A via objetiva da teoria do conhecimento é elaborada por Rickert em ZWE (1909) e introduzida na terceira edição de GE (1915). Como se mostrará, essa via se constitui como uma resposta de Rickert à teoria da significação (Bedeutung) defendida por Husserl nas
Investigações Lógica.
Para dar início à segunda via da teoria do conhecimento, Rickert procura um ponto de partida que não seja o ato de pensar (Erkenntnisakt), pois este é o ponto de partida da primeira via. Isso significa excluir tanto os processos psíquicos reais, quanto o sentido imanente, analisados na via subjetiva. Mas como seria possível buscar o objeto do conhecimento desconsiderando-se o ato cognitivo? Se, conforme foi possível verificar, o conhecimento sempre se constitui como um ato judicativo, como seria possível deixá-lo de lado na busca do objeto do conhecimento? Segundo Rickert isso é possível através da análise de proposições. Preliminarmente Rickert define proposição (Satz) como a significação (Bedeutung) ou o sentido (Sinn) que é apreendido através do ato cognitivo, mas que independe desse ato. Mesmo sendo a proposição normalmente apreendida através de um ato de pensar, quando, por exemplo, lemos ou ouvimos uma frase, a verdade em si da proposição independeria do ato de
222
ZWE, 1909, p. 192: “Kurz, es mag richtig sein, dass der Gegenstand der Erkenntnis ein transscendentes Sollen und dass seine Erkenntnis ein Akt der Anerkennung ist, aber weder die Transscendenz noch das Sollen noch die Anerkennung haben wir aus der Analyse des Erkenntnisaktes bewiesen, sondern es sind höchstens schon vorher feststehende Begriffe erläutert und auf ein konkretes Material angewendet worden, das dadurch einen bestimmten logischen Sinn erhielt”.
compreender ou pensar.224 Assim, Rickert assume a proposição como o ponto de partida da via
objetiva na busca do objeto do conhecimento.
Visando garantir a legitimidade desse ponto de partida, Rickert procura demonstrar a independência da proposição em relação ao ato cognitivo. Para tanto ele compara o ato perceptivo de ver uma folha de papel branca e o ato compreensivo de compreender uma proposição. No ato de perceber a cor branca de um papel é preciso distinguir o processo psíquico de perceber, que não é banco, da cor branca percebida. Do mesmo modo, na compreensão de uma proposição é preciso distinguir o ato psíquico de compreender, que não é verdadeiro nem falso, da verdade da proposição compreendida. Apesar de percepção e compreensão serem atos distintos, com especificidades próprias, do ponto de vista da significação (Bedeutung) haveria uma correspondência entre cor e verdade, por oposição aos processos psíquicos perceptivos e compreensivos.225 A “cor branca” e a “verdade da
proposição” seriam significações que manteriam a identidade de seu sentido independente de serem ou não apreendidas por algum ato de percepção ou de compreensão.226
Como se pode observar trata-se de um claro diálogo de Rickert com as Investigações
Lógicas, inclusive com a repetição de alguns exemplos analisados por Husserl,227 o que parece
sugerir que a análise de proposições proposta por Rickert levaria à mesma concepção de significação defendida por Husserl nas Investigações Lógicas. Essa impressão é reforçada ainda pelo exemplo da “lei da gravidade” que Rickert toma de Husserl em oposição a Sigwart.228 Tal como Husserl, Rickert concorda que não é possível, como pretende Sigwart,
reduzir a proposição ao ato psíquico, pois a verdade implicada na formulação proposicional da lei da gravitação não se confunde nem depende do ato psíquico particular de Newton que pela primeira a compreendeu, tanto é assim que muitos outros indivíduos, depois da morte de Newton, puderam e ainda podem compreender a mesma verdade através de seus processos psíquicos particulares.229
224 ZWE, 1909, p. 194. 225
ZWE, 1909, p. 194-195; GE, 1921, p. 223.
226
ZWE, 1909, p. 195: “Darum kann man die Wahrheit ebenso wie die Farbe für sich betrachten, ohne Rücksicht auf den Akt des Verstehens oder des Wahrnehmens.”
227 Proleg, 1900, § 51; LU VI, 1901, § 40. 228
ZWE, 1909, p. 196.
229 Em realidade o exemplo é de Sigwart, tendo sido analisado por Husserl e posteriormente originado a
polêmica Sigwart-Husserl sobre o psicologismo. Tomando como exemplo o fato natural do movimento dos planetas, Sigwart procura mostrar que a verdade da lei da gravidade só pôde ser estabelecida com a elaboração de juízos sobre os planetas, pois apenas juízos, ao afirmarem ou negarem algo sobre o mundo, podem ser verdadeiros ou falsos e para haver juízos é necessária a existência de sujeitos inteligentes capazes de julgar, logo, uma lei só pode ser verdadeira depois de elaborada pelo ato judicativo de alguém. (SIGWART, Christoph, Logik I, Tübingen: H. Laupp'schen, 1873, p. 175-179). Em Proleg, 1900, § 39
Ao se aproximar da concepção de significação de Husserl, aparentemente Rickert estaria expandindo a sua noção de proposição para além do juízo. Uma proposição seria o sentido aprendido não somente em atos judicativos, mas em qualquer tipo de ato de pensar, dentre os quais se incluiriam atos perceptivos, por exemplo, a percepção de uma cor. Com isso, a relação (de independência) que Rickert estabelece entre o ato de pensar e a proposição corresponderia à relação estabelecida por Husserl entre ato intencional e a significação, compreendida como espécie ideal (Spezie). A noção de ato de pensar no qual se apreende a proposição seria tão ampla quanto à noção de Husserl de ato intencional no qual a significação (Spezie) se instancia. Portanto, isso que Rickert chama de “proposição” seria similar à “significação” de Husserl, ou seja, um sentido ideal e autônomo que seria apreendido, não só em atos compreensivos e judicativos, mas também em atos perceptivos. Rickert estaria se caminhando para a identificação de seu objeto do conhecimento com algo próximo da concepção de significação de Husserl.
Porém, essa aproximação com a teoria da significação de Husserl é apenas aparente. Apesar da inegável influência, ao mergulhar na análise das Investigações Lógicas, o que faz Rickert é demarcar e elaborar cada vez mais a posição de sua filosofia dos valores em relação à fenomenologia. Mas para que se possa enxergar isso em todas as suas nuances é preciso antes introduzir alguns elementos da concepção de Husserl de significação, de ato intencional, de evidência e de conhecimento, elaborados na primeira edição das Investigações Lógicas.