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Observei as aulas desta turma de 27/09/15 a 30/11/15. Esta turma era constituída por 17 alunos, com idades entre os 15 e os 17 anos e tinha um programa curricular alternativo (PCA). Como forma de combater o insucesso e o abandono escolar, esta turma é a única da escola com PCA e foi criada em 2013 para os alunos que tinham reprovado 2 ou 3 vezes no 5º ano. Além das disciplinas como Português, Inglês e Matemática têm a disciplina de formação pessoal e ateliês de artes, construções e de música até ao 9º ano. Neste ateliê a professora cooperante tem a liberdade para executar as atividades que achar mais adequadas.

50 Nesta turma observei padrões de comportamento e desempenho diferentes de qualquer outra turma observada. Observei um desinteresse generalizado, capacidade de concentração reduzida e, consequentemente, fraca retenção de conhecimentos e cultura geral. Além disso, destaco a dificuldade em manterem-se em silêncio, a constante troca de palavras em tom de brincadeira ou com o intuito de importunar os colegas, a troca de ofensas e as reações impulsivas das alunas.

Devido a várias experiências de prática vocal, instrumental e outras atividades práticas que foram muito desgastantes para a professora cooperante e que não captaram o interesse e o empenho dos alunos em anos anteriores, este ano a professora optou por realizar atividades baseadas na exposição oral de conteúdos como a história da música e a música tradicional portuguesa, sempre com uma preocupação em colmatar lacunas a nível da cultura geral dos alunos. Esta transmissão foi sempre apoiada pelo visionamento de vídeos que ajudaram a captar a atenção dos alunos e a transmitir o próprio conteúdo. Destaco positivamente a realização de uma atividade de construção de um mapa de Portugal de grande dimensão com imagens relativas à música tradicional de cada região, aliando assim o gosto da turma pela realização de trabalhos manuais como meio para transmitir conhecimentos sobre a música tradicional portuguesa.

3.8.2 – Aulas Lecionadas

Por se tratar de uma turma com um programa curricular alternativo e com um padrão de comportamento, interesse e nível de conhecimentos musicais diferente dos alunos de 8º ano do ensino regular e ter sido alvo de várias tentativas de atividades de prática musical em anos anteriores que não tiveram resultados positivos, decidi criar um projeto de música na comunidade e que foi rapidamente aceite e apoiado pela professora. O projeto consistiu na preparação e realização de um concerto e de um momento de convívio com o coro da Academia Sénior de Pegões, grupo este que coordeno. O projeto teve a duração de quatro aulas, do dia 2/05/16 ao dia 23/05/16. As aulas lecionadas a esta turma decorreram na sala da turma, no pavilhão mais longe das salas de música, pois estas estavam ocupadas com os alunos do Ensino Articulado da Música. Por não ter acesso a instrumentos musicais, decidi levar a minha guitarra e

51 alguns instrumentos de percussão (cajon, pandeireta e shakers) para trabalhar três canções com os alunos.

No início da primeira aula, sentia-me um pouco nervosa, pois apesar de já conhecer os alunos, receei que não se interessassem pelo projeto e que estivessem distraídos a brincar ou a discutir uns com os outros como era habitual. Contudo, isso não aconteceu nesta aula nem nas aulas seguintes. O comportamento foi sempre aceitável e os momentos de ofensas ou brincadeiras foram poucos e a atitude dos alunos permitiu ensaiarmos de forma produtiva na maior parte do tempo.

A professora cooperante tinha-me informado que tinha chegado à turma uma nova aluna, a N, que cantava fado muito bem, por isso a primeira canção a trabalhar, “O amor é assim” dos HMB, foi escolhida de propósito por juntar o Fado e Soul e para as partes cantadas pela fadista Carminho serem cantadas pela aluna. Infelizmente, a aluna não veio à aula e os colegas informaram-me que ela não vinha à escola há duas semanas, por isso, durante o ensaio estruturei a canção de maneira a ser cantada pela turma e pelo coro da Academia Sénior de Pegões.

No primeiro contacto, tiveram curiosidade em ver-me agora num papel ativo e fizeram perguntas para me conhecerem melhor. Depois passei a dar a conhecer o projeto “Junto de Si” (Anexo 22), alguns factos sobre o Ateliê de música e o coro da Academia Sénior. Finalmente, apresentei a minha proposta de projeto para fazer com a turma. Durante a minha explicação, por ser naturalmente mais expositiva e requerer atenção e silêncio, senti o grupo a dispersar passados alguns minutos, por isso optei por sintetizar a informação que tinha inicialmente planeada para transmitir. Uma situação que destaco é o facto dos alunos fazerem perguntas frequentemente sobre o que eu tinha acabado de falar ou, na aula seguinte, fazerem perguntas ou comentários sobre um certo assunto como se eu não o tivesse abordado na aula anterior. Estas situações também eram muito frequentes nas aulas que observei.

Depois de ouvir a primeira canção, começámos a ensaiá-la. Temi a reação da turma, pois não se enquadrava no género musical mais ouvido pelos alunos. Porém, não ocorreram comentários negativos à canção. Alguns alunos já a conheciam e gostavam, outros não conheciam, mas gostaram e outros não se manifestaram. De seguida, toquei a harmonia da canção na guitarra e pedi que cantassem comigo, mas

52 os alunos sentiam-se muito constrangidos. Com alguma resistência, cantaram várias vezes a canção acompanhados por mim na guitarra. Depois, para tornar o ensaio mais dinâmico, cantámos a canção com o áudio original. No final, o balanço desta aula foi positivo, pois o projeto foi bem aceite pelos alunos, apesar de alguma desconfiança. Colaboraram dentro do que o seu grande constrangimento em cantar em frente aos colegas permitia. A canção, ao contrário do que eu temia, não foi criticada negativamente e “ficou no ouvido dos alunos”, o que me deixou bastante aliviada e motivada para continuar.

Na segunda aula, a turma continuava bastante constrangida para cantar, porém, a reação à canção Alentejanas e Amorosas do cantor Vitorino, foi melhor do que eu esperava. Receava que não a quisessem cantar por ter uma sonoridade que se distancia bastante dos seus gostos musicais. E, de facto, não gostaram da canção quando a ouviram. Porém, como lhes expliquei que era uma surpresa para o coro e que os ia deixar felizes, tentei apelar um pouco à sua sensibilidade e os alunos aceitaram. Esta canção foi escolhida por falar do Alentejo e do povo Alentejano, pois grande parte dos elementos do coro são alentejanos, têm família alentejana e/ou têm uma ligação muito forte com a região. Como tal, esta canção foi apenas trabalhada pelos alunos para dedicar aos elementos do coro. Por ter uma melodia repetitiva, foi aprendida rapidamente. A seguir, começámos a trabalhar a última canção do repertório “Amor Ladrão”, da fadista Cuca Roseta. A reação à audição desta canção foi positiva, sendo que, no final do projeto esta foi a canção elegida pela turma como a favorita, embora se tenha revelado a de mais lenta aprendizagem e difícil execução vocal por parte dos alunos. Na fase de consolidação das canções era esta a que me pediam para ensaiar mais vezes. O nível de atenção manteve-se semelhante ao da aula anterior, apenas tive de chamar à atenção uns três alunos mais conversadores. Contudo, a participação ativa diminuiu, pois apesar de estarem a ouvir, em silêncio, muitos não quiseram cantar. Apenas uma aluna esteve a cantar com vontade e alegria a aula inteira. Ocorreram situações em que alguns alunos estavam a cantar quase sem se dar conta e quando eu elogiava por estarem a participar eles paravam. Talvez os meus elogios possam ter funcionado como punição positiva por apresentação ou de tipo I (Nogueira, 2011), pois é provável que os alunos se tenham sentido embaraçados

53 com o elogio perante os colegas, devido ao constrangimento que sentiam em cantar. No final da aula, ensaiámos as canções aprendidas em pé, lado a lado, e apesar da resistência mostrada durante a aula, a maioria dos alunos cantou. Na Canção Alentejanas e Amorosas aceitaram executar o balanço tipicamente alentejano.

Antes da terceira aula eu expectava que os alunos já não estivessem tão concentrados, pois já conheciam as canções e a aula iria consistir na consolidação das mesmas. Porém, creio que devido ao facto da aluna fadista, a N., ter vindo à aula, os alunos ficaram mais motivados. Neste sentido, a terceira aula foi um ponto de viragem no projeto, pois com a presença da N. muitas coisas mudaram na estrutura final do encontro com o coro da Academia Sénior. Apesar de não saber bem a canção “O amor é assim”, a N. rapidamente aceitou cantar algumas das partes cantadas originalmente pela fadista Carminho na versão original, tal como eu tinha planeado no início do projeto. Os colegas também ficaram mais motivados, pois acharam que a canção estava a soar muito bem e começaram a participar mais. A N. prometeu que ia estudar a sua parte e no dia seguinte disse-me que já a sabia. Fiquei muito feliz por ver que a aluna estava motivada e que se tinha dedicado ao projeto. Quando perguntei se gostava de cantar um fado sozinha, a aluna respondeu afirmativamente e sugeriu o fado “Rosa Branca” da fadista Mariza ou a “Lenda da Fonte” de Domingos Silva. Depois de acabar a aula, ensaiei com a aluna as canções sugeridas e decidimos que ela iria cantar o fado “Rosa Branca” a solo e que ia cantar com uma aluna do coro da Academia Sénior o fado “Lenda da Fonte”. Neste ensaio dei-lhe algumas sugestões sobre a respiração e o fim das frases, sugestões essas que a aluna ouviu e seguiu.

Antes da sessão de encontro com o coro da Academia Sénior, as alunas da turma prepararam a sala com a diretora de turma. Limparam o chão, arrumaram a sala, juntaram as mesas para colocarem o lanche partilhado, juntaram todas as cadeiras da sala em duas filas para o coro se sentar, enfeitaram a sala com trabalhos manuais feitos noutros ateliês, ligaram o projetor com uma imagem a dizer “Seja bem-vindo” e pintaram uma faixa de papel a dizer “Bem-vindos”. Quando entrei na sala esta nem parecia o mesmo espaço que conhecia. Forraram a mesa do lanche com um papel plastificado vermelho e puseram a comida que tinham trazido para o lanche partilhado. Deixaram também alguns tomateiros para oferecer aos elementos do coro.

54 As alunas fizeram questão de me dizer que tinham arrumado a sala e pediram-me encarecidamente para não mexer em nada, pois foi um trabalho árduo. Durante a sessão fiz questão de explicar ao coro o que os alunos tinham feito na sala de aula e os membros do coro elogiaram.

Quando o coro chegou à sala, a turma encontrava-se à porta pronta para os receber, cumprimentando-os. Depois de se apresentarem, cada grupo fez as perguntas que tínhamos preparado previamente para que se pudessem conhecer melhor (Anexo 21). Destaco positivamente o bom ambiente que se criou, pois esta conversa inicial serviu como uma dinâmica “quebra-gelo” para que os grupos se sentissem à vontade. Destaco negativamente uma situação em que dois alunos começaram a rir, disfarçadamente, dos elementos do coro ou das suas respostas enquanto a sessão de perguntas e respostas decorria. Penso que seria um mecanismo de defesa para o constrangimento que estavam a sentir por estarem a ser observados. Depois de algumas chamadas de atenção optei por separá-los e o problema cessou. Entretanto, a diretora da escola e a diretora de turma fizeram questão de cumprimentar o coro e desejar uma boa atividade. De seguida, passámos para a 2ª parte da sessão, a performance das canções trabalhadas. O coro começou por apresentar duas canções e a turma assistiu animada. Destaco positivamente o facto de entre a primeira e a segunda canção interpretada pelo coro, algumas alunas me terem perguntado se iram cantar a seguir e quando eu respondi negativamente terem ficado desiludidas, pois queriam muito atuar. Quando preparei o alinhamento da apresentação das canções, pensei que seria bom começar com o coro e a seguir com o solo da N. para que a turma começasse a descontrair e não ficassem tão nervosos quando fosse a vez deles. Porém, estavam ansiosos por atuar.

Como referi, em terceiro lugar a N. cantou o fado “Rosa Branca”. A aluna mostrou-se muito descontraída enquanto cantava. Já o coro, ouvia-a deliciado e, como a aluna cantava para o coro como se estivesse a falar com eles, estes cantavam com ela. De seguida, foi a vez da turma cantar a canção “Amor Ladrão” e a reação destes foi “Finalmente!”. Ao contrário do que tinha ocorrido nos ensaios, todos cantaram com empenho, prazer e descontração, mesmo os rapazes que praticamente não cantavam nas aulas. Destaco o facto de um deles não ter cantado rigorosamente nada

55 durante as aulas e na atuação ter cantado do início ao fim, o que me deixou muito feliz. Depois foi a vez da N. e da fadista do coro cantarem em dueto o fado “Lenda da Fonte”. Destaco positivamente, além da qualidade vocal, a bonita interação entre as duas, pois cantaram a olhar uma para a outra e a sorrir. A seguir, foi a vez da turma dedicar a canção “Alentejanas e amorosas” ao coro. O coro ficou encantado com a surpresa e perceberam perfeitamente o significado. A última canção, “O Amor é assim” foi uma boa forma de acabar esta 2ª parte da sessão, pois cantaram os dois grupos, a N. cantou a solo e todos gostaram de cantar em conjunto.

De seguida, demos início à 3ª parte da sessão. O lanche partilhado e convívio entre os dois grupos. Algumas alunas colocaram música Kizomba a tocar por sua iniciativa e começaram a dançar. Enquanto isso, outros alunos conversavam com os elementos do coro e ofereciam cadeiras para eles se sentarem à mesa. O convívio intensificou-se quando a N. percebeu que o género musical que estavam a ouvir não era do agrado dos convidados e que apenas os alunos se estavam a divertir a dançar. Por isso colocou música popular portuguesa e alguns alunos convidaram os elementos do coro para dançar. Relativamente a esta situação, destaco o facto de um dos alunos que estava a troçar do coro durante o momento de perguntas e respostas, no início da sessão, o J., ter convidado uma senhora para dançar. Saliento também, o facto de se ter formado uma roda constituída por elementos do coro a dançar uma coreografia coordenada pela N. Quando os colegas pediram para voltar a reproduzir música Kizomba a aluna impediu-os e explicou “Mas os senhores gostam é desta música!”. Assim, o coro e a turma ficaram a dançar e a conversar até ao final da aula, sendo que quando tocou para a saída, muitos dos alunos ficaram a dançar e a conversar com os elementos do coro, o que me deixou muito surpreendida e feliz por ver que continuavam presentes de livre e espontânea vontade.

Uma semana depois, falei com o coro e o balanço foi muito positivo. Adoraram os alunos, acharam-nos afetuosos e um dos elementos do coro contou, muito feliz, que um dos alunos, o J., convidou - a para dançar, conversou com ela e disse que ela era muito bonita. Também recebi alguns feedbacks de pessoas que assistiram à sessão ou acompanharam o projeto, como a coordenadora da Academia Sénior, que salientou a importância do convívio intergeracional, pois acredita que o contacto dos jovens com

56 as pessoas mais velhas contribui para que eles respeitem os mais velhos no futuro. Já a diretora de turma revelou que acreditava que eles iam respeitá-los porque muitos vivem com os avós. Por outro lado, a professora cooperante não sabia o que esperar, pois apesar de não expectar faltas de educação, considerava-os imprevisíveis.

Em suma, os resultados superaram bastante as minhas expetativas. Eu acreditei nos alunos desde o início, acreditei que iam conseguir cantar as canções e que iam ser bem-educados com o coro. No entanto, não esperava que todos fizessem questão de estar presentes na sessão, que os que se recusavam a cantar nas aulas anteriores cantassem, que não ocorressem trocas de palavras desagradáveis entre eles, que a fadista cantasse e interagisse com o coro de forma tão descontraída e afetuosa, que reproduzisse música por iniciativa própria com o cuidado de que fosse do gosto do coro e, acima de tudo, que muitos dos alunos convidassem os idosos para dançar. Tinha esperança que conversassem, mas tinha receio que o convívio na hora do lanche não se concretizasse. O objetivo não só foi atingido como ultrapassado. No que diz respeito à prática vocal, foi dos momentos mais desafiantes deste estágio, não tanto a nível técnico, mas a nível da disponibilidade dos alunos para o ato de cantar. Por outro lado, a envolvência emocional que se criou entre os dois grupos e que se refletiu em situações como a preocupação dos alunos com o bem-estar do coro ou o facto de aceitarem cantar uma canção com a qual não se identificavam para lhes proporcionar um bom momento, foram pontos cruciais para o sucesso do projeto. Considero este um projeto de música na comunidade executado com sucesso e que enriqueceu como músico e como pessoa todos os envolvidos.

3.9. Unidade de Multideficiência – Sessão de Música