Depois da análise descritiva dos resultados, passamos agora para uma análise mais interpretativa e reflexiva dos resultados da nossa investigação/intervenção.
Deste modo, começamos por referir algumas das semelhanças inerentes ao perfil e às funções das Técnicas enquanto profissionais da área da formação de adultos. Como constatamos anteriormente, as Técnicas evidenciaram características muito semelhantes ao longo das suas intervenções, quer em termos das suas acções, quer na opinião que manifestaram relativamente ao processo e às suas funções. Assim, foi interessante verificar ao longo da nossa intervenção as semelhanças entre os Cursos EFA de nível secundário e o Processo de RVCC. Começamos por salientar, um ponto fundamental verificado em ambas as situações: o facto de as duas realidades se
81 centrarem no adulto enquanto sujeito aprendente e auto-constructor do sua própria aprendizagem, ou seja, o adulto é encarado como actor central da sua aprendizagem. Em ambas as situações, embora com algumas distinções (principalmente porque no Processo de RVCC o adulto tem, ainda, mais autonomia e responsabilidade do que nos Cursos EFA), o formando/adulto responsabiliza-se por si, pelo sua aprendizagem e pelo seu percurso, não se verificando, ao contrário, do que habitualmente constatamos no ensino regular (mais tradicional e formal), uma certa tendência para responsabilizar o professor pelo sucesso/fracasso de cada aluno. No nosso caso específico, isto não se constatou, pois, quer a Mediadora EFA, quer as Técnicas de RVC e de Diagnóstico e Encaminhamento deram total liberdade de escolha e autonomia aos formandos para traçarem os seus próprios caminhos ao longo destes percursos. Mais se refere, que as Técnicas (Mediadora EFA e Técnica de RVC) serviram de apoio e orientação para administrar as situações mais burocráticas dos cursos e do processo e, em momentos de conflitos, colaboraram com os formandos na prevenção e/ou superação de situações conflituosas. A Técnica de Diagnóstico e Encaminhamento, por sua vez, não foi tão interventiva no decorrer do processo, pelo simples facto de a sua acção acontecer apenas no início do mesmo, quando diagnostica no adulto, (através de uma série de instrumentos preenchidos por ele), qual a melhor opção em termos de qualificação formativa.
Outra das características comum a ambas as realidades formativas diz respeito ao à vontade e segurança que as Técnicas sentiam com as suas funções e com o cargo que desempenhavam. Isto justifica-se pelo facto de as três possuírem uma forte experiência no campo da Formação de Adultos, concretamente a Mediadora EFA e a Técnica de RVC na área da Mediação, e a Técnica de Diagnóstico e Encaminhamento na área da Formação. O facto de compreenderem bem estas realidades, conhecerem a sua organização, e possuírem uma vasta bagagem neste domínio facilitou-lhes as suas intervenções e facilitou-nos, a nós, a investigação, pois, estas profissionais conseguiram-nos transmitir mais facilmente o propósito e o objectivo destes cursos, mas principalmente, conseguiram evidenciar mais concretamente quais os seus papeis e funções, auxiliando-nos, assim, na análise dos resultados.
O facto das Técnicas ao longo das suas acções se orientarem pela própria experiência e não por nenhum modelo teórico de referência, mais uma vez, nos comprova que as experiências profissionais anteriores na área da Mediação (principalmente no caso da Mediadora EFA e a Técnica de RVC) lhes possibilitaram uma rica e vasta aquisição de conhecimentos neste campo. No entanto, não podemos deixar de referir, igualmente, a ausência de formação específica que contribuísse para uma intervenção mais fundamentada no campo da mediação.
Deste modo, a Técnica de RVC em particular, teve a oportunidade de experienciar, em práticas profissionais anteriores funções específicas de Mediadora EFA, permitindo-lhe transpor para o processo de RVCC características, funções que em muito se assemelham ao perfil de uma Mediadora EFA. Tal como a Mediadora EFA, também, a Técnica de RVC cingiu o seu trabalho em função do Adulto. Ambas as profissionais, tiveram a tarefa de acompanhar o formando/adulto ao longo de todo o seu percurso: na apresentação dos cursos/processos aos Formandos/adultos; na construção e orientação da autobiografia e consequente construção do Portefólio Reflexivo de aprendizagens. Tiveram, também, a função de apoiar o formando/adulto nas dificuldades sentidas e nas questões mais burocráticas dos cursos (faltas, pagamentos…) tendo o dever de consciencializarem os mesmos para a reflexão crítica dos seus próprios percursos de aprendizagem. Por outro lado, as semelhanças, verificadas entre a Mediadora EFA e a Técnica de Diagnóstico e Encaminhamento, são muito menos evidentes. Embora, a esta Técnica lhe seja atribuído o primeiro contacto com o formando, a sua função é meramente informativa, isto é, a sua tarefa é única exclusivamente dar a conhecer ao adulto o processo, deixando claro, que o seu papel é apenas de diagnosticar e encaminhar o adulto para o percurso formativo mais adequado. Em contrapartida, a Mediadora EFA tem uma função mais específica de apresentação do curso. Ela faz uma apresentação individual com cada formando e de seguida tenta perceber quais as motivações individuais de cada um. Por fim, define as directrizes com formandos e delimita questões mais burocráticas.
Também as duas realidades/processos se ajustaram em termos de referenciais teóricos. Referimo-nos ao facto de ambas as realidades formativas contemplarem nas suas acções o chamado PRA (Portefólio Reflexivo de Aprendizagens). De uma forma um pouco diferente o PRA no processo de RVCC, ministrado pela Técnica de RVC, constitui o ponto fulcral de todo o processo, pois, será em torno dele, em torno da História de Vida do adulto, que este processo decorrerá. Por sua vez, nos Cursos EFA, também, o PRA será contemplado especificamente na intervenção da Mediadora, mas de uma forma não tão evidente. Embora o PRA, nestes cursos tenha um papel muito importante e de destaque, não constitui a base para o restante desenvolvimento do curso.
Assim, as sessões de PRA nos cursos EFA de nível secundário, serviram apenas de orientação e suporte para a conclusão final do curso, ou seja, para a construção de um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens que comprove os conhecimentos e aprendizagens adquiridas em contexto formativo. No Processo de RVC, o PRA serviu para evidenciar, validar e certificar as aprendizagens formais, não formais e informais adquiridas ao longo da vida do adulto.
83 Em suma, encontram-se mais evidentes as similitudes entre a Mediadora EFA e Técnica de RVC, do que propriamente entre a Mediadora EFA e Técnica de Diagnóstico e Encaminhamento. Em primeiro lugar, e como já referimos, pelo facto de a Mediadora EFA e a Técnica de RVC terem tido outras experiências profissionais como Mediadoras. Outro motivo apontado, deve-se ao facto destas duas profissionais desempenharem em realidades formativas distintas, funções e papeis muito próximos. Em terceiro lugar, o facto de ambas actuarem mais ou menos nos mesmos timings e lidarem mais ou menos com mesmo público em termos de características escolares, profissionais e/ou pessoais. Pelo facto de os referenciais teóricos delimitarem, quer num caso quer noutro, funções muito idênticas, mas que no caso da Técnica de RVC não se encontram legalmente designadas como de Mediadora EFA. Comparativamente menos semelhantes encontram-se as funções da Técnica de Diagnóstico e Encaminhamento, que actua apenas no início do percurso formativo não intervindo continuamente no transcorrer do processo. A Técnica constitui-se responsável pelo encaminhamento do adulto e não pela continuidade do adulto no processo.