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SMAK OG LUKT

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A declaração do CMI coloca-se como uma fala teológica provisória, considerando a perspectiva histórica das construções teológicas e a possibilidade de, no futuro, termos uma compreensão diferente da atual. Contudo, entende-se que a “deficiência tem sido historica-

mente interpretada como perda, como um exemplo da tragédia que um ser humano pode experimentar”216 sendo que, na contemporaneidade, é imprescindível a superação desta in- terpretação fatalista da deficiência.

Tal qual o paradigma da educação inclusiva, o CMI propõe a categoria diversidade para superar a linguagem da deficiência ou da fraqueza:

A deficiência é realmente algo que, de fato, mostra a fraqueza na vida humana? É esta uma interpretação limitadora e opressiva? Não seria melhor se adotar uma interpretação diferente e mais radical? A deficiência é realmente algo limitador? Enfatizar a deficiência como sendo uma perda é adequado, apesar de ser um estágio de uma jornada assumida pelas próprias pessoas com deficiência? A linguagem da diversidade não seria mais ade- quada? Não seria a deficiência algo que Deus mesmo criou a fim de construir um mundo mais diversificado, plural e rico? Não seria a deficiência um presente de Deus ao invés de uma condição limitadora que algumas pessoas precisam suportar?217

O documento transparece que, nas igrejas, repete-se, justifica-se e, desta forma, se for- talece a discriminação pela limitação218. Coloca-se que as “pessoas com deficiência não conseguem relacionar-se com outras pessoas das Igrejas no mesmo nível, pois são, de algu- ma forma, encaradas como inferiores e não como plenamente humanas”219. A solução en- contrada para superar a discriminação está na introdução da categoria diversidade na fala teológica, pois, em algumas igrejas, as “ações relacionadas a pessoas com deficiência trans- formaram-se de atos de ‘caridade’ em reconhecimento dos seus direitos como seres huma- nos”.220 Neste sentido, aponta-se a cristologia como a porta de entrada para construções teo- lógicas inclusivas - Jesus Cristo respeita e acolhe a todos, sem fazer acepção de pessoas. Cristo acolhe toda a condição humana, inclusive sua vulnerabilidade.

Se Cristo é a verdadeira imagem de Deus, deve-se fazer perguntas radicais sobre a natu- reza do Deus que está sendo projetado. No centro da teologia cristã existe uma crítica

215 Em seguida: CMI.

216 CMI. Uma igreja de todos e para todos: uma declaração teológica provisória, p. 12. 217 Ibidem, p. 13.

218 Como se a limitação não fosse uma condição humana compartilhada.

219 CMI. Uma igreja de todos e para todos: uma declaração teológica provisória, p. 12. 220 Ibidem, p. 13.

ao sucesso, ao poder e à perfeição, e uma dignificação da fraqueza, imperfeição e vul- nerabilidade.221

Assim, as tradicionais interpretações222 da deficiência pela Igreja, tais como: punição de pecados cometidos pela pessoa ou pela família em gerações anteriores; um sinal de falta de fé que impede que Deus opere a cura; uma manifestação demoníaca, sendo necessário o exorcismo para superar a deficiência, etc. devem ser superadas. Tais práticas não dignificam a pessoa humana, mas oprimem e desqualificam a pessoa com deficiência para a convivên- cia social em iguais condições de direito. A declaração, então, defende que:

1) A teologia cristã deve interpretar a imago Dei de um ponto de vista cristológico e sote- riológico (a salvação do mundo por Cristo), que indique para além das costumeiras pers- pectivas criacionistas e antropológicas; 2) a teologia cristã deve assumir uma perspectiva inclusiva e não elitista do corpo de Cristo como paradigma para entender a imago Dei; 3) sem a total incorporação de pessoas que possam contribuir com sua experiência de defici- ência, a igreja carecerá da glória de Deus e não pode pretender estar na imagem de Deus. Sem o insight daquelas pessoas que têm a experiência com deficiência, alguns dos mais profundos e singulares elementos da teologia cristã facilmente se deturpariam ou perderi- am.223

A partir destas premissas, segundo o CMI, a igreja cristã deve criar condições de acesso e permanência da pessoa com deficiência em seu corpo, tais como:

 não utilizar metáforas que sugerem vínculo entre deficiência e pecado - “Metáforas também podem afastar nossos irmãos e irmãs. Usar alegorias, co- mo “cegueira” para referir-se à falta de compaixão, “surdez” para referir-se à falta de vontade de ouvir e “doente mental” ou “paralítico” para referir-se à falta de determinação, é aviltante e desabonador”224 ;

 distinguir teologicamente o processo de cura (healing) e o sarar, a cura em si (cure). “O processo de cura refere-se à eliminação de sistemas opressivos, en- quanto que o sarar está relacionado com a reconstrução fisiológica do corpo.

221 Ibidem, p. 15. 222 Ibidem, p. 12. 223 Ibidem, p. 16. 224 Ibidem, p. 27.

Para alguns teólogos, o ministério de Jesus era um ministério da cura (healing) e não da simples eliminação de doenças (cure)”225;

 considerar a importância da experiência sensorial na transmissão da mensa- gem, sendo que o planejamento do culto e a organização dos espaços da igreja devem considerar a acessibilidade para todas as pessoas. Ou seja,

(...) no culto é crucial considerar as necessidades de acordo com as diferentes categorias de deficiência: boa iluminação, acústica, organização dos assentos, linguagem de sinais e acesso não somente ao prédio da igreja, mas também ao altar. Isso é o que uma Igreja pa- ra todos deve ser: um lugar que acomoda todas as pessoas, aceita os dons e talentos que cada uma traz e recebe a todas independentemente das diferenças que poderiam ameaçar separar-nos.226

Propõe-se a superação do paradigma assistencialista e caritativo, chamando a atenção para “a necessidade de considerar o fato de que pessoas com deficiência são indivíduos com ca- racterísticas específicas e não um grupo homogêneo que precisa de assistência e cuida- do”.227

Evidencia-se, nas proposições deste documento, a introdução da categoria diversida- de quando se pretende falar do ser humano e, conseqüentemente, a necessária construção das condições de acesso e permanência das pessoas com deficiência em nossas igrejas, ou seja, a acessibilidade passou a ser tema importante para as igrejas e para a teologia. E ainda mais, evidencia-se a urgência de ouvirmos o que as pessoas com deficiência têm a dizer sobre Deus e sobre a existência. Ou seja, nos termos da sociologia das ausências, busca-se superar o desperdício das experiências vividas pelas pessoas com deficiência. Evidentemen- te, são avanços significativos no sentido da inclusão das pessoas com deficiência nos espa- ços eclesiais e sociais.

Todavia, parece que, mesmo quando se fala de inclusão, os estigmas impostos às pessoas com deficiência ainda não foram superados, parece que ainda carregamos sua força simbólica - mesmo que de forma subjacente. A declaração do CMI, apesar do seu propósito inclusivo, ainda traz em si as seguintes palavras: “as deficiências não precisam ser vistas

225 Ibidem, p. 18. 226 Ibidem, p. 6.

somente228 como perda ou como resultado de punição por pecados cometidos. Elas devem ser vistas como parte da diversidade humana e pluralidade da criação de Deus”229. Qual é o problema desta colocação? É o “somente”. O “somente” ainda considera que a deficiência pode ser interpretada como perda ou como punição.

Primeiro, quanto à deficiência ser interpretada como perda ou limitação, não há in- conveniente desde que esta condição seja compartilhada com todos os humanos e não con- tribua para a construção de estigmas a partir da deficiência do outro. Afinal a vulnerabilida- de é inerente à condição humana230 e o reconhecimento da mesma pode nos ajudar a superar tabus e estigmas socialmente construídos. As deficiências (físicas, sensoriais, intelectuais, etc.) não podem ser interpretadas como limitações da dignidade das pessoas em questão - pois deficiências e limitações (tal qual as habilidades e potencialidades) fazem parte da con- dição humana.

Segundo, a deficiência ser interpretada como punição é inaceitável, pois isto coloca em cheque a dignidade das pessoas com deficiência e contribui para a construção de estig- mas e objetivações. Somente é punido quem fez, ou faz, algo errado - a punição pressupõe o merecimento da mesma. Trata-se de legitimar a hierarquização das diferenças a partir das deficiências, fortalecendo estigmas sociais impostos às pessoas com deficiência, tais como: fraqueza, fragilidade, incapacidade, inferioridade, etc.

Parece-nos, portanto, que este documento ampliou a perspectiva - incluindo a possi- bilidade de interpretação da deficiência como parte da diversidade humana. Mas não supe- rou a hierarquização, pois ignorou uma das exigências fundamentais do paradigma da inclu- são - a “mudança de atitude face ao Outro (...) O Outro é alguém que é essencial para a nos- sa constituição como pessoa e dessa Alteridade é que subsistimos, e é dela que emana a Jus- tiça, a garantia da vida compartilhada”231 É no encontro com o Outro, com suas diferenças e deficiências que nos reconhecemos mutuamente como pessoas.

227 Ibidem, p. 5. 228 Grifo nosso.

229 CMI. Uma igreja de todos e para todos: uma declaração teológica provisória, p.5. 230 Trabalharemos este tema na seqüência desta dissertação.

Neste sentido, acrescentaríamos que tanto as deficiências quanto as diferenças po- dem ser hierarquizadas. Todavia, a categoria diversidade aponta para a consideração das diferenças no sentido da construção das condições de acessibilidade nos espaços sociais e, não, para objetivar ou criar estigmas em relação aos diferentes modos de ser e viver.

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