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STATSBANENES EGNE TRANSPORTER OG FRIFRAKTSENDINGER
Quando nos propusemos a estudar a mulher na literatura fantástica de autoria feminina sabíamos de todas as implicações que tal empreitada poderia acarretar, pois além de investigar a condição da mulher na literatura fantástica constatamos a falta de estudos sobre a presença da mulher no gênero Fantástico e o delineamento de uma nova versão do fantástico, o Fantástico Feminino.
Inicialmente, esbarramos na velha problemática do fantástico quanto ao emaranhado das definições, uma vez que ainda se discute a validade ou não de um fantástico puro nos textos ditos pertencentes a este gênero segundo a tradição todoroviana. A polêmica aumenta quando se analisa o fantástico na perspectiva diacrônica que engloba tradição, modernidade e contemporaneidade.
Resolvemos então, graças aos últimos estudos sobre o fantástico, vindos principalmente das escolas alemã e anglo-americana, aceitar a denominação maximalista Literatura Fantástica para todos os textos em que o fantástico possa ser encontrado de forma pura ou apenas como uma incidência. Tal postura ajudou principalmente quanto à análise mais efetiva do corpus proposto.
Consequentemente, nessa análise da condição feminina na literatura fantástica pudemos comprovar o caráter preconceituoso com que o fantástico androcêntrico, ou seja, o de autoria masculina, tem se postado desde os tempos pretéritos até hoje em relação ao sexo feminino, um discurso patriarcal que foi responsável por criar e reproduzir como uma mentalidade residual a péssima imagem da mulher na literatura e em especial no gênero fantástico. Pontuamos em seguida a corajosa atitude feminina de adentrar paulatinamente no seio da literatura fantástica a partir de nomes como Mary Shelley, Emília Freitas, de Júlia Lopes de Almeida a Lygia Fagundes Telles e de Lygia Fagundes Telles a Augusta Faro pela pujança de seus textos, a originalidade das histórias e a importância dos temas para a constituição de uma literatura fantástica de autoria feminina.
Portanto, após constatar o apagamento e o desprestígio da presença da mulher escritora na produção literária do Fantástico identificamos, listamos e
analisamos as características particulares dessa literatura escrita por mulheres, agora reconhecida como fantástica, graças ao suporte teórico da crítica feminista, identificamos os procedimentos que caracterizam a escrita das mulheres escritoras na literatura fantástica como um tipo de estratégia tanto para a desconstrução das imagens criadas pelo fantástico androcêntrico, revisitando e discutindo os seus hegemônicos construtos sociais, como para a criação de uma nova imagem da mulher na literatura fantástica.
Com o aparato estruturalista de Tzvetan Todorov, mantivemos a divisão dos grandes temas do fantástico, inerentes à condição humana, e dividimos em temas do Eu e temas do Tu, respectivamente, aqueles que tratam da relação da mulher com ela mesma e da relação da mulher com o mundo no que tange a literatura fantástica.
Constatamos, como uma possível resposta à maioria dos nossos questionamentos, que o Fantástico Feminino se constitui de imediato de uma narrativa de autoria feminina, que trata de temas inerentes ao feminino como maternidade, virgindade, viuvez, violência sexual e lesbianismo, dentre outros. Constatamos, também pelo viés sobrenatural, que o vampirismo, as metamorfoses e as assombrações, comuns na literatura fantástica contemporânea, podem ser discutidos sobre um outro ponto de vista, isto é, o da mulher.
Analisando as obras de Júlia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles e Augusta Faro, pudemos comprovar a existência das características citadas aqui como uma ocorrência especifica da escrita feminina assim como de temas particulares de uma mesma autoria, a feminina, respectivamente nas coletâneas Ânsia Eterna (1903), Mistérios (1981), A Friagem (2000) e Boca
benta de paixão (2007).
Descobrimos no conto “A casa dos mortos”, de Júlia Lopes de Almeida, principalmente, a tensão matéria e espírito que melhor caracteriza o fantástico inerente aos temas do Eu. Observamos ainda, na perspectiva da crítica feminista, uma valorização do tema da maternidade, ou seja, da importância dada à figura da mãe, muito recorrente nessa autora e que segundo Todorov funciona como um referencial do Bem contra as insurgências do Mal.
No conto “Emanuel”, de Lygia Fagundes Telles, constatou-se, como um traço característico de sua obra, a utilização de um discurso ambíguo que,
dentro da poética da literatura fantástica, corrobora para a construção de narrativas centradas no tema da alteridade, na busca por uma identidade, no caso especifico a identidade feminina, e no enfrentamento de suas variantes, o próprio eu da mulher ou do seu duplo, no caso o sexo masculino.
Mas foi no conto “Gertrudes e seu homem”, de Augusta Faro, que confirmamos efetivamente a escrita de um texto sobrenatural, de protagonismo feminino e temas de mulher, que caracteriza, na forma de uma literatura contemporânea, um tipo de releitura ou intertextualidade com outras obras do fantástico sugerindo, inclusive, a reescrita de temas ou textos anteriormente abordados por outras escritoras, o que nos faz pensar na ideia de uma
ancestralidade na escrita fantástica de autoria feminina.
Portanto, em nosso estudo, retomamos as definições do fantástico tradicional, discutimo-las, e ampliamos o nosso campo de visão a partir das teorias mais recentes que mudaram a noção minimalista do fantástico para a ideia maximalista de Literatura Fantástica, quando pudemos, nessa análise diacrônica, discutir a condição da mulher na literatura fantástica brasileira e mundial.
Fundamentados na critica feminista, caracterizamos um fantástico diferenciado, ou seja, um fantástico que é feminino porque marcado pela autoria, pelos temas, e principalmente pela exuberância da linguagem e do protagonismo feminino, que serve, dentre tantas outras funções, para revisitar,
revisar, redefinir, resgatar, redistribuir e reconhecer o papel da mulher na
literatura de teor sobrenatural dando-lhe a devida importância e promovendo, em hora oportuna, uma discussão abalizada sobre um cânone politicamente
inclusivo, promovendo na literatura fantástica brasileira um novo olhar no qual a
presença e a perícia da produção literária feminina sejam contemplados à altura dessa autoria.
Outro aspecto muito importante a ser destacado nesses três contos é a questão do sofrimento a que as personagens estão submetidas. A primeira (generalisticamente incógnita) sofre pela ausência da mãe; as outras duas pela ausência de um companheiro, principalmente de um amante, na conotação mais simples que o termo possa ter; o que nos faz compreender sociologicamente que um dos elementos mais importantes de uma autoria feminina, no fantástico ou fora dele, é a experiência possível, ou seja, o traço
verossímil que se torna revelador da condição feminina na sociedade pelo que normalmente é ou foi por elas vivenciado.
Nisso, embora não assumidamente militantes, destacamos a atitude política de nosso trabalho, pois todo estudo da representação de gênero na literatura, no nosso caso os contos das autoras referenciadas, deve contribuir para colocar o processo autoral em evidência e desvendar as razões do reiterado alijamento de alguns textos de autoria feminina do cânone da literatura fantástica. Ao menos foi o que procuramos fazer.
Dessa forma, por meio do caleidoscópio do Feminismo procuramos com nossa análise, testificando a proposta de uma Literatura Fantástica Feminina, dar efetiva visibilidade aos textos sobrenaturais dessas mulheres escritoras pelo fato de que na ficção fantástica de autoria feminina, os tópicos elencados, o teor político da luta por espaço e o sofrimento feminino ficcionalmente evidenciado em suas experiências, são traços fundamentais que diferenciam, muito claramente, as narrativas fantásticas de autoria feminina do fantástico de caráter androcêntrico.
Esperamos com nosso trabalho abrir corajosamente uma vereda, um facho mínimo de luz, um fogo fátuo, no meio da mata escura das teorias sobre o fantástico, pois escrever, ler e analisar uma literatura fantástica em que não se cogita a importância da autoria feminina e de seu ponto de vista em relação a si mesma, ao outro e ao mundo, é ser cúmplice de uma literatura quasímoda, deformada, e que Shelley nos perdoe o trocadilho, uma literatura frankenstein, feita de pedaços de homens, estranhamente sem mãe, com todas as deficiências e temeridades que essas faltas possam lhe causar.
Reconhecemos, inclusive, que nosso trabalho não será a última palavra em termos de crítica da literatura fantástica, e o confirmamos por meio de um de nossos títulos como um tipo de introdução ao fantástico feminino, uma nova e necessária via de abordagem para que se possa pensar em um estudo mais aprofundado ou abrangente sobre a literatura fantástica brasileira. Por fim, exatamente por ter sido um trabalho feito a quatro mãos, femininas e masculinas, cremos que nosso texto se configure, a partir desse momento, como fonte confiável para os acadêmicos e outros interessados que se debruçarem sobre estes dois grandes temas literários: a mulher e o fantástico.