O indivíduo exerce diversos papéis em sua vida pessoal e profissional, por exemplo, o papel de pai, de amigo, de filho, de marido, de amante, de gerente, de empreendedor, etc. É possível exercer os diversos papéis de forma consecutiva ou simultaneamente (INKSON, 2007). As ações que o indivíduo desenvolve estão ligadas a esses papéis. De acordo com o papel a ser desempenhado, espera-se determinado tipo de ação. Como pai esse indivíduo se comporta de uma forma; como executivo ele possui uma outra postura; como amigo ele se comporta de uma maneira diferente, e assim por diante. Sem perder de vista os próprios valores, independente do papel a desempenhar, a pessoa será sempre ela mesma, embora exista a dificuldade de satisfazer os outros.
A carreira demanda que um profissional desempenhe diversos papéis. Nem sempre há compatibilidade do papel desempenhado consigo mesmo. Muitas vezes, o caminho tomado na carreira ameaça o senso de identidade (INKSON, 2007), o que vem a ser um problema na vida do profissional, visto que o trabalho e os resultados que dele advém auxiliam na formação da identidade do sujeito (MORIN, 2001). Não apenas o processo de trabalho, mas também a organização se tornam motivos de orgulho, trazem status e reconhecimento social ao empregado
(MORIN; TONELLI; PLIOPAS, 2007). Daí a importância de o indivíduo se identificar com os diversos papéis que desempenha na empresa.
A maioria das pessoas tem dificuldade em balancear as demandas entre os papéis requeridos na sua vida particular e aqueles requeridos pelo trabalho (INKSON, 2007). Nesse sentido, pode-se fazer uma ligação da metáfora da carreira como papel com a carreira como ciclos. Dependendo do ciclo pelo qual o profissional passa no momento, seu papel pode ser alterado dentro e fora da organização. Por exemplo, uma mulher, quando tem filho, fica alguns meses afastada do trabalho. Existem mulheres que estendem por alguns anos o período da licença maternidade e deixam de trabalhar, ou seja, passam a desempenhar prioritariamente o papel de mãe e deixam de desempenhar temporariamente o papel de profissional. É possível conciliar os papéis, embora nem sempre seja simples balancear a vida pessoal com a profissional (INKSON, 2007). Nessa perspectiva, pode existir conflito entre os papéis desempenhados no trabalho e na família, o que pode acarretar para o indivíduo um estresse ocupacional (PASCHOAL; TAMAYO, 2005).
O papel existe porque se tem um propósito de realização, bem como expectativas acerca de determinadas ações do indivíduo de acordo com o papel que desempenha. Todo trabalho deveria possuir um propósito ou uma função. Muitos inclusive deveriam ter descrições formais do que se espera do profissional que vai ocupar um cargo ou uma ocupação. Sob esse viés, a carreira se torna uma série de papéis determinados não pelo profissional, mas pela organização em que ele se insere. A carreira pode se tornar uma série de papéis relacionados ao que os outros esperam e às expectativas da organização, mas também diz respeito à identidade do indivíduo. O trabalho envolve diversos papéis que se alteram com o tempo e que são definidos por cada profissional, por outras pessoas, pela organização na qual ele trabalha e pelas instituições sociais nas quais a carreira se insere, como entidades de classe, sindicatos, conselhos (INKSON, 2007).
Os papéis que se espera que o indivíduo desempenhe em determinada carreira podem tanto nortear o seu caminho, como criar dificuldades para ele. As diferentes sugestões para desempenhar um trabalho, recebidas do chefe, de colegas, de familiares e de outros, podem não ser congruentes umas com as outras e podem ser diferentes e incompatíveis entre si e com as características individuais do próprio empregado. Pode acontecer de o indivíduo não conseguir
lidar com todas as expectativas requeridas em um papel. Assim, surgem conflitos da pessoa com o papel que se espera que ela desempenhe (INKSON, 2007).
Inkson (2007) afirma que o profissional pode transferir para a carreira a sua identidade. Entende- se como identidade a individualidade, a personalidade e quem o indivíduo é. Ela tem importância, porque imprime o senso de direção na vida da pessoa. A carreira pode estar próxima da identidade, quando há congruência dos valores do profissional com os papéis a serem desempenhados por ele no trabalho. A identidade se sobrepõe ao papel, quando o indivíduo abandona seu emprego, devido às obrigações requeridas pelo papel serem incompatíveis com seus valores, com a sua identidade. A identidade possui ligação com a metáfora do encaixe. Se o indivíduo se preocupar de forma demasiada com os papéis, ele pode perder o senso de identidade (INKSON, 2007). É necessário pensar em como o profissional contribui para o próprio trabalho, se o cargo que executa traz desafios para o indivíduo, se ele percebe que contribui de alguma forma e possui responsabilidades, se tem relação com seu gosto pessoal. Todos esses pontos levam a pessoa a sentir satisfação com o trabalho que exerce (MORIN; TONELLI; PLIOPAS, 2007).
Toda pessoa passa por diversas mudanças no decorrer da vida. Podem ser mudanças físicas, como mudar de casa, de estado, de cidade, trocar o carro, comprar novas roupas, etc. Há as mudanças internas: mudam-se os paradigmas, os valores, as crenças. Dessa forma, a identidade do indivíduo pode ser transformada. Não que isso seja um processo fácil, mas acontece na vida de qualquer pessoa, todos passam por transformações. Vasconcellos (2002) afirma que as mudanças de paradigmas ocorrem através de vivências, experiências, evidências que coloquem o indivíduo frente aos limites de um novo paradigma. Uma vez que “a carreira é considerada como uma seqüência de papéis, então um aspecto importante da carreira pode ser o processo de transição entre os papéis [...]” (INKSON, 2007, p. 161). Essa transição acontece quando há mudanças de emprego, de organização, pela aposentadoria ou mudança de carreira, de profissão.
As mudanças ocorrem com o papel, quando, por exemplo, novas obrigações são adicionadas ou se altera a natureza do papel desempenhado, devido a uma reestruturação organizacional ou devido a mudanças tecnológicas. É difícil generalizar as transições dos papéis, uma vez que esse
termo inclui mudanças de diversos tipos: de uma organização para outra, de um nível hierárquico para outro, de uma ocupação para outra. Até mesmo a mudança geográfica pode estar aí inclusa (INKSON, 2007). É assim que se define a carreira em ziguezague ou espiral. O indivíduo deve estar pronto para as mudanças em sua carreira, mudanças de emprego, de cargos dentro da empresa, de setor. Mesmo a aposentadoria é considerada como um novo rumo na carreira (EVANS, 1996).
O mercado está em constante transformação, assim como o mundo do trabalho, como já foi explanado em outro tópico desta pesquisa. No meio de tantas transformações, alguns teóricos falam sobre os scripts que os empregados precisam ter no cenário de carreiras. Pode-se, nesse sentido, pensar que a metáfora dos papéis é uma extensão da metáfora do teatro (INKSON, 2007). A nova economia não pode ser comparada com grandes espetáculos, que requerem vasto planejamento por parte dos diretores, escritores, atores, produtores. É mais certa uma comparação com o teatro de rua, em que os atores precisam trabalhar com a improvisação e o personagem que o ator interpreta pode logo ser alterado.
A metáfora do teatro implica uma grande responsabilidade por parte do empregado ou do ator da carreira, pois ele tem que trabalhar com a improvisação. “[...] O papel se torna uma invenção individual, não do empregador” (INKSON, 2007, p. 172). A responsabilidade maior é para o empregado, não apenas com relação aos papéis desempenhados dentro da empresa, mas principalmente com a sua carreira.