3. Metode
3.4 Statistikk
Diário de Bordo
Nome : Sandra Daniela Silva
Data: Segunda, 29 de Janeiro de 2018
Experiência/atividade/situação: Visita pela Casa da Associação
Objetivos de observação do dia:
Observação
Nesta segunda-feira, a Dra. Antonieta apareceu na nossa sala de trabalho, e disse-me para ir até lá acima conhecer uma nova família que já estava na casa a algum tempo e era de Cabo Verde, mas com a qual eu nunca tinha tido oportunidade de me cruzar. Segui as suas indicações, e no 1º piso da casa encontrei dois meninos muito simpáticos e com um ar muito amistoso a brincar no chão da sala dos brinquedos. Perguntei como se chamavam, e um deles respondeu-me: “Eu sou o T., e este é o meu irmão pequeno”. Ao olhar, não consegui perceber qual deles estaria doente, visto que os dois aparentavam estar muito saudáveis, e nem um nem outro estava sem cabelo. A mãe apercebeu-se que tinha chegado alguém à salinha, e dirigiu-se lá para me dizer um olá e explicar que se encontrava na cozinha, porque estava a acabar de arrumar a cozinha do almoço. Durante o tempo que a mãe arrumou a cozinha, estive a montar alguns puzzles com o T. e o irmão. Eles não falavam assim muito, no início até estavam um pouco envergonhados, mas depois com o passar do tempo já davam ideias para outros jogos e riam-se de tudo aquilo que eu dizia ou fazia. A mãe pouco tempo depois chegou, e sentou-se no sofá que tem lá na sala, aproveitei para começar a meter conversa e perguntei há quanto tempo estavam na casa. Esta disse-me que tinham vindo de Cabo Verde para Portugal por causa dos tratamentos do T., que não eram possíveis de ser feitos tão longe: “Não podíamos estar a vir e a ir para lá, foi então que a assistente nos falou na possibilidade de ficar nesta casa para conseguirmos fazer os tratamentos. Eu vim com o T., mas tive de trazer o pequenino também, não consegui o deixar lá”. Perguntei se estava a gostar de estar na casa e se sentia
bem aqui, e mãe respondeu-me: “Sim. A Associação abriu-nos as portas, tirou-nos um peso de cima – o ter de pagar renda, água, gás. É só atravessar o jardim e estamos no IPO. E todos falamos a mesma linguagem. Quem nos ouve já sabe o que sentimos. Tornamo-nos uma família e para isso contribuem todos os profissionais do IPO. Sem o apoio que nos dão, a forma como
nos recebem, não sei mesmo como seria”. Naquele momento, o T. interrompeu-nos e trouxe um dos origamis que estava
pousado em cima da mesa da televisão, dizendo: “Que giro mãe! Quero ter um assim!” e a mãe respondeu rindo-se: “A mãe não sabe fazer disso pequenino, se ainda fosse costurar ou cozinhar …”. Apercebi-me que poderia ser uma ótima oportunidade para ficar ainda mais tempo na conversa com aquela mãe, se conseguisse lhe proporcionar uma nova aprendizagem, então ofereci-me para lhe ensinar a fazer origamis. A mãe aceitou de bom agrado, ficando mesmo muito contente com essa oportunidade. Fui então procurar folhas coloridas para origamis, e através do meu telemóvel coloquei algumas figuras para vermos. A primeira figura escolhida pela mãe para fazer foi a igual à que o seu filho T. tinha gostado, que era a cabeça de um cãozinho. Achei que esta mãe se estava a dedicar de uma forma muito bonita, a aprender algo que lhe poderia ser útil para mais tarde fazer para qualquer um dos seus filhos, e comecei a sentir que a vontade dela falar era alguma, uma vez que também me perguntou quem eu era e o que estava a fazer na casa. Respondi-lhe: “Peço mesmo desculpa! Esqueci-me de me apresentar ... Eu sou a Daniela, sou aluna da Universidade do Minho e estou a fazer o meu estágio aqui na Casa da Associação. O meu Mestrado é na área da Mediação Sociofamiliar, mas o meu plano de intervenção está direcionado para os cuidadores, uma vez que quero analisar de perto de que maneira a doença oncológica das crianças/jovens tem impacto nas suas vidas”. A mãe sorriu e disse muito rapidamente: “Acho que percebi mais ou menos o que me disse..., mas o que lhe posso dizer é que uma doença destas tem um impacto grande demais nas nossas vidas”. Perguntei o porquê de ela dizer isso, a resposta foi simples: “Porque muda as nossas rotinas. A doença interrompe-nos a vida”. Ao mesmo tempo que íamos conversando, a mãe do T. aprendia-a a fazer origamis, sendo que passado algum tempo já conseguia fazer sem ajuda e mostrava-se muito entusiasmada.
O que retive de toda a conversa:
- O T. tem uma leucemia, e já está a fazer tratamentos no IPO do Porto há algum tempo, uns dias encontra-se mais bem-disposto que outros, mas no geral é uma criança muito animada para o problema que está a passar;
- A mãe do T. disse que sentia muitas saudades da terra dela, que em Portugal era tudo muito diferente. Apesar de ter trazido o seu outro filho consigo, o marido e a restante família estavam longe e não podiam apoiar mais de perto todo o seu sofrimento;
- Espera que o T. recupere rapidamente, apesar de saber que ainda lhe faltam alguns tratamentos;
- Foi a 1ª vez que aprendeu a fazer origamis, gostou muito da experiência e espera repetir. Ofereceu-se para ensinar a costurar, uma vez que algo que domina muito.
Contratempos
(problemas, dificuldades, inseguranças, dúvidas…)
O único contratempo que houve nesta conversa, foi eu me ter esquecido de apresentar e explicar qual era a minha função na Casa da Associação. Sinto que quando estou fora do espaço da casa, tenho mais tendência a fazer isso de forma natural. Uma vez que comecei a interagir com as crianças, quando abordei a mãe não me recordei que era crucial fazer uma apresentação minha, para que fosse mais fácil para ela se sentir à vontade para conversar.
Desafios profissionais
(tomadas de decisão, planos, (re)formulações, reflexões, novos conhecimentos, mudanças…)
Registo autobiográfico
Expressões e Sentimento(s) do dia
“Está tudo demasiado pesado. Mas por sermos obrigados a aguentar, acabamos por descobrir o quão fortes somos” – Autor desconhecido