Se há como ressalta Foucault, um momento em que as atividades sexuais são interditadas, caladas ou silenciadas, há também um momento seguinte em que elas são incitadas, produzidas e ―interpretadas‖ no interior de uma verdadeira explosão discursiva. Esse momento seguinte representa justamente o surgimento e a produção do que Foucault chama de Scientia Sexualis, ou sexualidade.
Um representante significativo desse período é Sigmund Freud, com quem Foucault estabelece algumas de suas problematizações. A sexualidade, enquanto ciência sexual, não foi propriamente inventada por Sigmund Freud, como evidencia Bejin (1987), mas ele se trata, sem sombra de dúvida, de um dos mais comentados e utilizados para se pensar, mais especificamente, a sexualidade da criança.
No seu conhecido estudo ―As cinco lições da psicanálise‖ Freud (1978) irá desenvolver os argumentos para as causas do que denominou de histeria. Com os olhos voltados para a interdição e a repressão da sexualidade da criança, o psicanalista irá desenvolver a noção de que todos os males psíquicos, neuroses e histerias, poderiam ser explicados por esta repressão sexual. A sexualidade da criança é posta, em diferentes momentos de sua obra, como algo latente à criança, inerente a ela, um algo a priori e que se associa, nos primeiros anos de vida, às suas necessidades vitais.
Em ―Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade‖ (1996) Freud irá destacar no capítulo em torno da Sexualidade Infantil a noção de que a atividade sexual está presente desde a mais tenra idade; neste trabalho Freud
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enfatiza a infância como núcleo constituidor de todos os problemas do homem adulto.
Sexualidade e Infância se convergem em Freud por serem elementos centrais dos conceitos por ele desenvolvidos. Um exemplo destes é que Freud entende que até os oito anos de idade a criança vivencia o que ele chama de amnésia. Em suas palavras, ―[...] a amnésia é o impedimento da consciência e ocorre por conta dos recalcamentos das impressões infantis‖. (FREUD, 1996, p. 3). Esses recalcamentos virarão posteriormente o que Freud chama de ―diques‖ 6,
que nada mais é do que um sentimento de vergonha, e uma subordinação aos ideais estéticos e morais em torno de suas pulsões sexuais. Dito de outra forma, tanto a ―amnésia‖ quanto os ―diques‖ são conceitos desenvolvidos em torno da repressão contra as atividades sexuais das crianças, ou dito de outra forma, são consequências dessas repressões.
Segundo o psicanalista, a educação tem medo do desenvolvimento da sexualidade porque é como se os professores ―[...] soubessem que a atividade sexual torna a criança ineducável, pois perseguem como "vícios" todas as suas manifestações sexuais (...)‖ (FREUD, 1996, p. 3).
Seguindo uma linha evolucionista e etapista do desenvolvimento humano, Freud (1996, p. 7) estabelece para a sexualidade infantil algumas fases de desenvolvimento, e atreladas a elas a ideia de ―sublimação‖. Cada etapa precisa ser ao máximo explorada e exteriorizada pela criança para que seja sublimada, ou dito de outra forma, superada. A primeira fase é o período de lactância. A segunda fase pertence à breve florescência da atividade sexual, por volta do quarto ano de vida, e somente a terceira corresponde ao onanismo da puberdade, e segundo o psicanalista, é o único momento em que deve de fato ser levado em conta no que diz respeito a uma futura vida sexual ―normal‖. Entretanto, desde a segunda fase a criança passa a interiorizar suas vivencias afetivas e sexuais, colocando-as no âmbito do ―inconsciente‖ e manifestando posteriormente se suas vivências foram sadias ou não. Nas palavras de Freud (1996, p. 8):
Em algum momento da infância posterior ao período de amamentação, comumente antes do quarto ano, a pulsão
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sexual dessa zona genital costuma redespertar e novamente durar algum tempo, até ser detida por uma nova supressão, ou prosseguir ininterruptamente. As circunstâncias possíveis são muito variadas e só é viável apreciá-las mediante uma análise mais rigorosa dos casos individuais. Mas todos os detalhes dessa segunda fase de atividade sexual infantil deixam atrás de si as mais profundas marcas (inconscientes) na memória da pessoa, determinam o desenvolvimento de seu caráter, caso ela permaneça sadia, e a sintomatologia de sua neurose, caso venha a adoecer depois da puberdade.
Há para Freud uma ―disposição perversa polimorfa‖ e que leva a criança a ter uma sexualidade perversa. Como exemplo disso Freud destaca as prostitutas. Essa disposição parece receber em Freud (1996, p.9) um caráter biológico, pois o que comenta é que adultos ―perversos‖ podem ter tido a mesma experiência infantil que adultos ―normais‖. No entanto, os perversos tinham certa aptidão para a ausência dos ―diques anímicos‖ (sentimentos provocados por uma ordem moral – asco, vergonha, pudor).
Outra noção desenvolvida também na perspectiva da biologia é a diferença entre o sexo masculino e feminino. Para o psicanalista, a diferença física evidente nos órgãos genitais, vagina e pênis, provocam nos indivíduos, mulheres e homens, reações sintomáticas típicas e que justificam comportamentos e normas sociais. Assim, por exemplo, Freud irá dizer que o menino entende que a menina tem um pênis menor do que o seu, e isso lhe dá um sentimento de poder e de superioridade perante as meninas. Estas, por sua vez, sentem inveja porque não tem o pênis do tamanho do pênis do menino e por isso desenvolvem um sentimento de castração e inveja.
Esta foi uma das preposições mais criticadas de Freud, tanto por Foucault quanto pelos movimentos feministas: Freud naturaliza e essencializa as diferenciações entre homens e mulheres, bem como, associa o que seria uma sexualidade ―perversa‖ às atividades sexuais anais, cujas manifestações são resultado de uma fase específica do desenvolvimento sexual infantil e que deve ser sublimada. Além disso, a tese exposta no Complexo de Édipo solidifica e naturaliza a heterossexualidade na medida em que os meninos sempre ―desejam‖ a mãe e as meninas sempre ―desejam‖ o pai. Em outras
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palavras, com estes preceitos a psicanálise freudiana7 favorece e fortalece a centralidade na família moderna, composta por uma figura masculina ao centro, pela figura feminina subalternizada e pelas crianças, alvos de preocupação e controle8.
Reich (1979, p. 18) segue uma linha de pensamento muito próxima a de Freud, mas associa-se, em partes, com alguns estudos marxistas de sua época. A teoria que ele chama de ―economia sexual‖ incorpora para esta noção de repressão do sexo da criança a noção de classe social, de luta de classes, de relação de dominação (opressor X oprimido), de ideologia, etc. Alguns autores associam o pensamento reichiano a uma teoria ―Freud-marxista‖ (REICH e SCHMIDT, 1975a).
Interessa para Reich (1974, p. 28) compreender ―(...) por que razão os homens suportam desde há séculos a exploração e humilhação moral, em resumo, a escravidão‖ e sua resposta evidencia o ponto de convergência com a teoria freudiana: ―a repressão da vida amorosa infanto-juvenil provou, graças às pesquisas da economia sexual e individual, ser o mecanismo básico da criação de indivíduos submissos e escravos econômicos‖ (REICH, 1979, p. 18).
Sua teoria da ―economia sexual‖ buscava a compreensão da estrutura dinâmica psíquica da ―ideologia‖, em outras palavras, buscava compreender de que modo ―as ideologias‖ se formavam na vida psíquica e desse modo prevaleciam e se mantinham inalteradas socialmente. A moralização do sexo das crianças é um dos aspectos salientados nesse sentido, porque penetra no inconsciente, inibindo a ―sublimação‖ humana, mantendo os indivíduos ―em estado de obediência‖. Em outras palavras, o que Reich acredita é que, primeiro se adestra os instintos naturais (que são os instintos sexuais) e depois, quaisquer outras formas de adestramento serão facilmente aceitas. Diante da repressão, Reich propõe uma ―revolução sexual‖ a partir de um movimento que busca ―as origens da opressão‖ na criança e de um ―movimento antiautoritário (...) que deve saber descobrir-lhes as origens na opressão da
7 Sabemos que existem releituras mais contemporâneas de Freud, pautadas, inclusive, em
vieses Foucaultianos, que rebatem esta crítica feita à psicanálise e à abordagem de Freud. Entretanto, não procuramos nesta tese expandir os estudos em torno da psicanálise, mas somente localizar com quem Foucault estava debatendo no momento em que escreveu História da Sexualidade I.
8 Uma discussão mais detalhada sobre a sexualidade infantil em Freud é feita em MORUZZI,
Andrea B; ABRAMOWICZ, Anete. A produção da ―infância‖: reflexões em torno da sexualidade da criança. V.14, n. 1 e 2. Araraquara: FCL – UNESP, 2010.
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criança e fazer da agressão irracional uma das molas da transformação racional‖. (REICH e SCHMIDT, 1975, p.11).
Reich acredita que a ―revolução sexual‖ trará uma transformação social e para tanto é preciso começar a permitir que as crianças exerçam ao máximo as atividades proeminentes de cada fase de seu desenvolvimento. Reich envolve-se com experiências educacionais, concebidas como ―lugares experimentais‖ para educação das crianças; os ―lares infantis‖ como eram concebidos, tinham duas funções essenciais que eram ―permitir‖ o desenvolvimento integral de cada fase da criança e ―tratar‖ das neuroses e histerias oriundas das repressões sexuais9.