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O método de investigação de uma pesquisa depende tanto do objeto estudado quanto dos propósitos do investigador. No caso desta dissertação, as propostas de pesquisa da fenomenologia mostraram-se como a melhor direção, por colocar que a compreensão deve ser buscada na relação, na interação do sujeito com o mundo.

O rigor, na pesquisa fenomenológica, é fruto do trabalho do pesquisador consigo mesmo e com o seu objeto de estudo (Ancona-Lopez, 2002). O rigor do pesquisador fenomenólogo se impõe a cada instante em que interroga o fenômeno e o seu próprio pensar (Bicudo, 1994).

Sua intenção é compreender os significados atribuídos pelos colaboradores ao fenômeno estudado e, para isso, é importante que reconheça a participação da sua própria subjetividade e busque suspendê-la para entrar em contato com o fenômeno.

“Pelo simples fato de que ele (o fenomenólogo) não quer existir somente, mas existir compreendendo o que faz, é-lhe necessário suspender o conjunto de afirmações implicadas nos dados de fato de sua vida. Suspendê-las, porém, não é negá-las, e, menos ainda, negar o vínculo que nos liga ao mundo físico, social e cultural; ao contrário, é vê-lo e ser dele consciente.” (Merleau- Ponty, 1973, p. 22)

Nesta perspectiva, o pesquisar não se faz independente da sua visão de homem e de mundo, de ciência e de verdade, mas ao contrário, esta funciona como alicerce que sustenta a trajetória e lhe dá significado. Por isso, o percurso pessoal, as bases teóricas e as premissas que influenciaram a escolha do tema merecem espaço na confecção do trabalho.

Para Bicudo (1994), o rigor de uma pesquisa fenomenológica está ligado à transparência no momento de descrever a trajetória percorrida pelo pesquisador. Nesse sentido, faz-se necessário indicar o caminho que realizei até então.

Para atingir o objetivo desta dissertação, relembrei as experiências que vivi no decorrer do meu percurso pessoal e da minha trajetória profissional as quais suscitaram o meu interesse pelas relações de ajuda e, principalmente, pelo

aconselhamento psicológico e o aconselhamento espiritual. Esse procedimento auxiliou-me a mergulhar nos questionamentos que deram origem a esta pesquisa e definir, com maior clareza, o meu objetivo ao realizá-la.

Retomei, então, os pressupostos teóricos que fundamentam a prática das duas modalidades de ajuda, debruçando-me sobre os pensamentos de diversos autores. Procurei selecionar aqueles que repousam seus pressupostos e atitudes na concepção de que o ser humano é livre e responsável por suas escolhas. Este critério foi utilizado para ambos os tipos de aconselhamento.

Esta pesquisa bibliográfica deu origem aos dois primeiros capítulos, intitulados “Aconselhamento Psicológico” e “Aconselhamento Espiritual”, respectivamente. O primeiro conta com a presença de casos clínicos, atendidos por mim, relacionados aos conceitos apresentados. No segundo capítulo, utilizei relatos evangélicos. Essa escolha respaldou-se num dos conceitos apresentados no decorrer do próprio capítulo que enfatiza a importância da utilização dos relatos bíblicos pelo conselheiro no encontro de ajuda espiritual, denominado paradigma evangélico. Além disso, este estilo de escrita em que as narrativas sobre a vida de Cristo aparecem atreladas a conceitos centrais do aconselhamento espiritual, é usado com frequência na literatura (ver Chabassus, 1977; Barry e Connolly, 1999; Corti, 2002; Clinebbell, 2007).

Ao finalizar estes dois capítulos, senti a necessidade de conhecer outros trabalhos que, assim como este, contemplam a interface entre o aconselhamento psicológico e o aconselhamento espiritual de modo interdisciplinar. Encontrei trabalhos realizados a partir da teoria analítica de Jung, da psicanálise winnicottiana e da proposta humanista de Carkhuff. Eles são apresentados no terceiro capítulo desta dissertação.

Ao abordar o aconselhamento psicológico e o aconselhamento espiritual, optei por enfatizá-los a partir das experiências vividas por psicólogos-conselheiros e padres-conselheiros, colhendo o relato de suas experiências na relação, isto é, na dimensão do encontro. Para tanto, desenvolvi uma pesquisa empírica, por meio de entrevistas semidirigidas com psicólogos e padres, nas quais procurei favorecer a vivência dos colaboradores na tentativa de compreender como cada um deles realiza o aconselhamento das pessoas que procuram por ajuda. Como aponta Ancona-Lopez (2002), os relatos de experiências, em especial as entrevistas, são um dos principais instrumentos de trabalho do pesquisador fenomenólogo.

Amatuzzi (2001b) ensina que o vivido nem sempre é “sabido” de antemão. Ele pode ser despertado pela relação pessoal entre entrevistador e colaborador, quando surge, para este último, a oportunidade de dizê-lo. O vivido é acessado na relação, ou melhor, surpreendido, na relação, pela própria pessoa que o comunica, por ter encontrado um espaço para fazê-lo. Por isso, o entrevistador busca adotar a posição de facilitador, com o intuito de contribuir para que algo significativo seja dito. Neste sentido,

“A pesquisa fenomenológica não possui sujeitos que fornecem informações, mas colaboradores que pensam juntos o assunto e o fazem com a novidade da primeira vez” (Antunes, 2005, p. 24).

A psicologia fenomenológica não busca a causa dos fenômenos, mas descrever e compreender as vivências como elas se mostram (Ancona-Lopez, 2002). Sua questão é como se dá tal fenômeno e não por que ele acontece (Dartigues, 2002). Visa a aproximar-se do conhecimento experiencial que as pessoas têm do mundo, preservando sua humanidade e riqueza. Parte do pressuposto de que ninguém melhor que o próprio sujeito vivente para entender a sua experiência, a partir de um voltar-se a ela:

“A pesquisa fenomenológica pretende voltar ao vivido, não negando as elaborações que se fazem a partir dele, mas colocando-as provisoriamente entre parênteses, para revê-las depois, à luz daquela fonte primeira. Daí as coisas podem ficar mais claras” (Amatuzzi, 2001a,p. 55).

4.4. OS COLABORADORES

A escolha dos colaboradores de uma pesquisa depende da natureza do conhecimento que se deseja alcançar (Martinez, 1994). Na pesquisa em psicologia fenomenológica, os sujeitos são procurados por apresentarem características que permitam o acesso ao tema em questão. Eles são escolhidos na medida em que o pesquisador reconhece neles aquela experiência que deseja estudar.

Para esta pesquisa, defini os seguintes critérios iniciais para escolher meus colaboradores: serem psicólogos e padres que exercem o aconselhamento psicológico e espiritual, respectivamente, há mais de cinco anos. Este período de tempo visa a garantir que cada um deles tenha prática e conhecimento suficiente para refletir sobre sua atuação. O número de entrevistados foi definido no decorrer

da própria pesquisa, conforme a análise das mesmas apontou, para a sua suficiência no que diz respeito ao objetivo desta pesquisa.

Assim, entrevistei duas psicólogas e dois padres que escolhi dentre o grupo de conselheiros que conheço profissionalmente, selecionado-os a partir dos critérios preestabelecidos, evitando aqueles com quem tenho uma intimidade a fim de evitar pré-concepções minhas a respeito do seu trabalho. As entrevistas expressaram, de forma bastante extensa e completa, o tema buscado em termos de vivências.

As pessoas que participaram deste estudo foram contactadas por telefone ou e-mail e foram esclarecidas a respeito dos objetivos e procedimentos desta pesquisa, além do caráter voluntário de sua participação. Diante da aceitação, foi marcada a data e o local da entrevista, sendo que, no início desta, solicitei o seu consentimento formal, através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo1), que foi lido para os sujeitos, esclarecendo o compromisso de sigilo, garantia de anonimato e disponibilidade para esclarecimento de dúvidas, conforme as recomendações éticas para pesquisas com os seres humanos.

4.5. AS ENTREVISTAS

Realizei entrevistas individuais semidirigidas. A entrevista semidirigida prioriza a vivência dos colaboradores sobre o tema proposto. Ela consiste na apresentação do tema e permite o fluxo livre de ideias por parte do sujeito, dando espaço para a sua expressão (Moreira, 2002). Ela conta, ainda, com a introdução de questões por parte do entrevistador, caso seja necessário.

É preciso que o pesquisador busque compreender o que é dito a partir do objetivo da entrevista, de forma que o colaborador não se afaste por demais da temática em questão. As intervenções do entrevistador dirigem-se, menos ao conteúdo e mais à relação do que esse diz sobre o tema proposto. São feitas observações e assinalamentos ao colaborador durante o encontro, visando sempre a estimulá-lo para expressar melhor a sua experiência. Por isso, a entrevista se constitui, não apenas como um momento de obtenção de informações, mas como uma busca conjunta pela vivência circunscrita através do interesse do pesquisador. É neste sentido que Mahfoud (2003) afirma que a compreensão compartilhada dá abertura para que o sentido se evidencie.

Na busca pela significação pessoal de cada um dos colaboradores sobre sua experiência na área do aconselhamento, comecei a entrevista com uma questão desencadeadora, com o intuito de que a pessoa entrevistada entrasse em contato com suas próprias experiências do aconselhamento psicológico ou espiritual.

A pergunta endereçada às psicólogas entrevistadas foi: “Como é, para você, atender a uma pessoa que busca aconselhamento psicológico? Como se dá esse atendimento? Conte-me a sua experiência.” De forma semelhante, questionei, num primeiro momento, os padres colaboradores da seguinte maneira: “Como é, para você, atender uma pessoa que busca aconselhamento espiritual? Como se dá esse atendimento? Conte-me a sua experiência.” Busquei, por meio dessas perguntas disparadoras, obter a descrição da experiência vivida por eles.

Para dar maior visibilidade ao meu trabalho, apresento, em anexo, uma entrevista completa de uma psicóloga-conselheira (anexo 2) e de um padre- conselheiro (anexo 4).