A escolha pela Análise de Conteúdo (AC) se justifica pelo fato de que esse método é capaz de evidenciar, com auxílio da perspectiva estatística, as tendências e padrões de apresentação das notícias.
A AC encara os textos jornalísticos como dados passíveis de interpretação, a partir dos quais são construídas categorias e unidades de análise que correspondem a determinadas características a serem investigadas. No caso desta pesquisa, por exemplo, um dos objetivos específicos foi entender se o noticiário sobre crimes violentos vitimando jovens varia de acordo com a presença de informações pessoais ou socioeconômicas da vítima, relacionando esses vieses a outros, como o destaque recebido pela matéria, o tamanho, a veiculação de fotografias, entre outros.
Nesse sentido, quando confrontados com cada matéria analisada, esses informes acabam se traduzindo em indicadores numéricos, como frequências e porcentagens, e fornecem subsídios gerais para discussões e inferências qualitativas posteriores. Unem-se, assim, os aspectos quantitativo e qualitativo.
Por esse olhar, a pesquisadora Heloiza Herscovitz (2007) destaca que, mesmo diante de um grande volume de dados, a AC reduz a complexidade do corpus a resultados os mais diretos possíveis, a partir das unidades de análise (o que se busca perguntar ao objeto) construídas e descritas pelo pesquisador, de modo que essa explicitação permita que o estudo seja replicável e verificável. É bastante útil, portanto, na comparação entre produtos midiáticos, como se fez com o Correio e com o Jornal da Paraíba.
[A AC] serve também para descrever e classificar produtos, gêneros e formatos jornalísticos, para avaliar características da produção de indivíduos, grupos e organizações, para identificar elementos típicos, exemplos representativos, discrepâncias e para comparar o conteúdo jornalístico de diferentes mídias em diferentes culturas. (HERSCOVITZ, 2007, p. 123)
Bauer (2002) exemplifica algumas conclusões a que Análises de Conteúdo podem chegar. Explica o autor que, se a repetição de palavras, expressões ou temas pode passar despercebida no olhar do leitor comum, o trabalho do pesquisador consegue identificá-las como indícios que se referem a prováveis intenções ou identificações do objeto analisado, como atingir determinado público ou enfatizar certos pontos de vista. “Tais conjeturas podem inferir os valores, atitudes, estereótipos, símbolos e cosmovisões de um texto sobre o qual pouco se sabe” (BAUER, 2002, p. 193). Da mesma forma, no jornalismo, a atenção voltada a
certos assuntos ou a escolha de determinadas abordagens também pode refletir o tipo de interesse – ou valor-notícia – dado aos temas.
Uma boa definição do que vem a ser a Análise de Conteúdo é trazida por Herscovitz (2007).
Método de pesquisa que recolhe e analisa textos, sons, símbolos e imagens impressas, gravadas ou veiculadas em forma eletrônica ou digital encontrados na mídia, a partir de uma amostra aleatória ou não dos objetos estudados, com o objetivo de fazer inferências sobre seus conteúdos e formatos, enquadrando-os em categorias previamente testadas, mutuamente exclusivas e passíveis de replicação. A identificação sistemática de tendências e representações obtém melhores resultados quando emprega, ao mesmo tempo, a análise quantitativa (contagem de frequências do conteúdo manifesto) e a análise qualitativa (avaliação do conteúdo latente a partir do sentido geral dos textos, do contexto onde aparece, dos meios que o veiculam e/ou dos públicos aos quais se destina). (HERSCOVITZ, 2007, p. 126-127)
A definição da autora reúne uma série de visões acerca do método, que já vem sendo aplicado há bastante tempo. Embora remeta oficialmente ao início do século XX, a história da Análise de Conteúdo tem suas raízes no século XVII. Conforme observa a pesquisadora francesa Laurence Bardin (2009), há registros, nesse período, de casos isolados que parecem ter sido ACs prematuras. Em 1640, por exemplo, a investigação acerca de 90 hinos religiosos, na Suécia, debruçou-se sobre variáveis como temas, valores, modalidades de aparição (favorável ou não) e complexidade estilística. De igual forma, lembra Bardin, entre 1888 e 1892, o francês B. Bourbon trabalhou o livro bíblico Êxodo e, entre 1908 e 1918, estudou-se sociologicamente a integração de emigrantes polacos na Europa e na América.
Somente nos primeiros 40 anos do século XX, porém, a Análise de Conteúdo se desenvolveu, nos Estados Unidos. A disseminação do método se deu a partir da Escola de Jornalismo de Columbia, investigando temas como grau de sensacionalismo das publicações jornalísticas. Com a Primeira Guerra Mundial, o estudo da propaganda passou a ser uma das temáticas centrais nas pesquisas com AC, o que veio a se intensificar com a eclosão da Segunda Grande Guerra. A figura de Harold Lasswell – um dos fundadores dos estudos midiáticos nos Estados Unidos – aparece associada à origem da AC aplicada à comunicação. Segundo lembra Herscovitz (2007), Lasswell a via como um método capaz de descrever, com precisão, o que era dito sobre um determinado tema, em um dado espaço.
Dada a influência positivista e o alcance do behaviorismo28 nas ciências psicológicas àquela altura, a Análise de Conteúdo, em seus primeiros momentos, esteve muito ligada à
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Conforme descreve Bardin (2009), o behaviorismo “rejeita a introspecção intuitiva em benefício da psicologia comportamental objetiva. Trata-se de descrever o comportamento enquanto resposta a um estímulo, com um máximo de rigor e cientificidade” (p. 17).
ideia de cientificidade, rigor e comprovação dos dados apresentados. Na prática, isso se fez muito visível com a aplicação do método nas ciências políticas. Segundo observa Bardin (2009), nos anos de 1940, 25% dos estudos empíricos que utilizavam a AC, nos Estados Unidos, pertenciam a essa área. A preocupação era, sobretudo, de identificar, com uma garantia que se prometia científica, jornais e demais periódicos suspeitos de propaganda subversiva/nazista.
Oscilando momentos de confiança e descrédito, por sua preocupação estatística, o método ganhou novos contornos com o interesse de pesquisadores de áreas variadas, durante as décadas posteriores. Não mais a simples descrição de resultados passou a ser o objetivo da AC, pois a inferência qualitativa ganhou espaço. Um aliado nessa expansão foi a tecnologia, já que a invenção e popularização de computadores, ao final na década de 60, permitiu a contabilidade de dados antes inimagináveis, se feitos manualmente.
O fato é que, conforme destaca Herscovitz (2007), o enfoque quali/quanti segue garantindo à AC o contínuo interesse de pesquisadores ao longo dos anos, por trabalhar com os conteúdos manifestos (visíveis através das porcentagens) e os latentes (ocultos ou subentendidos). Viabiliza-se, portanto, que “se compreenda não somente o significado aparente de um texto, mas também o significado implícito, o contexto onde ele ocorre, o meio de comunicação que o produz e o público ao qual ele é dirigido” (HERSCOVITZ, 2007, p. 126).
Foi essa a intenção abraçada por este trabalho. Os dados estatísticos obtidos a partir dos estudos do Correio da Paraíba e do Jornal da Paraíba foram apenas o primeiro passo da investigação. À identificação das tendências de apresentação das notícias sobre jovens vítimas de crimes violentos, seguiu-se uma segunda fase, em que se discutem as significações dos fenômenos postos em destaque pela verificação de frequências, nos dois periódicos.