalmente em Lisboa. Ver: Varela, Raquel. A História do Povo na Revolução Portuguesa, Lisboa: Bertrand, 2014, pp. 52-53.

 (11)  Principalmente Diário de Notícias, Jornal de Notícias, República, Voz de Loulé, Comér- cio do Funchal e Jornal da Madeira, mas também jornais de esquerda e boletins sindicais.

 (12)  Principalmente as coleções de Luís Guerreiro (Loulé), Jorge Catarino (Maia), Lino Bernardo Martins, Diamantino Alturas e Padre Martins Júnior (Madeira) gentilmente cedidas para a pesquisa.

Grande parte dos estudos sobre a Revolução Portuguesa deu peso ao papel das elites dirigentes, dos sujeitos representativos e dos militares. (13) Tais estudos construíram um conjunto de obras importantes para o entendimento desse período, mas defendemos aqui uma outra abordagem.

Nossa referência principal na análise desse momento de importância fun- damental para a história do País e da Europa no século XX, mas ainda pouco estudado sob o ponto de vista da conflitualidade social principalmente fora de Portugal, (14) foi a história do povo. Pesquisámos a Revolução Portuguesa com os olhos voltados para a ação da “classe que vive do trabalho”. (15)

Nos anos 1960, sob a influência da escola dos Annales e da chamada crise do historicismo, (16) historiadores de diferentes partes do mundo, mas prin- cipalmente de Inglaterra, propuseram a chamada história vista de baixo. E. P. Thompson procurou relacionar esta visão em termos de “consciência” e “experiência”, considerando os trabalhadores como uma “massa de esqueci- dos” que deveria ser ouvida. (17) Christopher Hill, referindo-se à Revolução Inglesa, defendeu que as elites já haviam sido demasiadamente retratadas e que seria necessário falar da história a partir dos de baixo: “Podemos des- cobrir que os homens e mulheres obscuros que aparecem neste livro, junto com alguns menos obscuros, nos falam mais diretamente que Carlos I ou Pym ou o general Monk.” (18) Natalie Davis, em seus estudos de orientação  (13)  Ver, entre outros: Rezola, Maria Inácia, Os Militares na Revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a Transição para a Monarquia em Portugal, Lisboa, Campo da Comunica- ção, 2006; Moreira de Sá, Tiago, Carlucci vs. Kissinger, Lisboa, D. Quixote, 2008; Ferreira, José de Medeiros. “25 de Abril, uma Revolução?” in, Mattoso, José (coord), História de Portugal, Portugal em Transe, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993; e as já citadas obras de Ramos, Rui (coord), Pinto, António Costa, Schmitter; Philip.

 (14)  Nesse âmbito destacamos os estudos já citados de Raquel Varela; Fernando Rosas; de Fátima Patriarca, sobre o movimento operário na cintura industrial de Lisboa; de Dalila Cabrita Mateus A luta pela independência (1999) e Angola 61 e guerra colonial: causas e consequências (2011) em Portugal, as teses de doutoramento de Jorge Fontes e a dissertação de mestrado de Miguel Pérez, entre outros.

 (15)  Sobre o conceito ver: Antunes, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Ed. Boitempo, 2003.

 (16)  Ideia que, grosso modo, leva em consideração o facto histórico em si, sem haver necessariamente uma análise social do período estudado.

 (17)  Thompson, E. P. “A história vista de baixo”, Editora da Unicamp, 2001.

 (18)  Hill, Christopher, O mundo de ponta-cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 35.

nitidamente cultural, tratou das pessoas humildes e explorou os tipos de experiência social que pudessem ter contribuído para a formação de uma consciência, dando ênfase às formas de vida da população pobre. (19) A his- tória dos “de baixo” também foi dos temas preferidos de Eric Hobsbawm: os rebeldes, os trabalhadores e suas condições de vida; a resistência e a rebelião no mundo do jazz. (20)

Concordamos com Chris Harman sobre o papel dos movimentos sociais como uma espécie de esqueleto da sociedade que, ainda que não seja o mesmo que o corpo vivo, é fundamental para garantir a sua solidez e sem o qual não poderia sobreviver. Um indivíduo ou uma ideia não podem ser vistos de maneira isolada do desenvolvimento material precedente da sociedade, do modo como as pessoas fazem seus meios de subsistência, da estrutura das classes sociais e do Estado.

Assim, a história do povo que propomos neste texto recupera a ação dos movimentos sociais ligados à “classe-que-vive-do trabalho” e, especial- mente, das massas ainda mais esquecidas pelas abordagens sobre o 25 de Abril, ou seja, os trabalhadores de fora dos grandes centros urbanos do País. Esses – olvidados seja por carência de fontes, por orientação ideológica ou ambos – guardam uma riqueza fundamental para a análise social. Dar-lhes voz é também ouvir melhor os acontecimentos históricos e interpretá-los com maior precisão. (21)

 (19)  Ver por exemplo: Davis, Natalie. Culturas do povo – sociedade e cultura no início da França moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. A obra é citada por E. P. Tompson em 1976 ao sustentar a importância de uma história das pessoas comuns e defender que não estava sozinho em tal abordagem. Sobre o tema Ver: Kirschner, Tereza Cristina. “Entre Tradições e Inovações, O Percurso Crítico de Natalie Zemon Davis”. In: Cultura Histórica & Patrimônio, volume 2, número 1, 2013, p. 100-114.

 (20)  Como, por exemplo: Hobsbawm, Eric. Os Trabalhadores – Estudos sobre a História do Operariado. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2015, ou Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2016.

 (21)  Este artigo é parte de um projeto de pesquisa intitulado “A história do povo na Revolução Portuguesa” realizado em parceria com Raquel Varela. As pesquisa foram financiadas pelas Câmaras Municipais do Funchal, Loulé e Maia.

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