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No próprio processo de luta é que as pessoas adquirem uma identidade política específica, o que não anula as diferenças de interesses e de necessidades dos indivíduos que participam de uma determinada organização. Pelo contrário, há uma relação dialética aí colocada. A própria situação a priori do indivíduo na estrutura produtiva acaba por influenciar a sua inclusão ou não, numa determinada identidade política, que por sua vez, não anula eventuais diferenças de segmentos que são envolvidos, ou possíveis de serem envolvidos nessa identidade. O que dificilmente ocorre, a menos no mundo da fantasia e da falsa consciência, é a construção de identidades políticas sólidas e permanentes, entre indivíduos com interesses econômicos opostos ou contraditórios.

Na cidade de Itá, pelas próprias contradições presentes dentro da Comissão de Relocação, a construção de uma identidade mais permanente de atores coletivos não foi possível. Porém, há traços de reconhecimento mútuo entre os setores influenciados pela Comissão, não a partir de sua situação concreta, mas a partir do domínio e uma disseminação ideológica processada por setores dominantes dentro da lógica da utopia do progresso.

Dessa forma, na cidade de Itá as pessoas não se reconhecem como atingidos que luta pelos seus direitos, mas sim, como beneficiário de uma hidrelétrica. Os depoimentos obtidos no local, demonstram este sentimento:

Você ia receber uma casa na cidade nova com terreno e com 5% a mais de construção. Então, você ia ser beneficiado, não tinha porque não querê a indenização. (moradora)

Quem não vai gostar de ganhar uma casa nova, num lugar bonito, novo, né? Então aqui era tudo planejado, tudo bonitinho, tinha rede de água, rede de esgoto, asfalto (empresário)

Eu acho que o que houve de movimento foi mais pra atrapalhar do que favorecer. Mais pra atrapalhar, destruir, movimentos assim que não favoreciam nada, eu acho que ao contrário, a gente deveria ter trabalhado mais que nós poderíamos ter ganho muito mais da Eletrosul do que ganhamos. (dona Ortenila)

Eles iam indenizar toda a cidade velha de Itá, além de dar toda uma estrutura nova, pode ver, nos temos uma cidade com 100% de pavimentação asfáltica, toda ela. Tudo benefício que a gente recebeu. (ex-prefeito)

O discurso de ganhar benefício, quando na verdade está se falando de direitos de todo cidadão, como uma casa nova no caso de perder a antiga, rede de água, rede de esgoto, pavimentação; contrasta radicalmente com o discurso dentro da identidade de atingido, onde os direitos são conquistados através das luta, e não presentes recebidos.

De fato, a realidade do MAB é profundamente marcada pela construção de uma identidade de atingido, e pela sua afirmação como legítimo representante deste segmento, fato que gerou disputas com diversas outras forças e organizações políticas que pleiteavam a mesma condição. A identidade de atingido para o MAB, construída a partir da situação ontológica da classe social que o forma, é marcada pela denúncia das injustiças e exploração praticados contra os afetados por hidrelétricas, o que os fazem vítimas da ação do setor elétrico

organizado nos moldes capitalistas; porém não vítimas passivas, mas um setor combativo da classe trabalhadora que vai a luta e se torna sujeito ativo de sua história. Dessa forma, a identidade de atingido construída no MAB, indica a existência de um grupo social vítima do sistema econômico que o oprime, e que ao mesmo tempo, vai a luta para mudar esta situação.

Eu acredito que cada um dentro da sua classe tem a sua necessidade e as suas reivindicações. Olhando pra minha família, enquanto agricultora, não foi fácil, mas a gente, com a luta dos atingidos, conseguiu um reassentamento. Então hoje dá pra se dizê: com a luta nós conseguimos ter um pedaço de terra pra podê mora, trabalhá e sobrevive como uma família. Agora, olhando pro lado da família proprietária, foi uma das famílias que negociou individualmente com a empresa. Certamente, ele não saíram perdendo nada, onde que conseguiram toda a estrutura que eles tinham na cidade de Itá, tanto que até hoje mantém o hospital em seu poder. (militante do MAB oriunda do município de Itá).

Esta trajetória revela alguns momentos contraditórios. O esforço de fazer compreender a especificidade de sua luta, enfatizando a questão energética, efeitos sociais das barragens, direitos do povo, democratização do Estado e das decisões políticas referentes ao planejamento energético, soam como categorias que de certa forma, abstraem os conflitos de classe. A partir do momento em que a identidade de atingido ficou mais firme, O MAB passa a articulá-la com mais clareza com luta geral pela terra, reforma agrária, projeto popular, transmutando aos poucos os atingidos de sujeitos apenas de sua luta específica, para assumirem-se como classe trabalhadora. Este processo coincide com a transformação da Crab comissão, para Crab movimento, ou para Movimento dos Atingidos por Barragens, como vimos.

Em 1987 a Crab já definia com mais clareza o seu papel: “organizar a classe trabalhadora contra o projeto do capital”, na qual se inseria dentro do “projeto político da classe trabalhadora”. Quando se questiona que, a maioria dos atingidos não se identifica claramente com a luta contra o capital em si, mas que este segmento está mais interessado na luta pelos seus interesses imediatos, ignora-se que estes interesses imediatos dos atingidos são contraditórios ao capital e que, portanto, mesmo sem utilizar termos ou palavras que identifique, a luta dos atingidos é uma luta clara contra o capitalismo.

Logo, o movimento popular surgido dos setores excluídos da possibilidade de obterem benefícios econômicos com a barragem, assume um projeto histórico mais amplo de

transformação social, próprio da classe trabalhadora. Desse modo, enquanto para os setores que foram hegemonizados pela Comissão de Relocação de Itá, a identidade de atingido já é passado ou sequer existiu em Itá, sendo transmutada para uma noção vaga e alienada de

beneficiado na Nova Itá, para os integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens permanece vivo o desejo de luta por transformações socialistas no Brasil.

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ONCLUSÃO

Nesta pesquisa discutimos a relação entre os movimentos sociais contemporâneos, considerados por grande parte dos analistas como atores centrais dos processos políticos recentes do mundo globalizado, e as classes sociais que, por sua vez, são uma categoria do qual há questionamentos importantes por parte da sociologia, quanto a sua capacidade explicativa, a sua relevância e até mesmo, quanto a sua existência nos dias de hoje.

Nas últimas décadas, uma série de acontecimentos históricos como a reestruturação produtiva, a queda do socialismo real e o avanço do neoliberalismo diminuíram o peso político do que se entendia por classe operária e fizeram com que os movimentos sociais tradicionais, notadamente os sindicatos, perdessem relevância ou entrassem em crise. Ao mesmo tempo, o mundo viu emergir ou ganhar importância, uma série de movimentos sociais de novo tipo, que se organizam ao redor de demandas diversas até então em segundo plano.

Frente a esta conjuntura, muitos autores como Alberto Melucci, Alain Touraine e Claus Offe passaram, em suas pesquisas, a relativizar a noção de luta de classes para explicação dos conflitos sociais atuais. O fato de grande parte dos movimentos sociais contemporâneos não se organizarem diretamente a partir dos locais de trabalho é tomado como uma evidência empírica que comprovaria a superação do paradigma teórico das classes sociais e da própria utilidade da noção de classe para análise dos conflitos contemporâneos. De fato, há na sociologia atualmente, uma vertente importante dos estudos sobre movimentos sociais que baseia suas análises numa verdadeira recusa a utilização da noção de classe social enquanto uma categoria real.

Por outro lado, também há autores que mantém a teoria tradicional sobre classes ou produzem inovações que não dão conta das mudanças que o mundo tem passado, alterações que evidenciam uma situação diferente e mais complexa em se tratando de estrutura de classes sociais. Percebe-se que a realidade aponta, na sociedade recente, para uma situação distinta do conceito de classe operária como sujeito principal da transformação, nos moldes que este paradigma foi em grande parte dos séculos XIX e XX.

Sociólogos como Ricardo Antunes (2003), por exemplo, esforçam-se numa tentativa de ampliação e de adequação de um conceito de classe capaz de explicar os conflitos sociais de

hoje, saindo da noção restrita de classe operária e englobando todos os assalariados. Porém, essa é, ainda, uma tentativa de adequação que não dá conta da multiplicidade de movimentos sociais existentes. Por ser baseada em parâmetros utilizados para analisar o movimento sindical, estas tentativas de ampliação do conceito de classe não conseguem explicar os movimentos sociais que pipocam pelo mundo afora, agora no século XXI.

Neste campo de discussão é que se insere nossa pesquisa, justamente para problematizar a relação entre classes e movimentos sociais. A análise que fizemos tentou não ignorar as mudanças que diminuíram a importância do movimento sindical, além de não negligenciar as alterações nos contornos dos agentes sociais e das lutas populares como estas se apresentam neste dado momento histórico. Por outro lado, nossa análise também buscou ver até onde efetivamente estas mudanças vão. Se elas são tão drásticas a ponto de se concluir que as classes sociais não são mais base para a emergência de identidades coletivas, não tem mais importância para a análise dos movimentos sociais recentes, ou se, a questão de classe permanece relevante nos dias de hoje.

Não nos limitamos à discussão apenas no plano teórico. Nosso problema de pesquisa levou a um campo empírico, delimitado, que trouxe elementos concretos capazes de auxiliar no debate sobre movimentos e classes sociais. Para tanto, o foco de análise foi dirigido para o Movimento dos Atingidos por Barragens, um movimento social com suas origens ainda na década de 1970, mas que surgiu como organização nacional nos anos 1990 e hoje está presente em todas as regiões do Brasil.

O MAB é um movimento popular organizado a partir de uma demanda aparentemente transversal do ponto de vista das classes sociais, já que a construção de uma hidrelétrica atinge parcela específica do território nacional, onde estão presentes, como em todos os outros locais, relações de dominação, hierarquias, relações sociais, culturais, econômicas em toda a diversidade. Ao mesmo tempo, pudemos observar que o MAB incorporou boa parte das práticas e bandeiras dos chamados novos movimentos sociais, na caracterização que a sociologia faz deles. No entanto, é um movimento social que se vê e se entende, enquanto parte do movimento mais geral da classe trabalhadora na luta contra o capital.

A análise sobre o material empírico aponta que a construção de barragens dentro de um modelo de sociedade baseado em relações capitalistas que são, antes de mais nada, relações

voltadas à acumulação e ao lucro, significa o avanço do capital sobre territórios e meios de vida distintos, bem como, sobre a diversidade de situações de trabalho presentes nestes locais. Frente a esta investida do capital, verificamos que é possível a união de setores para além da composição tradicional de classe, com exceção de indivíduos que naquele território atingido, visualizam também possibilidades de acumulação através da barragem, mesmo que em pequeníssima escala se comparado às possibilidades de acumulação global que estes empreendimentos propiciam.

Este fato fica claro a partir do estudo de caso realizado no município de Itá / SC. A delimitação de um campo para análise objetiva de um conflito social concreto relativo ao deslocamento de populações por conta da construção de uma barragem, permitiu observar o posicionamento de diferentes indivíduos, ou grupo de indivíduos, em situações distintas de trabalho, frente a um problema comum a todos eles, que era a construção da Barragem, no caso, da UHE Itá. Com o estudo de caso, ficou claro que a identidade dos atores sociais locais que interagiram com a Barragem não foi resultado apenas de formações ideológicas que intervieram naquele espaço ou resultado de interações no campo da política, mas sim, havia uma base concreta e material prévia que delimitou grupos distintos para só então, através da ideologia e política, apresentarem-se com identidades específicas. Podemos concluir, ao menos no caso particular estudado, que identidade não se define somente a nível de ideologia, mas sim, tem base concreta. De forma que, a formação de grupos sociais para ação coletiva ou de um movimento social propriamente dito, tem base material clara. A análise aponta, igualmente, para a importância de levar em consideração as relações de trabalho e os interesses econômicos dos indivíduos para a delimitação e definição dos grupos de ação coletiva que surgem, bem como, dos projetos políticos que estes apresentam. No caso de Itá, ficou evidente a preponderância das relações de trabalho lá presentes previamente, frente aos demais fatores que intervieram no processo para delimitação dos grupos sociais formados a partir do anúncio da construção da UHE Itá.

No estudo de caso vimos claramente que a situação comum de trabalho, envolvendo neste caso específico principalmente pequenos proprietários e sem terra, aliada a comum situação de atingido pela UHE Itá, criou os elos de ligação que possibilitaram a ação coletiva comum do grupo. No mesmo grupo não incluíram-se os setores que, dada uma situação local

de utilização do trabalho alheio mesmo que em pequena escala, de uma relação patrimonialista de famílias tradicionais com a prefeitura, além de seu posicionamento na estrutura local de produção que possibilitava a visualização da obtenção de vantagens econômicas com a hidrelétrica, constituíam interesses objetivos frente à barragem, diferentes dos demais atingidos que viviam, como já dito, do seu próprio trabalho ou do trabalho do núcleo familiar. Este fato não constituiu oposição frontal entre os dois grupos, dado que seus antagonismos diretos estavam colocados numa escala muito reduzida, mas foi, nesse caso, suficiente para que se constituíssem grupos de ação coletiva distintos. Um deles, o que se organizou junto ao MAB com clara identificação como classe trabalhadora e forte antagonismo em relação à construção da barragem. O segundo, podemos afirmar com certeza que, se não conformava parte da classe dominante, agiu ao menos sob sua influência através da adesão a “ideologia do progresso”, na medida em que atuou politicamente para viabilizar a UHE Itá, recebendo em troca uma pequena porcentagem das possibilidades de acumulação advindas da hidrelétrica, seja pelo desenvolvimento local do comércio e principalmente pelas relações suas junto ao poder público local. Obviamente que todas estas afirmações que fizemos, são permeadas por múltiplos e complexos fatores no campo político e ideológico que vão delineando concretamente o fenômeno social sem que, os indivíduos envolvidos dêem-se conta e sem que haja capacidade de constatar todos, mesmo que tenhamos tratado muitos com profundidades no estudo de caso. Fato é que, nos esforçamos primordialmente para captar a base real e concreta que permitiu o processo como ele aconteceu em Itá.

A partir do caso de Itá, observamos que a participação ou não em algumas das possibilidades de acumulação, mesmo que em pequena escala, parece constituir um dos marcos visíveis da “linha divisória entre as classes sociais”. Porém, não uma linha divisória estanque. Nos parece que há potencial de comportamentos diversos de acordo com a visualização por cada indivíduo, do que se opõe concretamente a realização de seus interesses econômicos objetivos imediatos. Esta visualização precisa, obviamente, ter alguma base material concreta, mas é permeada por ideologia que pode ofuscar alguns aspectos e evidenciar outros, de acordo com os interesses da classe social hegemônica.

Na análise mais geral, concluímos que a ação coletiva desenvolvida pelo Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil é possível a partir da conexão de indivíduos que vivem