Chapter 2: Four Reasons for Enlisting
2. Ideological Reason: Connection between Enlistment and the Free Soil Party Ideals
2.1 The Slavery Issue
Sem consagração estatutária, o núcleo fundador do Revolução constituía na prática o Secretariado Distrital de Lisboa. Unido por fortes laços de amizade e por uma intensa sociabilidade, constituindo o grosso da redacção do diário do movimento, o “soviete de Lisboa” (assim se
autointitulavam) dominava grande parte da organização.33
32 Em finais de 1933, Rolão anunciava ter o partido cerca de 50.000 filiados. Alguns meses mais
tarde, o secretário para as relações com o estrangeiro relatava para Roma ter o movimento “um total de 30.000 camaradas”, número já mais moderado. Mas mesmo este número, certa- mente ainda exagerado, era importante para Portugal nos anos trinta do século XX. O partido oficial de Salazar, a União Nacional, teria pela mesma altura pouco menos de 20.000 filiados.
33 Cf. a nota memorialista de Barradas de Oliveira. “Evocação de dois antissalazatistas.
Constituído pelos fundadores do movimento, assegurando a vida do jornal e da sede nacional, estes foram o núcleo mais radical, mais an- tissalazarista e mais autoconvencido da sua condição de representantes em Portugal da “geração fascista” europeia. Foram eles que marcaram o perfil do N/S e foi neles que Rolão se apoiou internamente. Estudan- tes ou “desempregados”, estes possuíam uma disponibilidade e uma dedicação à organização que fazia deles uma espécie de “funcionários dirigentes” do movimento.
A autoridade deste grupo sobre os núcleos da província era difícil, e muitos destes acusavam o “soviete” de radicalismo, desorganização e dirigismo. Esta tensão era moderada pelo próprio Rolão Preto, que recebia regularmente queixas dos Secretariados contra Lisboa. Por outro lado, sobretudo no Norte, antigos conflitos pessoais e políticos entre integra- listas determinaram vários problemas na constituição das delegações.
Um segundo grupo com alguma coerência interna era o de Coim- bra, por razões já conhecidas e que datavam da sua saída da UN e da passagem pela Liga 28 de Maio. Mais moderado e predisposto a um compromisso com o Poder, foi no seio deste grupo que se chegaram a tentar encontrar soluções que passassem pelo afastamento de Preto. Cabral Moncada chegou a ser convidado por Eusébio Tamagnini para assumir funções de chefia mas acabou por recusar.34
Rolão Preto, que tinha relações de camaradagem estreitas com o de Lisboa, era por este acusado de hesitação, e retirava-se várias vezes para a sua casa da Beira, deixando o partido nas mãos do “soviete”, ao mesmo tempo em que tentava colocar-se “acima” das diversas sensi- bilidades.35 No círculo restrito da direcção, Preto tentava controlar,
34 Cf. Luis Cabral Moncada, op. cit.., p. 184-185.
35 No auge da crise provocada pela cisão em finais de 1933, o “soviete” de Lisboa radicalizava
contra os cisionistas pró-Salazar e vários dirigentes deste escreviam a Preto, que estava retido na sua quinta, doente, criticando o seu carácter conciliador. António Tinoco hesitava em apelar a que este “abandonasse esse anarquismo, essa desordem com que resolve e faz tudo” e o secretário-geral adjunto, Pereira de Matos, acusava também o “camarada Chefe” de andar
por vezes sem sucesso, os ímpetos mais “revolucionaristas” do núcleo fundador e manter a coesão do movimento.
As delegações detinham uma larga autonomia e muitas das acções de propaganda não tinham grande coordenação. Apesar disso, a capacidade de iniciativa dos diversos polos foi bastante significativa, excedendo sem dúvida os vários sectores conservadores e o próprio governo. As relações entre a direcção e os organismos distritais e locais eram bem mais flexíveis do que a letra dos estatutos previa, e a correspondência política interna demonstra um certo grau de pluralismo nas atitudes da comunidade militante e da sua capacidade de as expressar internamente. Se algum aspecto se deve salientar como dominante na vida interna do N/S, ele foi o da militância que o caracterizou, sobretudo tomando em consideração os seus recursos financeiros e a conjuntura política em que se desenvolveu.
3.1.12 A Imprensa N/S
Foi através da rede de imprensa do N/S que alguma coordenação foi tentando cimentar a organização a nível nacional. O Revolução, como órgão nacional, constituiu o principal veículo de comunicação interna e de difusão ideológica e política do N/S. A sua vida foi acidentada, quer pela repressão governamental, quer por dificuldades financei- ras, provocando várias vezes a sua interrupção. O jornal nacional encontrava-se ainda apoiado por uma rede relativamente ampla de imprensa regional, ligada aos Secretariados locais. Pelo menos 11 jornais regionais filiados (e um número superior de jornais simpati- zantes) ampliavam o eco do Revolução pela província. Estes jornais chegaram a organizar-se em uma Federação da Imprensa Nacionalista
que controlava um vasto número de publicações locais.36
a fazer “bastantes asneiras que vêm comprometer o entusiasmo necessário neste momento”. Cf. cartas de António Tinoco e Pereira de Matos a Rolão Preto, 2/1/1934 e 30/l2/1933. ARP.
Era através do Revolução que iam sendo dadas instruções aos Se- cretariados, na secção do “Secretariado Geral” e se coordenavam as acções de massas e de propaganda. O jornal continha ainda destacáveis como A Revolução dos Trabalhadores, destinado à classe operária. Com o crescimento dos ataques da censura, que rapidamente paralisaram o jornal, os comunicados do Secretariado Geral passaram a ser enviados por correio interno em “Ordens de Serviço” numeradas.
A imprensa local encontrava-se em uma situação mais confortá- vel, pois tinha maior equilíbrio financeiro e uma ligação mais sólida às elites locais. A grande maioria apresentava-se já ou como órgãos da Liga 28 de Maio ou eram semanários integralistas cuja fundação remontava por vezes ao regime republicano. Mesmo em termos de repressão, a situação era aqui mais benevolente, dada a relativa desco- ordenação dos serviços de censura e o próprio facto de muitos serviços regionais ainda não estarem devidamente disciplinados pelo governo. A antiguidade era neste caso uma vantagem, pois a sua ilegalização
era difícil. Mas, quando os secretariados distritais apresentavam pedidos de autorização para fundar novos jornais, estes perdiam-se nos corredores governamentais e só com a intervenção dos “amigos”, particularmente os militares, é que ela vinha. O órgão do Secretariado Distrital de Faro só conseguiu receber autorização do Ministério do Interior para iniciar a sua publicação sob intervenção do capitão David Neto.37 Neste, como em muitos outros microepisódios da vida do N/S,
o Secretariado Militar ia abrindo portas dificilmente contornáveis. Esta rede de imprensa constituía também um importante apoio logístico, pois, em muitos casos, as sedes locais do movimento aproveitavam as instalações destes jornais ou de delegações do Revolução.
37 Cf. carta de José Domingos Garcia Domingues a Rolão Preto, 22/11/1932, ARP. Os N/S
algarvios queixaram-se também a Marcello Caetano, segunda carta deste a Salazar. Cf. José Freire Antunes (Org.), op. cit., p. 92.