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O crescimento económico, e a consequente possibilidade de aumentar a sua fortuna, juntamente com as doutrinas dos interesses e do equilíbrio das paixões, levou à promoção da cobiça como paixão privilegiada, à qual era conferido o papel de dominar todas as outras paixões mais selvagens, passando esta a ter um papel crucial para a governação.

O interesse passou a ser sinónimo de adquirir bens e posses, acompanhado de uma mudança convergente do sentido de interesse público, onde a abundância passou a ser entendida como um aspecto cada vez mais importante - tal como Adam Smith (1776/1993) afirmaria, ao considerar o desejo de melhorar a sua condição como o motor das motivações humanas. Assim que “fazer dinheiro” foi considerado “interesse”, a cobiça passou a ser aclamada e foi-lhe atribuída o papel de domar as restantes paixões. Os atos humanos passaram a ser vistos à luz do interesse, que parecia reunir o melhor da natureza humana, com a paixão da autoestima enquadrada e contida pela razão e a razão orientada e fortalecida pela paixão (Hirschman, 1997). Uma forma híbrida que demonstrava o carácter destrutivo das paixões e a ineficácia da razão. A razão do interesse torna-se no elemento regulador que aponta para o futuro, que apesar de ser incapaz de determinar os fins, é eficaz no cálculo dos meios e por isso mesmo torna-se funcionalista. O interesse regula o presente ao inibir a paixão, dando aos indivíduos uma ação regulada por uma expectativa futura.

Apesar desta importância do interesse, no final do século XVIII, as paixões foram reabilitadas para dar um papel positivo à sua existência, comparado a um mundo no qual apenas os interesses se manifestam e à medida que o significado de interesse se restringia à vantagem material, o fascínio sobre um mundo dominado por ele parecia desvanecer-se. O capitalismo, enquanto expoente máximo do interesse, passou a ser compreendido como uma forma de ativar as características humanas benignas à custa das malignas, na esperança de reprimir os elementos mais destrutivos da natureza humana.

Podemos dizer que o interesse acabou por ser considerado um meio de potencializar o que de bom havia na natureza humana, ao mesmo tempo que controlava o carácter bárbaro das paixões. Adquiriu um carácter pacificador e de prosperidade, que tinha nas atividades económicas a sua expressão natural, durante muito tempo desprezada pela sociedade tradicional que gerou a convicção de que estas não teriam grandes possibilidades em nenhum ação humana, sendo consideradas como incapazes de criar bem ou mal numa grande escala, tornando a imagem do mercador a de uma pessoa doce, pacífica e inofensiva, que promovia um entendimento não violento entre os povos, em contraste com os bárbaros, saqueadores ou piratas, mas, sobretudo, com os antepassados apaixonados, de paixões violentas e heroicas.

Mesmo com a passagem para segundo plano do debate “interesses versus paixões”, após a publicação de Riqueza das Nações (Smith, Adam, 1776/1993) - que destacava a importância da ação positiva da persecução do lucro privado e dos seus benefícios económicos, mais do que os perigos que poderia

evitar - a importância da tese das “paixões contra interesses” continuava a resultar da necessidade de limitar as ações dos poderosos que estavam em posição de causar mal em grande escala. Assim, os desejos de glória dos poderosos passam a estar subordinados aos seus interesses pessoais e aos dos seus súbitos. Nesta linha de pensamento, o francês Montesquieu (1748/2011) defendia que a expansão comercial e industrial restringiam as ações dos soberanos, que já não governam para o luxo, mas para a prosperidade, inibindo-os de agir tão violentamente como antes sucedia. Uma posição que consistia mais no constrangimento do que na motivação do soberano em contribuir para a prosperidade da nação e revelava a necessidade de um mecanismo que regulasse a ação soberana, caso essa não atendesse ao interesse comum e cedesse a uma eventual paixão (Hirschman, 1997).

Este mecanismo regulador estava implícito na ascensão da classe média e dos mercadores, que efetuavam pressão e influência política, reagindo à coação de terceiros através da ação coletiva. O progresso desenvolvia a capacidade de certos grupos concertarem ações coletivas de descontentamento contra a opressão e desgoverno. É esta ação coletiva que passou a unir os indivíduos nos movimentos de uma massa, com a uniformidade de uma máquina e com uma força irresistível. John Miller (referido por Hirschman, 1997) via estes tumultos sociais e ações de massas com uma visão positiva, certo de ter descoberto um mecanismo que assegurava que as paixões dos governantes não prevalecessem muito tempo sobre o interesse público e as necessidades de uma economia de expansão. Porém, Adam Smith e os fisiocratas não estavam dispostos a confiar na expansão económica para restringir a má atuação dos governantes. Por um lado, os fisiocratas, defendiam a introdução de uma nova ordem política na qual os detentores do poder fossem compelidos por razões de interesse individual a promover o interesse comum, através de um sistema ideal de economia política, uma ideia que mais tarde encontramos mais tarde no Marxismo. Por outro, Adam Smith, mais moderado, propunha a alteração de determinadas políticas e sustentava que a ambição, o desejo de poder e o desejo de respeito podiam-se satisfazer através da melhoria das condições económicas, centrando o debate no bem-estar da comunidade e dos seus membros. (Hirschman, 1997)

Com o fim do Ancien Regime e a dissolução da diferença qualitativa entre os indivíduos, estes passam a ser iguais na sua natureza, não sendo a diferença encontrada pela sua relação de homem-homem, mas mediada pelas coisas. A ausência de especificidade remete para que a comparação entre os indivíduos seja feita pela quantidade.

A passagem de uma sociedade regida pela honra136 para uma sociedade orientada pelo interesse, permitiu, não só o Estado e o seu crescimento económico, mas também a necessidade dos soberanos agirem de forma mais racional, passando a ser do seu interesse servir os interesses da sua população e não tanto as suas paixões pessoais. Esta mudança de paradigma social e político é extremamente importante para percebermos o nascimento da sociedade moderna e de massas, em que as pessoas são orientadas pelos seus interesses pessoais, os quais entram em disputa e se manifestam na esfera política, contra os outros interesses existentes.

O filósofo político francês Alexis de Tocqueville (1835/2008) atribui a origem desta disputa à igualdade entre os homens e ausência de uma entidade reguladora da sua vontade, como outrora fora a da lei divina, produzindo um efeito de desconfiança e egoísmo entre iguais, originando um individualismo do seu juízo. Enquanto o egoísmo é algo velho e um vício moral, o individualismo é algo que nasce com a sociedade moderna, supõe o não reconhecimento de uma entidade superior a si próprio e uma renúncia à esfera pública, que leva gradualmente ao egoísmo. Quando mais individuais e afastados da vida em comunidade se encontram os indivíduos, mais desligados ficam do interesse coletivo e o seu foco passa a ser o da sua pessoa enquanto indivíduo isolado.

“O individualismo é uma expressão recente que uma ideia nova fez nascer. Os nossos pais conheciam simplesmente o egoísmo.

O egoísmo é um amor apaixonado e exagerado de si mesmo, que leva o homem a nada considerar que não reporte a si e a preferir-se a tudo.

O individualismo é um sentimento refletido e tranquilo que dispõe cada cidadão a isolar-se da massa dos seus semelhantes e a manter-se à parte com a sua família e os seus amigos; de maneira que, depois de ter assim criado uma pequena sociedade para seu uso, abandona de bom grado a grande sociedade a si mesma.” (Tocqueville, 1835/2008, p. 483)

O nascer de uma conduta baseada no interesse é o resultado da ausência de uma entidade reguladora sobre-humana e de uma individualidade do juízo do homem sobre as coisas, que provoca uma

136 Como refere Montesquieu (1748/2011), a honra é inerente às sociedades monárquicas e pode apenas ser

encontrada em Estados onde a constituição dos indivíduos é fixa. Para haver honra é necessário que haja alguém que não a tem, supõe uma desigualdade entre os membros da sociedade.

multiplicidade de vontades que se encontram em constante mutação. Mas, apesar da multiplicidade de vontades, não há sociedade que possa prosperar sem crenças semelhantes, já que sem ideias comuns não há ação e, apesar de existirem homens, não existe um corpo social.

Tocqueville (1835/2008) afirma que as crenças são indispensáveis para viver em sociedade, já que se o homem fosse forçado de provar a si mesmo todas as verdades de que se serve todos os dias, nunca acabaria de o fazer. Assim, vê-se reduzido, não por vontade, mas por condição, a ter por garantidos um conjunto de opiniões e de factos que outros descobriram ou que são adoptados pela sociedade, tornando necessário que aceite, sem as discutir, um conjunto de crenças, entre as múltiplas opiniões com que se depara e onde procura as origens da verdade.

Os cidadãos das sociedades democráticas, ao serem independentes e fracos enquanto indivíduos, não podem nada por si mesmos, já que, ao contrário do que acontecia nas sociedades aristocráticas, em que havia sempre alguém de quem se tinha proteção e alguém cujo concurso se podia reclamar, agora nenhum de entre eles pode obrigar os seus semelhantes a prestarem-lhe o seu concurso e todos cairão na impotência, se não aprenderem a ajudar-se livremente (Tocqueville, 1835/2008). A sociedade democrática é, então, fruto de uma ação coletiva entre os indivíduos, que, na perseguição do seu interesse individual, necessitam dos seus semelhantes para o concretizarem.