• No results found

2.5 Teoretiske årsaksforklaringer av SSV

2.5.2 SSV som begrensning i generell prosesseringshastighet

Uma obra da magnitude de STIP, com o escopo de oferecer alternativa à forma então predominante de se pensar a estrutura do sistema internacional, por si só (e pela própria natureza do modo de produção do conhecimento científico-social), não poderia estar isenta de críticas.

Ao rejeitar postulados de autores neoliberais, neorrealistas e mesmo construtivistas, seria previsível que os mesmos não quedassem inertes perante os questionamentos realizados por Wendt. Enquanto certas críticas o autor procura responder ainda em W1, outras ele retoma em W2. Tendo em conta que o primeiro caso foi objeto de reflexão bastante por parte de Wendt,64 optamos por simplesmente apontar o conjunto de críticas levantadas e dedicar mais tempo àquelas que levam o autor a revisitar alguns temas de STIP, sob o embasamento cognitivo-quântico.

De fato, Wendt foi posto em questão pelo alto grau de abstração de seu pensamento; por não estabelecer de forma clara a relação entre condições materiais e ideias; por supostamente privilegiar a explicação em relação ao entendimento; por enfatizar o embasamento científico de sua teoria e pelos princípios epistemológicos adotados, fundados no realismo científico (ainda que a epistemologia não tenha sido o objeto central de seu livro); por ignorar a virada linguística; por tomar o estado como ator central; por insistir, além da conta, na ideia do estado como um ente real; por não considerar a tenuidade da dimensão sistêmica da cultura no plano internacional; por estabelecer uma teleologia que, se já era questionável em sua versão original, tornou-se ainda mais inadmissível a partir de “Why a world state is inevitable”; enfim, Wendt foi criticado mesmo por reforçar a importância do diálogo entre diversas correntes de RI, ao procurar estabelecer pontes entre as teorias dominantes65.

64 Sobre o assunto, cf. WENDT: 2000.

65 As críticas acima sintetizam, em especial, dois compêndios dedicados ao pensamento de Alexander

Seguindo o raciocínio proposto por Wendt (WENDT: 2006, 205-219), agruparemos algumas das críticas em quatro núcleos: epistemologia,

materialismo/idealismo, agência/estrutura e agência estatal.

Espitemologia

Em termos gerais, as deficiências epistemológicas de STIP podem ser assim descritas: “Wendt’s attempt to found not only a social theory, but the (generic) ‘social theory’ seems [...] somehow old-fashioned, hardly compatible with his own constructivist perspective, and curiously out of sync with some of the most important developments in ‘science’.” (KRATOCHWIL: 2006, 37). Em termos mais específicos, Friedrich Kratochwil questiona a forma como Wendt procura se ater aos postulados do realismo científico, o que termina por gerar algumas inconsistências.

Por exemplo, ao afirmar que a “verdade” não exerce trabalho relevante algum na filosofia da ciência realista (WENDT, 1999, 59), o autor parece desconsiderar que a referida argumentação, não obstante plenamente compatível com o pragmatismo científico (focado mais no critério da utilidade do que propriamente no critério da verdade), estaria, de certo modo, indo de encontro ao realismo em seus fundamentos (KRATOCHWIL: 2006, 38).

Da mesma forma, ao valorizar a necessidade de teorias científicas se referirem a um mundo, cuja existência independe dos indivíduos, o autor estaria a ignorar que, ao menos nas ciências sociais, teorias podem ser exitosas ainda quando não digam respeito a algo real. Por estes motivos, a associação entre construtivismo e realismo científico poderia ser vista como um casamento fracassado (KRATOCHWIL: 2006, 41).

social theory of international politics”, contou com a contribuição de diversos teóricos de RI, incluindo Keohane, com seu artigo “Ideas part-way down?”. Boa parte dos questionamentos que Wendt busca replicar em “On the via media” tem ali sua origem. O segundo, publicado em 2006 pela Routledge e intitulado “Constructivism and international relations: Alexander Wendt and his critics”, contém comentários mais recentes, assim como, ao final, texto do próprio Wendt, no qual não somente dá início à sua guinada quântica como procura enquadrar as críticas em seu novo (ainda que incompleto) modelo teórico.

Materialismo/idealismo

Duas críticas merecem destaque a este respeito66. Ao procurar definir o papel das ideias, Wendt propõe uma distinção entre os campos ideacional e material que, por si só, seria também uma ideia e, logo, uma falsa distinção (BEHNKE: 2006, 53). Dale Copeland, por sua vez, sustenta que, em última instância, a política mundial é determinada ainda pelo poder e pelo interesse, não por ideias: “The security dilemma, with all its implications, is real and pervasive. It cannot be talked away through better discursive practives. It must be faced.” (COPELAND: 2006, 20).

Para o autor, a questão não seria rejeitar em absoluto a possibilidade de atores militaristas, guiados pelo autointeresse, transformarem-se mediante a interação no plano internacional, tal como proposto por Wendt. A seu ver, os problemas centrais consistem nos seguintes fatos: (i) STIP não oferece base empírica para apoiar essa hipótese e (ii) a interação e o discurso não são os únicos fatores capazes de gerar a mudança em apreço:

“Sometimes egoism and militarism will be caused by domestic processes alone [...] Sometimes they will result from prudent fears of the future [...] Sometimes they will reflect a lack of institutional mechanisms for learning about the other state, and thus, rational misjudgments about the other’s type.” (COPELAND: 2006, 20).

Agência/estrutura

A prioridade ontológica do estado em relação ao sistema de estados representa aqui um dos principais desacordos. O que se coloca em debate é a ideia de estado essencial de Wendt, na medida em que sua própria existência dependeria preponderantemente de fatores sociais, implícitos em sua diferenciação perante o meio em que subsiste. Do ponto de vista constitutivo, a identidade estatal, depende necessariamente dos demais estados, de modo que a precedência ontológica da unidade sobre o sistema perde seu sentido, ainda que não totalmente (conforme Wendt argumentará ao revisar STIP).

Sobre a relação entre agente e estrutura propriamente dita, Hidemi Suganami

aponta que a defesa de Wendt da mútua constituição implicaria no fundo a equivalência entre os dois entes. Posto de forma mais clara, a descrição do papel de

66 Certamente, a relação entre ideias e condições materiais foi objeto de diversas outras críticas. Mas,

inimigo exercido pelos agentes seria o mesmo que a descrição de uma estrutura enquanto cultura hobbesiana: “The Hobbesian international culture is states having enemyhood as their identity and states having enemyhood as their identity is the Hobbesian international culture. What we have here then is not a case of mutual constitution, but equivalence.” (SUGANAMI: 2006, 68).

Por último, resta o ponto levantado por Copeland, segundo o qual incertezas sobre as intenções futuras dos demais agentes seriam de tamanha profundidade que a anarquia limitaria as possibilidades de ação estatal independentemente do conteúdo cultural da estrutura. A seu ver, haveria uma ironia subjacente à proposta de Wendt, tendo em conta que é a própria valorização construtivista da mutalibilidade de identidades e interesses que, quando levada ao plano doméstico, acaba por reforçar o porquê de a anarquia compelir os atores a manterem sempre uma postura receosa perante intenções alheias (COPELAND: 2006, 10-19).

Estado como ator

Diversamente de Wendt, Suganami advoga a linha nominalista de que o estado enquanto agente dotado intencionalidade seria tão somente uma ficção útil. A seu ver, a hipótese defendida por Wendt possuiria os seguintes problemas:

“First, Wendt conflates the question of whether the state, thought unobservable, is none the less real, and that of whether the state, though seemingly different from a real person, is

really an intentional agent. Second, regarding the latter question, the hypothetical case that he uses to demonstrate the inadequacy of nominalism67 is not a relevant test for nominalism

as such. Third, and most importantly, Wendt does not in any event need to invoke scientific realism to argue his case that states can do and cause things.” (SUGANAMI: 2006, 63).

Tais questionamentos bem sintetizam boa parte dos motivos normalmente apresentados para a rejeição, entre os pesquisadores de RI, da ideia do estado como pessoa. Outra questão polêmica, apontada por Drulák, seria o limitado espaço que Wendt reserva para a reflexividade na política internacional, reduzindo o estado praticamente a um autômato tendente a reproduzir a lógica cultural na qual ocorrera seu processo de socialização.

A seu ver, esse problema decorreria da subvalorização do papel do

entendimento em conjunto com a supervalorização do papel da explicação, a qual

seria incompatível com a teorização da reflexividade: “[...] the epistemological position Wendt develops does not allow for reflexivity to be theorized. Thus, he removes what seems to be the most important source of change from his meta- theoretical work.” (DRULÁK: 2006, 146). Mais ainda, se em STIP ainda é visível uma tentativa de compatibilizar as lógicas da anarquia com a reflexividade, a fim de mostrar como a mudança estrutural é possível, a partir de “Why a world state is inevitable”, Wendt “[...] does not seem to care about it anymore.” (DRULÁK: 2006, 154).

Em suma, a ênfase epistemológica na explicação, somada à elevação da teleologia a termos praticamente deterministas, teria como consequência a morte da

reflexividade na política internacional – pouco importando tenha sido esta ou não a

intenção de Wendt.

* * *

Não obstante STIP desenvolva na segunda parte uma teoria das relações internacionais focada na política entre os estados, Wendt foi constantemente questionado pelo alto grau de abstração de seu trabalho. Inclusive quando o autor procura atualizar seu pensamento, por meio da análise da teoria da história (WENDT: 2003), a crítica à abstração permanece pertinente, o que permitiu uma disseminação de seu pensamento até certo ponto caricatural, como se houvesse por parte do autor pouca ou nenhuma preocupação com a política internacional contemporânea e com questões empíricas. Ao dar início à guinada quântica em seu pensamento (WENDT: 2006), Wendt aparentemente eleva ainda mais o grau de abstração teórica68, correndo, eventualmente, o risco de cair em ostracismo intelectual, ao recorrer a temas da física moderna que foram, nas últimas décadas do século XX, objeto de ríspidos debates entre cientistas naturais e cientistas sociais (science wars).

68 Abstração esta que pode, na verdade, ser interpretada de diversas formas. Apenas para ficar com um

exemplo: “But exactly this movement to higher abstraction indicates perhaps another way of fruitfully approaching Wendt’s version of constructivism. Instead of starting from the abstract ‘downwards’ […] one could proceed from his dissatisfaction with the state of world politics ‘upwards’.” (GUZZINI, LEANDER: 2006, xvii).

Cumpre, portanto, se não uma defesa, fazer ao menos um esclarecimento sobre o assunto. Primeiro, STIP tem uma organização com grau decrescente de abstração ao longo do texto, por motivos didáticos: primeiro o autor oferece uma visão do construtivismo social por ele proposto, para em seguida perquirir sobre sua aplicação na política internacional. Segundo, a política é um ponto de partida para Wendt, dado este que demanda uma interpretação tanto sistemática quanto contextual de sua obra. Tanto é assim que um de seus principais alvos é o neorrealismo, cujo materialismo restringe massivamente as chances de mudança na política internacional; ademais, a despeito de críticas vistas ao longo do último subitem, os limites e possibilidades da mudança sistêmica são uma preocupação constante em STIP, visível seja em sua parte mais abstrata, seja em sua parte mais concreta.

O dilema surge quando se reconhece que, nas ciências sociais – e especialmente nas RI –, inexiste observação que não seja impregnada de teoria (“theory-laden”), dependente de ideias que compõem um pano de fundo normalmente considerado como não problemático, composta por premissas ontológicas que, sendo muitas vezes naturalizadas pelos pesquisadores, passam por despercebidas. Nao é por outro motivo que “[...] even the most empirically minded students of international politics must ‘do’ ontology, because in order to explain how the international system works they have to make metaphysical assumptions about what is made of and how it is structured.” (WENDT: 1999, 370).

Logo, seria impossível a Wendt questionar o paradigma dominante das análises sistêmicas em RI sem trazer à tona algumas de suas cristalizações ontológicas. E o autor não para nesse ponto. Ao final do livro, trata da relação entre teoria e prática, para mostrar que o realismo, muito embora se considere puramente científico, possui também uma dimensão normativa. Isto porque, o desenvolvimento de estudos fundados em premissas realistas termina por contribuir para a formação, com o passar do tempo, de uma espécie de teoria de resolução de problemas, cujo resultado concreto seria a reprodução do status quo.

Idêntico raciocínio poderia ser aplicável ao construtivismo social, com a ressalva de que, em razão das premissas advogadas, a teoria produzida pelo construtivismo seria de ordem crítica e reflexiva, mais útil para mostrar como os mesmos estados que criam uma cultura podem também transformá-la, do que para

tão somente trabalhar dentro de um status quo: “Both kinds of knowledge are scientific, but to different normative ends.” (WENDT: 1999, 378). É justamente essa constatação que leva Wendt a perguntar, ao final de STIP, “[...] what is IR ‘for’?” (WENDT: 1999, 378). Tal questão, muito embora deixada em aberto pelo autor, demonstra claramente que a crítica ao grau de abstração presente em sua obra estaria, no mínimo, mal direcionada.