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In document Fagrapport Massedeponi (sider 166-170)

Após uma breve revisão das principais teorias explicativas do comportamento do consumo privado no ponto 2.1, procura-se no ponto 2.2 proceder à análise dos afastamentos deste em relação à (sua) trajectória óptima (ou tendência de longo-prazo) que aquelas teorias sugerem, isto é, os booms do consumo, procurando destacar as suas causas mais frequentes.

Os booms do consumo têm sido comuns quer nos países industrializados, quer nos países em vias de desenvolvimento, tendo sido apontadas várias explicações para a sua ocorrência. Estas incluem, entre outras explicações, efeitos-riqueza associados a movimentos favoráveis nos termos de troca ou a expectativas eufóricas criadas em relação aos efeitos de reformas de carácter macroeconómico e de valorizações dos mercados financeiros, efeitos ricardianos associados à estabilização fiscal, booms na concessão de

empréstimos originados por processos de liberalização financeira e uma ampla variedade de distorções nos preços relativos intertemporais.

2.2.1 Conceito

Montiel (2000) identifica um boom do consumo como um aumento pouco frequente da rácio das despesas de consumo real privado em relação ao rendimento nacional real. Intuitivamente, um boom deverá caracterizar-se por um desvio grande e sustentado da rácio do consumo privado - PIB em relação ao seu valor “normal” (ou de longo-prazo).

Diz-se que um boom ocorre durante um período caracterizado por uma sequência de desvios positivos da rácio do consumo privado - PIB em relação à sua tendência determinística. Para minimizar a possibilidade de confusão em relação a booms gerados por erros de medição dos dados, sobretudo, no caso de um grande número de países de baixo rendimento, como refere Montiel (2000, p. 459), os booms têm de cumprir três condições adicionais: a sequência de desvios tem de conter pelo menos uma observação maior, em valor absoluto, do que os dois desvios-padrão das séries da rácio consumo – PIB temporário; a sequência de desvios tem de consistir em pelo menos duas observações anuais consecutivas; e a sequência tem de conter pelo menos duas observações consecutivas, para as quais a taxa de crescimento do consumo privado real excede a sua média amostral.

2.2.2 Causas dos booms do consumo

Como salienta Montiel (2000), em princípio, um boom do consumo pode ser o resultado de uma ampla variedade de factores macroeconómicos.

Redistribuição do rendimento

Os booms do consumo podem ser o resultado de uma política de redistribuição significativa do rendimento a favor dos grupos de mais baixo rendimento. Uma vez que estes grupos, frequentemente, apresentam mais restrições de liquidez do que os de rendimentos superiores, essa redistribuição tenderia a transferir o rendimento de grupos sem restrições para grupos com restrições, pelo que, subsequentemente, o consumo agregado aumentaria.

Alterações nos preços relativos intertemporais

Uma segunda categoria de explicações para a ocorrência de booms do consumo coloca ênfase nas alterações dos preços relativos intertemporais. Estas podem ocorrer em três contextos diferentes: no contexto de programas de estabilização baseados na taxa de câmbio, havendo inércia da inflação (neste contexto, como sugere Rodríguez (1982), a taxa de juro real deverá cair durante o boom e aumentar, subsequentemente); no contexto de programas de estabilização baseados em taxas de câmbio “pouco credíveis” (nestas circunstâncias, como defende Dornbusch (1985), a taxa de câmbio real deverá apreciar-se durante o boom, sendo de esperar que se deprecie, subsequentemente); e num contexto em que a taxa de câmbio não se altera, os preços relativos intertemporais podem alterar-se de forma a favorecer o aumento do consumo no presente - hipótese da transitoriedade de Calvo (1989), que sugere que a taxa de juro nominal deverá cair durante o boom, sendo de esperar que aumente subsequentemente.

Cada uma das três hipóteses avançadas centra-se numa variável macroeconómica específica: a taxa de juro real, a taxa de câmbio real, ou a taxa de juro nominal.

Efeitos riqueza

Um boom pode resultar do facto do sector privado aperceber-se de um aumento do seu nível de riqueza e ajustar o seu padrão de consumo. A riqueza privada pode aumentar com um aumento da riqueza nacional, resultante, por exemplo, de uma melhoria (entendida pelos agentes económicos como permanente) dos termos de troca de um país ou de uma alteração do regime político que se espera acelere o crescimento económico. Alternativamente, a riqueza privada pode aumentar devido a uma alteração da política fiscal que os agentes económicos entendem como redutora do valor presente das obrigações/responsabilidades futuras do sector privado.

Expansão do crédito

Os booms do consumo podem ainda ser o resultado de uma rápida expansão do crédito concedido ao sector privado, a qual pode ser consequência de uma variedade de fontes que englobam a diminuição das restrições. Nesta vertente, podem-se distinguir duas modalidades.

Por um lado, os booms podem resultar da diminuição das restrições à concessão de crédito ao consumidor ou à empresa numa etapa imediatamente seguinte a um processo interno de liberalização financeira inadequado. Mais especificamente, a rápida liberalização

de um sistema financeiro anteriormente reprimido, sem a necessária criação de mecanismos apropriados de regulação e supervisão das instituições financeiras, pode criar uma estrutura de incentivos aos gestores de bancos que leve à exposição excessiva ao risco na tomada de decisões de constituição de carteiras de activos. Alguns exemplos encontram-se nos fenómenos de forte expansão dos empréstimos ao consumo ou empréstimos utilizados para adquirir acções ou activos reais. Nestes casos, o crédito desenfreado pode conduzir ao aparecimento de bolhas de especulação nos mercados dos activos reais ou nos mercados de acções. Quer no caso em que os empréstimos ao consumo se expandem desproporcionalmente - logo, aliviando as restrições de liquidez dos consumidores -, quer no caso de ocorrência de bolhas especuladoras sobre os preços dos activos – com a consequente geração de efeitos riqueza sobre a despesa do consumidor -, poder-se-ão gerar

booms no consumo privado.

Por outro lado, a expansão do crédito pode ter origem externa e, deste modo, as restrições de liquidez deixam de se fazer sentir para o país no seu todo. À semelhança do caso de uma expansão do crédito originada internamente, uma grande entrada de capitais - que é, pelo menos, parcialmente, intermediada pelo sistema financeiro doméstico -, pode conduzir à rápida expansão do crédito doméstico e levar ao aparecimento de bolhas especulistas nos preços dos activos.

O factor euforia nos booms do consumo

Como salienta Montiel (2000), a relação entre a riqueza dos agentes e os booms do consumo não é clara.

A teoria sugere que uma melhoria permanente dos termos de troca, por exemplo, deverá aumentar, de forma permanente, a rácio do consumo privado - PIB, em vez de resultar num boom transitório do consumo. Por outro lado, uma melhoria transitória dos termos de troca deverá ter um impacto mínimo sobre a rácio do consumo - PIB.

O mesmo raciocínio aplica-se a outras variáveis que podem aumentar o consumo privado através de efeitos riqueza: embora possam contribuir para uma alteração da rácio consumo - rendimento, não iriam, de um modo geral, produzir as flutuações transitórias do consumo que, frequentemente, se observam em booms do consumo. Uma possível explicação diz respeito ao papel dos bens de consumo duradouro: uma vez que tipicamente se medem as despesas de consumo e não o consumo em si mesmo, um ajustamento no

stock de bens de consumo duradouro em resposta a um aumento da riqueza do sector

Para a grande parte dos booms do consumo, os efeitos riqueza parecem ter desempenhado um importante papel no seu aparecimento, o que consubstancia a ideia de um comportamento de euforia por parte do sector privado.

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