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Spawning escapement and egg deposition

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4.2 Status of Stocks in the North American Commission Area

4.2.4 Spawning escapement and egg deposition

A vida urbana é permeada de histórias de pessoas que têm suas vivências modificadas ou limitadas após passarem por uma situação de assalto. O ato de narrar a experiência sofrida agrega pessoas. Ao relatar o acontecimento, cria-se uma conexão entre aquele que fala e o que escuta, que passa a discorrer sobre o assunto contando também sua história. A narrativa passa, então, do singular para o plural. A partir dessa troca, detalhes são agregados e a violência sofrida é compartilhada por outros, que passam também a alarmar familiares e amigos sobre os detalhes do caso. Quando, onde, quem, qual horário, em que situação, todas as minúcias apuradas são compactadas e repassadas a fim de reforçar o estado de alerta. Ou seja, propaga-se o relato do medo diante da justificativa de prevenção e a fala que circula multiplica a sensação de insegurança.

A propagação da experiência de atos violentos através de comentários, conversas, brincadeiras ou piadas é classificado por Caldeira (2000) como falas do crime. Ao relatar para outros sobre o crime sofrido, a vítima estaria possibilitando a proliferação do medo ao mesmo tempo em que reorganizaria simbolicamente o universo perturbado. Através do relato de um caso agregam-se outros tantos, propiciando interações sociais que alimentam o medo e simultaneamente combatem e ampliam a violência. As falas do crime seriam então, mais do que apenas relatos, mas ações capazes de produzir segregações, estimular o preconceito, o racismo e a desigualdade social.

A fala do crime — ou seja, todos os tipos de conversas, comentários, narrativas, piadas, debates e brincadeiras que tem o crime e o medo como tema — é contagiante. Quando se conta um caso, muito provavelmente vários outros seguem; e é raro um comentário ficar sem resposta. A fala do crime é também fragmentada e repetitiva (...), alimenta um círculo em que o medo é trabalhado e reproduzido, e no

qual a violência é a um só tempo combatida e ampliada. (Caldeira, 2000, p.27).

Desenvolver uma reflexão acerca do medo de assalto no cenário urbano fortalezense é, necessariamente, estar envolto em inúmeras situações em que os relatos sobre as histórias e “causos” de pessoas que foram vítimas de assalto se fazem protagonistas em diversos momentos de interações sociais. Dentro da esfera familiar e afetiva, o tema é abordado corriqueiramente e geralmente é associado à ideia de “cuidado”. Alertar sobre um crime é visto também como uma manifestação de zelo, uma vez que a fala ganha tons de alerta e expõe com detalhes as situações em que o assalto foi realizado. Assim, amigos e familiares, sabendo do ocorrido, podem desenvolver ações e evitar situações que os coloquem em risco.

O pessoal no trabalho da minha mãe só fala de pessoas que foram assaltadas. Isso acaba que interfere na vida familiar, porque meus pais são muito assustados com essa questão da violência. Minha mãe tem um exemplo de um amigo que foi assaltado na porta de casa que ela sempre fala (risos). Então ela barra muito eu e meu irmão quando a gente quer sair à noite. Fica muito preocupada. Sempre tem uma briga por isso. E ela também não é uma pessoa que saia pra andar na rua, então ela é assustada com qualquer coisa e isso gera muitos embates dentro de casa. (Lígia).

Lígia exemplifica uma das formas em que as falas do crime são apropriadas e recontadas com intuito de alertar, mas também como estratégia argumentativa que busca persuadir a limitação da exposição ao ambiente urbano como forma de prevenção aos crimes violentos. De acordo com ela, sua mãe costuma coletar narrativas em seu ambiente de trabalho, que é apresentado como local propulsor para trocas de experiências, que tem como ponto de interseção a criminalidade da cidade, que são constantemente alimentadas e repassadas.

Além dos inúmeros casos que preenchem seu estoque de relatos de violencia, a mãe de Lígia também se vale da repetição de um caso específico para coibir as saídas de seus filhos do ambiente doméstico. A especificação deste caso se torna emblemática justamente por transmitir a ideia de que para passar por uma situação de assalto basta sair de casa. Para sua mãe, mais do

que narrativas, as falas do crime são a representação do mal que pode acometer seus filhos e são percebidas como a representação de uma realidade mais do que possível, iminente.

A divergência entre pais e filhos surge quando, para estes, a exacerbação da violência como ferramenta para restringir o modo como eles se movimentam pela cidade. A diferença de perspectiva culmina em conflitos entre os familiares, uma vez que para a mãe tudo é imaginado, pois seu desconhecimento sobre a rua faz com que ela apenas a perceba através das histórias coletadas no trabalho, que desenham a cidade como um local essencialmente perigoso.

As falas do crime aparentam ser utilizadas por muitos como fonte única e irrefutável sobre a condição de violência na urbe. Mais do que dados oficiais, relatórios e pesquisas acerca da criminalidade, as narrativas do medo são costumeiramente usadas para justificar o discurso de que Fortaleza passa por uma fase crítica de inseguridade, como podemos perceber na fala de Lucineide, que mesmo não tendo presenciado situações de assalto, se utiliza das narrativas de seus filhos e familiares para afirmar categoricamente que os fortalezenses vivem um contexto “terrível de insegurança”.

Acontece demais das pessoas contarem um monte de história, né. Acontece muito. Por exemplo, aqui mesmo próximo de casa, eu mesma não vi, mas a minha filha e o meu filho viram e me contaram que viram um homem saindo pra trabalhar 7h da manhã e a pessoa sendo assaltada. 7h da manhã, aqui em frente do prédio. Já escutei história de irmã, sobrinha, um monte de gente, né. Dá nem pra contar. Então tá terrível. Isso quer dizer que falta segurança. (Lucineide).

Esse tipo de pensamento conclusivo acerca da violência na cidade pode ser constantemente percebido nos vários diálogos que se movimentam pela cidade, através de narrativas pessoais ou casos de conhecidos. Aquele que se dispõe a andar por Fortaleza atento às conversas das pessoas provavelmente irá se deparar com algum tipo de relato violento. Poderá inclusive observar que falar dos casos de assaltos na metrópole fortalezense compõe um dos aspectos característicos da cidade. As falas do crime são comumente elegidas como tópico de conversas entre aqueles que se fazem presentes em alguma situação

coletiva. Elas estão dentro dos transportes públicos, nas esperas dos consultórios médicos, nas reuniões familiares em meio as atualizações das notícias sobre seus membros, no pátio das escolas e bancos das faculdades e tantas outras situações da vida ordinária.

Os relatos de assalto muitas vezes se confundem com relatos de medo e são facilmente utilizados como ferramentas capazes de estimular interação entre desconhecidos. Falar sobre violência é pretexto para iniciar uma conversação. A busca por um tópico comum e que afete a todos não se limita as observações sobre o clima quente da capital cearense, mas também se apresenta em formas de comentários que tenham como conteúdo a violência em Fortaleza, que muitas vezes é associada aos assaltos que ocorrem na cidade. Como muito bem explicado por um de meus entrevistados:

Normalmente começa quando alguém acabou de ser assaltado, né? Aí pronto... vai falar como foi que aconteceu. E sempre tem alguém que pergunta, que quer saber os detalhes todos. Aí as pessoas começam a falar e as outras pessoas sempre vão contando mais histórias. Nessas horas até quem tava calado entra na história. (Raimundo, 19 anos. Estudante).

Nessas situações, as interrupções costumam ser frequentes e a história contada por uma voz torna-se plural quando novos detalhes e nuances são acrescentados por aqueles que inicialmente eram apenas ouvintes. A fala passa a ser, então, colaborativa e as narrativas vão se multiplicando. Outras pessoas se fazem protagonistas e novos casos de assaltos sofridos por ela ou por alguém próximo passam a ser anunciados.

Mais do que a exposição dos crimes, as falas mesclam opiniões sobre a violência sofrida. Vítima, assaltante, local, horário e todos os elementos que compõem a situação passam a ser analisados e diferentes pontos de vista são enunciados no intuído de classificar as condições do crime. Teria sido ele um ato de crueldade ou fruto de um descuido da vítima? Estava ou não o assaltante sobre influência de entorpecentes? A vítima fez bem em reagir ou deveria ter entregue seus pertences sem objeções? São alguns exemplos de indagações evocadas e rapidamente respondidas por aqueles que integram a conversa. Sugestões e críticas passam a ser proferidos sobre o argumento de precaver

aqueles que estão atentos ao diálogo e dizem algo como “É ruim a gente ficar falando disso, mas é melhor saber do que ser pego de surpresa, não é mesmo? A gente tem que estar alerta!”. Cria-se, deste modo, a circularidade do medo, “processo através do qual o medo vai adquirindo diferentes sentidos que são multiplicados e transformados em linguagens, símbolos e narrativas”. (BARREIRA, 2011, p. 89).

Assim, os muitos casos de relatos do crime se somam e se multiplicam, promovendo também o compartilhamento do medo. A partir dos relatos individuais de pessoas, o temor de passar por uma experiência similar à escutada é disseminado. A associação entre experiência pessoal e experiência coletiva produz diferentes possibilidades de apropriações do medo, que passa a ser incorporado em intensidades variadas pelos moradores da cidade, como observado na fala de Renata, que diz:

Escuto os relatos das pessoas sobre assaltos o tempo todo, inclusive próximo ao meu trabalho. É só o que tem. Eu tenho essa sensação de que o tempo todo eu posso sair e posso ser assaltada. A sensação de quando eu saio é que eu estou preparada pra ser assaltada. É uma sensação constante, um pensamento constante. (Renata).

Caldeira (2000) diz que a experiência de um crime violento, como roubo a residências por exemplo, provoca na vítima a desestruturação do mundo tal como era conhecido. As ações decorrentes da violência sofrida, entretanto, poderão variar individualmente de acordo com as experiências acumuladas historicamente por cada um deles. Do mesmo modo, as falas do crime afetam os moradores da cidade de diferentes formas. Se para alguns, como Renata, elas promovem a sensação de estarem cada vez mais envoltos pelo sentimento de insegurança e vulnerabilidade, para outros elas sugerem que o medo excessivamente sentido pela população produz a ideia de uma violência que é exacerbada através dos relatos de crime. John, por exemplo, demonstrou descontentamento pelo modo como a fala coletiva do crime o faz sentir.

As pessoas ficam falando: “você vai ser assaltado, você vai ser assaltado”. Mesmo que você diga que não aconteceu, elas respondem, “mas vai acontecer”. Então eu me preparar. Eu já pensar que quando acontecer eu entrego minhas coisas. Mas para mim, eles sempre

realidade. Todos os lugares aqui no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, tem violência, assaltos, normal, infelizmente é normal. (John).

O relato de John indica que as falas do crime contribuem para a alteração de modo como ele olha para a cidade. Nascido originalmente nos Estados Unidos e morando há seis anos em Fortaleza, ele afirmou nunca ter sido assaltado na cidade. Ainda que não tenha sido vítima e nunca tenha presenciado nenhum tipo de criminalidade na cidade, ele admite que as histórias de assaltos não só interferem na sua percepção sobre Fortaleza como alteram a forma como ele organiza sua rotina.

As pessoas com as quais ele se relaciona, além de compartilharem suas histórias de assaltos, afirmam que ele impreterivelmente vai experienciar uma situação de roubo na capital cearense. A imperatividade com a qual a afirmação “você vai ser assaltado” é repetida lhe causa uma revisão sobre o modo como ele percebe a cidade e John passa a acreditar que a possibilidade do crime é iminente e que, portanto, deve “se preparar para quando acontecer entregar suas coisas”. Sua fala reforça a afirmativa de que o assalto irá ocorrer em algum momento. Ele diz “quando acontecer” e não “se acontecer”, indicando que antes mesmo da violência se tornar física, ela se manifesta simbolicamente através da expectativa de se tornar vítima de assalto.

A alteração de seu comportamento é, por sua vez, associada ao que ele diz ser a “glorificação da violência” e não a possibilidade do assalto em si. Para John, o crime existe em vários lugares do mundo e isso é “normal”. O que o assusta é a intensidade como os moradores de Fortaleza propagam relatos de crime e através deles estimulam o sentimento de medo, o fazendo sentir mais inseguro do que de fato se sentira caso não fosse constantemente estimulado a temer o ambiente urbano da capital cearense.

Nada é seguro pra eles. Na rua, no carro… Na Via Expressa, por exemplo, eles falam que assaltam os carros. “Ah John, você não pode andar para uma rua aqui na esquina porque eles sempre fazem assaltos”. Por exemplo, Desembargador Moreira e Abolição a noite. Eu tenho uma aluna que mora lá na esquina e ela fala que sempre tem assaltos lá. Mas eu sempre desço de ônibus lá e nada aconteceu comigo. (John).

As informações que reiteram a ideia de que nenhum local da cidade é seguro passam a ser contrapostas às experiências pessoais de John. Ainda que receba estímulos para evitar o deslocamento por determinados trechos da urbe, ele desafia o que lhe é dito e passa a andar por esses locais. A experiência vivida se mostra oposta aos alertas recebidos e “nada acontece”, o que o leva à conclusão de que há uma exacerbação do medo e da violência, mais presentes nos relatos das pessoas do que necessariamente nas ruas da cidade.

Rosana, originalmente nascida em Campina Grande (Paraíba/Brasil) e moradora de Fortaleza há 4 anos, também foi impactada pelas tantas narrativas de crime. Aos olhos, de recém-chegada, a cidade não era assustadora. O desconhecimento sobre seu novo local de morada a protegia de qualquer ansiedade sobre a criminalidade. Mas tão logo interage com seus novos vizinhos, tem sua visão sobre a cidade alterada e o cerne de sua experiência enquanto moradora de Fortaleza passa a se constituir através das falas do crime, como podemos constatar a seguir.

Quando eu vim morar aqui, logo o início, as pessoas me fizeram muito medo. “Olhe você só ande por tal lugar… No parque do Cocó, você não passe naquela avenida que dá na Washington Soares. Você não passe ali de noite não, vá só de dia e com os vidros fechados, e não fique com cara de abestalhada não!”. Olhe, fizeram tanto medo, tanto medo, que a gente tava pra alugar um apartamento, mas terminou desistindo porque a mulher disse que tinha um sinal que era tão perigoso que todo dia tinha assalto. Então é isso sabe… É alimentando um medo que nem exista. E depois foram passando os meses e eu comecei a andar por lá e eu ando a noite e eu nunca vi nada. Nunca vejo nada! (Rosana, 29 anos. Professora).

Tão logo é reconhecida como nova habitante, Rosana passa a ser comunicada sobre localidades perigosas e situações a serem evitadas, uma espécie de manual de boas-vindas em que a política da boa vizinhança não se limita a indicar a localização de bancos e pontos de comércios próximos à localidade em que se vive, mas sobretudo alerta sobre os perigos da região.

Sobre esta interação entre novos e velhos moradores, Eckert (2002) diz que as narrativas das experiências dos mais antigos, através da dinâmica comparativa entre passado e presente, comunicarão ao recém-chegados os afetos territoriais, incertezas e evitações socioespaciais, assim como o medo e

as agonias. Deste modo, a partir desta relação, a vida urbana local ganha novos significados, havendo a integração entre as experiências individuais e as coletivas. Ou seja, a linguagem socializada e as emoções apreendidas pelos velhos habitantes orientam aqueles que ainda não possuem suas próprias narrativas e experiências com a nova localidade.

No contexto apresentado por Rosana, é justamente essa dinâmica de relação com os moradores antigos que promove nela a apreensão do medo social no cenário urbano fortalezense, fazendo com que ela não apenas passe a ter medo, mas também efetive ações guiadas por tal sentimento. E a urbe, inicialmente repleta de possibilidades, ganha delimitações que esquadrinham a cidade em locais a serem frequentados e locais a serem evitados, afetando a forma como ela se comporta em relação a cidade, interferindo na escolha de seu local de moradia e engessando, inclusive, a construção de relações de amizade.

No primeiro ano foi um inferno aqui. Porque eu não andava pra lugar nenhum. Eu não conhecia ninguém. E como fazer amizade com as pessoas e conversar e sair se eu não podia sair? Porque as pessoas diziam que eu poderia morrer! Que fulano morreu e foi num assalto. Que outro cara morreu num assalto no sinal porque não passou a corrente. E contaram o caso de um advogado e depois foi o de um professor que morrreram e não sei o quê… O povo só fala disso! (Rosana).

A apropriação do medo faz com que Rosana adote medidas objetivas em função de uma realidade subjetiva, mas que ao serem imaginadas tornam- se profundamente sentidas. E assim, embora não tenha sido ela a testemunhar ações violentas na cidade, as falas do medo são suficientes para que ela passe a elaborar uma rotina preventiva em razão de tentar evitar ser a próxima vítima. Ao objetivar o distanciamento do crime, ela também se afasta de novas formas de interação social.

As falas do medo afetam as pessoas e interferem em suas ações cotidianas. Elas modificam ritmos, limitam a forma como ocupam a cidade e interferem no modo como se relacionam socialmente. As falas do crime agregam aqueles que compartilham experiências sobre o crime na cidade, gerando trocas de saber, possibilitando alertas sobre os perigos escondidos na malha urbana e

causando identificação entre aqueles que tem medo. Entretanto, do mesmo modo que aproxima, distancia; segrega e confere novos significados na vida daqueles que têm como morada o ambiente citadino.

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