O conceito de ACV surgiu no início dos anos 60 associado às preocupações a respeito das limitações das matérias-primas e dos recursos energéticos no cenário mundial. No ano de 1969, a empresa Coca-Cola encomendou um estudo que visou comparar diferentes tipos de embalagens para suas bebidas produzidas e assim determinar qual das alternativas analisadas continha o menor lançamento para o meio ambiente e qual seria menos afetada pelo fornecimento dos recursos naturais existentes até então. Tal estudo fez um inventário de todos os insumos requeridos, quantificando as matérias-primas, os combustíveis usados e as cargas ambientais dos processos de produção de cada embalagem, servindo de base para que outras empresas nos Estados Unidos e na Europa também utilizassem do método empregado (CURRAN, 2008).
Neste período, ainda não havia consenso quanto à estrutura completa para a ACV e o processo para quantificar os insumos e os lançamentos ambientais de produtos ficou conhecido nos EUA com análise do perfil ambiental e na Europa como eco balanço. Assim, o interesse pela ACV foi ganhando mais força por volta de 1975 até o início dos anos 80, no decorrer da crise do petróleo e do aumento da preocupação com o meio ambiente por parte de setores públicos e privados (CURRAN, 2008).
Contudo, o início dos estudos sobre ACV foram marcados por muitas discrepâncias entre as conclusões obtidas de ACVs de produtos semelhantes que também possuíam processos de fabricação parecidos. Por não haver critérios padronizados sobre como conduzi-la, muitas empresas fizeram pesquisas induzidas, enaltecendo as qualidades de seus produtos em termos ambientais para os utilizarem em campanhas de marketing e tentarem demonstrar a supremacia dos mesmos amparados por metodologia científica (CHECHEBE, 2002).
Neste contexto, muitas iniciativas foram tomadas para harmonizar a metodologia de ACV, sendo que a maioria dos esforços resultou em guias metodológicos que eram muitas vezes válidos para uma área geográfica e aplicação específica de ACV ou para uma categoria particular de produtos (EKVALL, 1999; HAUSCHILD et al, 1998; RUSSEL, 2005). Dessa forma, muitos obstáculos foram encontrados até que houvesse harmonização e padronização de uma metodológica de ACV, mobilizando agentes do meio acadêmico para contribuir no desenvolvimento de uma metodologia ambiental baseada na ACV (RUSSEL, 2005).
Tal mobilização, aliada a fortes pressões de organizações ambientais para que houvesse uma padronização metodológica de condução de estudos de ACVs, bem como a motivações da crescente demanda do mercado por conhecer os atributos ambientais implícitos na fabricação dos produtos que consome, contribuiu para a criação das normas sobre ACV pela International Organization for Standizartion (ISO) (CURRAN, 2008; COLTRO, 2007). Assim, em 1979 foi criada a ONG Society of Environmental
Toxicology and Chemistry (SETAC), forte desenvolvedora de técnicas com foco no
aperfeiçoamento da ACV, cujos trabalhos serviram como parâmetros para a construção das normas ISO a respeito da ACV (CURRAN, 2008).
A padronização, de acordo com Hauschild et al. (2005), propiciou a harmonização da metodologia empregada e o aumento da credibilidade das conclusões obtidas das ACVs. Contribuiu também para que a ACV fosse difundida entre entidades públicas e privadas na maioria dos países da Europa, América do Norte e Ásia, pois enquanto sua aplicação no setor privado reside mais em comparações de alternativas no desenvolvimento de produtos, utilização em campanhas de marketing e apoio a tomadas de decisão na gestão ambiental, nas entidades governamentais a ACV pode ser útil em
análises de sistemas de gestão de resíduos, como ferramenta para auferirem rotulagem ambiental e para consecução de políticas verdes.
Neste contexto, a ISO estruturou a padronização de uma ACV, dividindo sua forma de execução em quatro fases, a saber: definição de objetivo e escopo, análise do inventário, avaliação do impacto e interpretação. Deste modo, até o ano de 2009 a ISO mantinha um conjunto de quatro normas relacionadas a consecução de uma ACV, sendo uma relacionada aos princípios gerais de uma ACV, outra específica para a fase de definição do escopo e análise do inventário, outra sobre a fase de avaliação de impacto e outra sobre a fase de interpretação. Assim, as quatro normas que haviam até 2009 eram: • ISO 14040 – Environmental management – Life cycle assessment – Principles
and framework;
• ISO 14041 – Environmental management – Life cycle assessment – Goal and scope definition and inventory analysis;
• ISO 14042 – Environmental management – Life cycle assessment – Life cycle impact assessment;
• ISO 14043 – Environmental management – Life cycle assessment – Life cycle interpretation.
Já a partir de 2009, estas quatro normas foram unidas em apenas dois documentos, um envolvendo os aspectos gerais da ACV e o outro o detalhamento das quatro fases, sendo estes:
• ISO 14040 – Environmental management – Life cycle assessment – Principles
and framework.
• ISO 14044 – Environmental management – Life cycle assessment – Requirements and guilelines.
Deste modo, estas normas substituíram as quatro vigentes até 2009, mantendo em apenas dois documentos os mesmos conteúdos das anteriores. Assim, dado que a ISO é representada no Brasil pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), as duas normas atuais sobre ACV foram traduzidas para o português e são disponibilizadas por esta entidade nos seguintes formatos:
• ABNT NBR ISO 14040 – Gestão Ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Princípios e estrutura;
• ABNT NBR ISO 14044 – Gestão Ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Requisitos e orientações.
Assim, a definição de uma metodologia padronizada contribuiu para o que os trabalhos envolvendo ACV fossem desenvolvidos e representados com um grau de confiabilidade mais adequado às exigências de grande parte dos agentes envolvidos.