A Polícia realizou várias prisões na noite desta terça em João Pessoa. No Colinas do Sul foram presos Francisco, 20 anos e Michael, 19 anos. Houve ainda a apreensão de três menores, de 12, 16 e 17 anos. Eles são acusados de
tráfico de drogas e na morte de um homem conhecido por “Neguinho”.
Neguinho foi assassinado no final da tarde de ontem naquela comunidade quando jogava vídeo game em uma lan house. Ele levou cinco tiros na cabeça e teve morte no local. A Polícia foi acionada e localizou os envolvidos em uma residência na Rua Projetada, no Colinas do Sul. No local, foram apreendidos 51 papelotes de maconha, 36 pedras de crack, além de um revólver calibre 38 e a quantia de R$ 43,00. Todos foram conduzidos para Delegacia. O menor de 17 anos confessou ter efetuado os disparos que mataram Neguinho.
Disponível em:
Através da programação exibida no Correio Verdade27 pude registrar que algumas ocorrências de violência se manifestaram em bairros nobres da cidade, e envolveram alguns dos moradores dessas áreas. Entretanto, os casos foram bem mais freqüentes nos bairros populares da cidade, principalmente em áreas que constituem os assentamentos irregulares, assim como comenta Abranches(1994) em seus estudos sobre violência urbana e criminalidade.
Em algumas dessas áreas, a repetição dos casos de violência foi muito verificada.28 Inevitavelmente, a freqüência dessas áreas da cidade na mídia policial local, tem como resultado a promoção da idéia de que são as áreas pobres de João Pessoa os espaços mais violentos. Com isso, o estigma que criminaliza a pobreza ganha forças e alimenta a violência da segregação.( CHAMPAGNE,2003)
Estudando os efeitos da mídia na divulgação dos eventos de violência urbana, este autor considera que através do recurso midiático, os processos de estigmatização da pobreza e de seus espaços territoriais de habitação são mais fortes, do que em qualquer outro mecanismo antes utilizado. Por outro lado, os entendimentos a respeito da relação entre pobreza violência são superficialmente conhecidos. Isso se comprova quando este autor afirma que: “Longe de ajudar os habitantes desses subúrbios a mídia contribui paradoxalmente para a sua estigmatização[...] esta estigmatização apesar de ser involuntária, se estendem muito além dos acontecimentos que a provocam e marcam essas pessoas mesmo quando eles estão fora dos seus bairros.” (Champagne,2003 p.73).
Ainda quanto às reportagens as ocorrências assistidas se caracterizaram por envolver jovens principalmente entre 18 e 25 anos, mas não excluindo nem mesmo crianças e adolescentes. Verifiquei nas entrevistas que estrategicamente esses menores de idade, são „utilizados‟ como „peças importantes‟ nos crimes, manipulados pelos „criminosos de carteira‟, a fim de serem usados como testas de ferro29 (Zaluar,2000).
Nas entrevistas assistidas pelo programa a frieza era marca permanente. Entre os assassinos confessos, muitos chegaram a dizer: “Matei e não me arrependo, matava de novo!”, Outros disseram: Matei para não morrer!” A falta do arrependimento revela o caráter indiferente em relação a vida do outro. Demonstrações de insensibilidade e
27 Programa que escolhi para acompanhar as reportagens sobre crimes e violência na cidade de João Pessoa. 28 Principalmente na Comunidade Torre de Babel, em Valentina; Bola na rede no bairro dos Novais; Timbó em
Bancários, Mangabeira; Bairro São José e outros.
29“Testa de Ferro” expressão que se refere à alguém que se apresenta em nome de outra pessoa, de alguma
indiferença(SIMMEL,1979), usados como „escudo‟ de proteção radicalizando a violência e banalizando o crime.
Já segundo as entrevistas da maioria dos jovens presos por tráfico de drogas(os que confessaram, pois muitos afirmaram ser apenas consumidores), a justificativa da falta de trabalho, os baixos salários, „a vontade de ter as coisas‟, as necessidades de sobrevivência própria e da família eram unânimes. Quanto a estes últimos suas perspectivas se mostraram de acordo com Zaluar(1994), para quem, na ausência de emprego e entregue a todos os atrativos fantasiosos, televisionados de consumo, os jovens tornam-se valentes e desbravadores.
O quadro de desemprego do país para a autora tem principalmente como vítimas os jovens pobres brasileiros, que são empurrados ao crime por se apresentar no primeiro momento, o momento de desespero muitas vezes, o caminho mais aberto.
A necessidade de consumo imposta pelo modo de produção capitalista, exacerbado nos dias atuais, associada à lógica que preconiza o consumo como determinante de nossas identidades( ou seja, quem somos e a quais grupos pertencemos) instiga cada vez o consumismo. Entre os jovens pobres, o crime do tráfico é o caminho mais fácil encontrado para poder inserir-se na sociedade de consumo brasileira, já que no Brasil uma das características socioeconômicas mais evidenciadas é o grande número de desempregados jovens. Segundo recente pesquisa realizada pelo Jornal Folha de São Paulo, os jovens entre 16 e 24 anos representam 50% do total de desempregados no país. Seja pela inexperiência, ou falta de escolaridade, esses jovens são as principais vítimas do desemprego.
Outra pesquisa realizada na Paraíba, pela Secretaria de Segurança Pública do Estado(2002), indica que entre os criminosos envolvidos em assaltos a mão armada, 70% são jovens entre 16 e 25 anos pertencentes às famílias pobres da população e moram nas favelas ou em comunidades pobres das principais cidades do Estado. Além disso, esta pesquisa indicou que esses jovens também são as maiores vítimas dos homicídios realizados na Paraíba. Em João Pessoa a taxa de homicídios contra a população jovem em 1991 era de 27,8%. Esse índice passou para 87,8% em 2000(SSP/PB,2002). Esse aumento de homicídios entre os jovens paraibanos ainda segundo a Secretaria de Segurança pública está fortemente relacionado com o narcotráfico.
Essas estatísticas pronunciam que as constantes imagens que vemos na mídia local não estão tão fora da realidade vivida em João Pessoa(pelo menos qanto aos crimes ocorridos nos bairros populares da cidade). Apesar dos efeitos negativos que desenvolvem, principalmente quanto aos estigmas, os programas tem retratado o cotidiano principalmente da violência
relacionada aos crimes violentos, que assim como em outras cidades, parecem estar principalmente relacionados com o tráfico de drogas. (Zaluar,2004)
Indicadores de violência ainda são poucos registrados e divulgados no País. Um dos mais usados para medir o nível de violência do Brasil, é o número de homicídios. Segundo relatório da FUNASA(Fundação Nacional de Saúde), os homicídios são a segunda causa de mortalidade na população em geral no país, atrás apenas das doenças cardíacas. (FUNASA,2000). Através do gráfico 2 a seguir, temos uma visão comparativa da situação de crimes por homicídios entre as capitais brasileiras.
GRÁFICO 2: TAXAS DE MORTALIDADE POR HOMICÍDIOS NAS CAPITAIS BRASILEIRAS. 2000
Fonte: RIPSA, Indicadores e dados básicos - IDB 2003, disponível em http://www.datasus.gov.br
Observando o gráfico 2, vemos que João Pessoa no ano 2000 registrou taxas superiores a 30/100.000 habitantes, ficando a frente de cidades metropolitanas do Nordeste, como Salvador e Fortaleza. Logo, percebemos que a realidade de cidade pacífica no ideário de alguns moradores não é algo tão verídico. É se comparado com outras cidades como Rio de Janeiro, São Paulo ou mesmo Recife, tão próxima a nós, mas que apresenta taxas de homicídios superiores a 70/100.000 habitantes, ou seja, mais de duas vezes maior do que a nossa.
Ainda a respeito dos números de homicídios na cidade, verifiquei que esses crimes são os que ganham destaque, como na notícia a seguir, que comenta números alarmantes sobre homicídios em João Pessoa.
Domingo, 08 de Fevereiro de 2009. VIOLÊNCIA: Polícia registra 71 mortes em menos de 40 dias
Um número bastante preocupante para as autoridades policiais e para a população em geral. No livro de entrada e saída de cadáveres do DML de João Pessoa, consta um total de 71 pessoas em 40 dias. Sessenta e três pessoas foram mortas a tiros em diversos bairros de João Pessoa. Seis casos ocorreram com arma branca (faca, facão, punhal e foice), um caso de morte através de pedradas e um por estrangulamento. Totalizando 71 homicídios. (Disponível em: http://jfilho.com/noticia.php?intNotID=1515)
Através dessa notícia, observa-se que na maioria dos homicídios ocorridos, as armas de fogo foi o veículo mais usado para a realização do crime. Isso apontou que algumas questões que envolvem armamentos, como maior controle de porte de arma, fiscalização contra comércio ilegal de armas, fiscalização e apreensão de armas clandestinas, são sumariamente importantes para o combate a violência urbana em João Pessoa. Como também foi apontado no caso de estudos de outras cidades brasileiras assim como no caso do Rio de Janeiro(MACHADO DA SILVA e LEITE, 2004), e outras.
Apesar dos homicídios terem sido destacados nos noticiários, verifiquei que muitos tipos de violência foram também publicados. Violência doméstica, contra mulheres, crianças, idosos, deficientes, violência em espaços públicos, assaltos de diversos tipos, seqüestros, estupros, entre outros. Contudo, observei que através da mídia, a maior parte dos crimes além de relacionar jovens pobres da cidade também estavam relacionados às drogas, assim como mostra a próxima notícia.
Quinta 11 de Setembro de 2008. GOE desarticula quadrilha acusada de