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Levando-se em consideração o posicionamento de Piaget, a aprendizagem seria um saber realizar-se a partir do momento em que o conhecimento é, ao mesmo tempo, considerado como a busca pela compreensão e pelas relações necessárias. Há que se indagar, pois, sobre a formação desses sujeitos historicamente determinados. Como realizar um espaço de interlocução entre sujeito e mundo?

Segundo Demo (2002), tem-se como pano de fundo sustentando a capacidade do pensar a idéia compreensiva em torno do que se enuncia. Nessa perspectiva, compreender é uma questão de lógica e se constitui na capacidade de se deduzir uma coisa de outra, de tal forma que cada componente se encontre em seu lugar e, ao mesmo tempo, seja capaz de se relacionar com outro. Entretanto, o aporte dessa lógica é refinado pelas buscas do que é pretendido em seu ocultamento; ou seja, quando não se consegue estabelecer um nexo entre, por exemplo, um problema e um foco temático para movê-lo é porque algo está impedindo a imersão total do sujeito no objeto de busca. O obstáculo impediria a formulação adequada de uma pergunta, gerando perguntas divergentes que conduzem a erros em suas formulações e, portanto, dificuldades em resolvê-las.

3.1.1 Identificando o problema

Inicialmente, há que se indagar sobre o significado do termo “pesquisa”. Segundo definição de Demo (2002: 93), trata-se de um “questionamento reconstrutivo”, no sentido de uma atitude crítica frente à realidade, desconstrutiva e analítica, voltada para o seu desvendamento e contribuindo para a ampliação do conhecimento.

Assim, toda pesquisa implicaria sempre em uma atividade sistemática, em um exercício acurado de produção de argumentação, que pode ser subdividido em: teórica, quando a proposta consiste em desvendar conceitos sob quadro referencial de autores, ou, aborda questões polêmicas acadêmicas; metodológica, envolvendo discussões sobre métodos e procedimentos; empírica, quando apóia-se sobre o levantamento dos dados e fatos visando formular proposições hipotéticas; e prática, quando existe um compromisso político de se usar a ciência como dispositivo de intervenção sobre a realidade, como é o caso da pesquisa participante.

Como propõe Demo (op. cit.), haverá ainda que se distinguir a pesquisa como principio científico e, como princípio educativo. Segundo o autor, como propedêutica básica, a educativa se propõe a ser uma investigação que busca estratégias reconstrutivas de aprendizagem e de gestão da autonomia do sujeito. Observa-se, contudo, que as instituições de ensino superior são, freqüentemente carentes de uma cultura científica investigativa, diferenciada por causas estruturais e de fatores pedagógicos. De fato, na maioria dos casos, os alunos continuam sendo sujeitos atores de cenários reprodutivos de uma sociedade instrumentalizada na ação, e não no pensar o porquê dessas ações. Pode-se inferir que influencia este panorama, a aplicação de modelos reducionistas da investigação científica, treinando-se o aluno a reproduzir padrões culturais que não mais pertencem ao repertório histórico-cultural do momento.

3.1.2 Enunciando o problema

Trevisan (2002) chama a atenção para o fato de que a crise frente a modelos de formação cultural exigiria uma nova dimensão educacional. Tratar-se-ia de uma recuperação da dimensão semântica, manifestada em diversas representações incluídas na formação, o que permitiria uma busca mais precisa em torno do que se consideraria um universo adequado de significação. O autor afirma que o professor deveria se preocupar mais com a formação cultural, auxiliando seus alunos a ler o mundo com palavras (Trevisan), confirmando

posicionamento de Tassara e Fazenda, para assim tornar-se capaz de interpretá-lo, destacando que, com a formação que lhes é dada, “não se consegue atingir, em muitos casos nem mesmo o domínio conceitual” (Trevisan 2002.: 75).

Sabe-se que o núcleo central de um processo de investigação consiste na formulação de um problema sobre o qual se quer desenvolver compreensão, a condição sine qua non para fundamentar a construção de um método de ensino ao mesmo.

Assim, no que se refere à conceituação de problema de pesquisa, é possível encontrar na literatura diversos posicionamentos, gerando incertezas sobre seu significado profundo. Conforme Garcia (2004: 34), uma das definições de problema é a de que consiste em “situação que constitui o ponto de partida de qualquer indagação, isto é, a situação indeterminada”, na medida em que não há garantias de que respostas dadas podem vir a constituir-se em soluções para o problema.

Outra conceituação refere-se à dificuldade especulativa, mas que pode ser também prática (Lalande, 1968). O autor centraliza-se no momento em que se desencadeia a interrogação, portanto, no processo de construção ativa discursiva do problema pelo sujeito, fundamentando a possibilidade de busca, na prática, de possíveis soluções ao problema.

Há também a definição de Polya (apud, Garcia, 2004:35), que afirma que a busca de soluções que se pretende para o problema, consiste no mapeamento sobre o seu significado conceitual, enfatizando sua resolução (no caso matemático) com base em processos cognitivos que culminam com a descoberta de uma alternativa para uma dificuldade. As possibilidades de alternativas não seriam, para Polya, desencadeadas de forma clara e imediata, destacando que, no processo de resolução de um problema, seria necessário formular três indagações: por onde começar? como posso fazer? qual a vantagem para assim proceder? ou seja, aponta-se para uma incógnita e se apresenta assim condições e possibilidades para solucionar o problema. Em outras palavras, olhar para uma finalidade, vindo a oferecer passos para essa elaboração, no que tange à compreensão do problema. Seriam eles:

a) Questionamento sobre o desconhecido e quais informações sobre o qual estão disponíveis, devendo-se partir do interesse do sujeito;

b) Delimitação do problema, será preciso estabelecer um plano através do qual se busca um método que pareça adequado para resolvê-lo; neste patamar, o sujeito deverá questionar- se sobre os conhecimentos que possui em relação a outras situações correlatas, ao mesmo

tempo em que se discute possibilidades de implementar inovações, ou, reutilizar planos anteriormente apresentados;

c) Colocação de plano em ação, verificando cada passo a ser dado; d) Avaliação entre o que foi proposto e o que efetivamente se conseguiu; e) Reflexão do sujeito sobre a aplicabilidade do método e do problema.