A concepção de linguagem, no tocante a esta pesquisa, torna-se fundamental na medida em que o discurso é utilizado não só como metodologia, mas como fonte de análise. Isso porque o diálogo entre os autores Paulo Freire e Seymour Papert será utilizado como objeto da pesquisa como já dissemos anteriormente, destaca-se, portanto, a importância da linguagem como mediadora da construção social do homem.
Discutiremos aqui a diferença entre língua e linguagem, relacionando a teoria de Saussure4 com as idéias de Bakhtin5, priorizando as concepções de
4 Ferdinand de Saussure (1857-1913) foi considerado o “pai” da lingüística moderna.
5 Mikhail Mikhailovitch Bakhtin (1985-1975) apesar de não ter uma “teoria” específica, seus trabalhos
linguagem em Bakhtin, pois esta se enquadra melhor com os objetivos de nossa pesquisa.
Sobre a língua, Carvalho (2002) citando alguns conceitos da teoria de Saussure afirma que a língua é apenas um instrumento que possibilita o materialismo da linguagem, ou seja, a língua é uma parte da linguagem. Para Saussure, a teoria lingüística tem como pressuposto não o estudo da linguagem, mas apenas uma parte dela (língua como um conjunto de convenções).
Assim, a língua para Saussure (1991) é uma realidade sistemática e funcional, é um sistema de signos específico que corresponde a idéias distintas.
Nesse sentido é que Saussure (1991) diz que a língua (signo) se manifesta de forma inerente à vontade dos sujeitos, ou seja, concebe a língua como algo pré- estabelecido socialmente, associando a fala ao ato individual do ser humano e o sistema lingüístico como ato social, implicando situar esses pontos em pólos distintos.
Na visão de Saussure a língua é um sistema estável em relação aos aspectos sociais, ela não sofre influência direta dos sujeitos, pois considera a fala assistemática, além de destacar que a observação dos fatos lingüísticos não pode acontecer fora do sistema da língua.
Assim, a concepção de língua em Saussure diferencia-se de Bakhtin na medida em que Saussure assume a inerência dos aspectos sociais sobre a língua, sobre os signos. Isso não significa desqualificar o estudo da lingüística que é fundamental, mas é preciso ampliar a visão sobre as relações sociais e seu papel na linguagem humana.
Portanto em Saussure (1991), a linguagem possui um lado social e um lado individual inseparáveis, e estabelece a língua como concretização do social, implicando no uso da língua para o estudo da linguagem ao invés da fala.
Em Bakhtin encontramos o oposto em relação ao papel da língua e as relações da linguagem nos aspectos sociais. A palavra se traduz como signo ideológico por excelência, pois ela é produto da interação social. Procurando definir o conceito de enunciado, Bakhtin (2006) afirma que a enunciação é o lugar da realidade da linguagem (BRANDÃO, 2006).
Para Brandão (2006), enquanto Saussure coloca o enunciado como simples ato individual e por isso mesmo fora da esfera de análise lingüística, Bakhtin inclui o enunciado nos estudos da linguagem e atribui papel fundamental para a estruturação semântica do ato de comunicação verbal.
Assim ao falarmos das perspectivas teóricas sobre a enunciação devemos considerar em Bakhtin,
Como, através de cada ato de enunciação, se realiza a intersubjetividade humana, o processo de interação verbal passa a constituir, no bojo de sua teoria, uma realidade fundamental da língua. O interlocutor não é um elemento passivo na constituição do significado (BRANDÃO, 2006, p. 8)
No que tange à relação entre língua e fala, Bakhtin nos ajuda a entender as diferenças na compreensão desses conceitos, na medida em que identificamos as inferências de cada uma delas na constituição social do ser humano.
A própria expressão da linguagem é organizada e regida pelas enunciações do cotidiano do sujeito. Assim, a realidade social é que mantém a estrutura do nosso mundo interior. Por isso, nossas enunciações são endereçadas socialmente.
Se a estrutura lingüística está ligada ao social, ao mundo que cerca o indivíduo, não podemos separar sua forma do seu conteúdo carregado de ideologias. Em suma, o que organiza a língua são as enunciações realizadas no dia- a-dia do social, e são elas, por conseguinte, que constituem o falante.
O processo de interação se torna, nas idéias de Bakhtin (2006), o momento em que a enunciação se transforma em realidade, que se realiza plenamente. Com efeito, o autor destaca que a linguagem é de natureza dialógica, pois as enunciações só se completam na interação.
Nesse sentido define Bakhtin (2006, p. 98 e 99),
Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial.
Essa interação não significa apenas diálogo um em face do outro, mas também discursos de outras naturezas. Em relação ao uso da língua pelo falante, o
autor destaca que o falante sabe da existência de uma norma lingüística, mas, ao usar a língua, o próprio sistema vai evoluindo.
A língua em si se constitui não em suas formas, mas nas interações dos interlocutores em situações discursivas. Não falamos palavras isoladas, mas sim enunciados providos de sentimentos, emoções, verdades, mentira, etc.
Quando um ouvinte processa a decodificação, ele não compreende a forma da língua, mas a língua em um determinado contexto concreto em situações reais de enunciação.
Assim, a palavra se enche de ideologia na medida em que se integra ao enunciado concreto. O conteúdo ideológico não pode ser deduzido das condições do psiquismo individual, já que a enunciação (parole) não é um fato individual, mas um “conjunto de condições de vida de uma determinada comunidade lingüística” (BAKHTIN, 2006, p.121).
A compreensão então é entendida como dialógica. Assim, reagimos, concordamos, discordamos, enfim, opinamos somente se compreendemos a palavra e se ela estiver ligada a um conteúdo ideológico, pois a língua é inseparável desse conteúdo.
Nesse sentido, a linguagem terá existência na enunciação, em cada cena enunciativa, quando os interlocutores interagem pela língua.
Ao analisarmos a importância da linguagem e da ideologia, entendemos ser imprescindível discuti-las em conjunto, ou seja, vinculadas sob a ótica da compreensão do fenômeno estudado, visto que a linguagem se materializa na forma de ideologia.