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Somos humanos, não temos dúvida disso, mas a necessidade de estarmos sempre buscando entender como exercitarmos nossas atividades humanas parece florescer tanto no campo das ciências humanas quanto das biológicas e das ciências sociais, talvez pela complexidade que esses questionamentos suscitam.

Segundo Morin (2007, p. 32), “a hominização é uma aventura começada, ao que atualmente parece, há sete milhões de anos. Ela é descontínua pela aparição de novas espécies – habilis, erectus, neandertal, sapiens”. A hominização é descontínua na sua dialógica entre o desenvolvimento e os processos ao longo dos quais aparece a linguagem propriamente humana.

Nesse sentido, a linguagem passa a ter fundamental importância para se estabelecerem relações da cultura com a sociedade humana, o que permite aprender e conhecer fora de seus imperativos e de suas normas (MORIN, 2007). De acordo com Morin (2007, p. 36), “a cultura é o que permite aprender e conhecer, mas também o que impede de aprender e de conhecer fora de seus imperativos e das suas normas”.

Reforçando os argumentos acima, Maturana e Yáñez (2009, p. 73) confirmam que “somente nós, seres humanos, como seres que existimos no linguajear, podemos fazer a nós mesmo perguntas que se respondem com explicações que, como fluxos de linguajear, ocorrem na realização de nosso viver humano [...]”. Portanto, a linguagem se entrelaça com o biológico, o cultural e o social. “A linguagem é uma parte da totalidade humana” (MORIN, 2007, p. 37).

Ao articularmos a linguagem ao nosso viver cotidiano, vamos percebendo que nosso fazer/conviver dá-se pelo uso da linguagem, o que permite emergir o espírito humano, inerente a toda organização social e necessário a todas as operações cognitivas e práticas do Ser.

Como fazemos, por que fazemos e quando fazemos são questões intrínsecas à nossa dinâmica cultural na contínua geração de mundos dos quais fazemos parte. Conforme Maturana e Yaňez (2009, p. 19), “nós seres humanos existimos assim num

presente cambiante contínuo em que passado e futuro são modos de viver o contínuo presente cambiante que se vive”. No entanto, cada povo tem sua história, sua língua e suas especificidades. Morin (2007, p.59) acrescenta que “todos os seres humanos têm em comum os traços que fazem a humanidade da humanidade: uma individualidade e uma inteligência de novo tipo [...]”.

Assim, nosso viver e conviver se dá com o outro, somos seres individuais e coletivos ao mesmo tempo. Os espaços das crenças, das ideias, dos saberes e dos mitos são lugares de pertencimento. Esses lugares comuns de convivência são espaços culturais.

Segundo Mariotti (2000, p. 27), “precisamos do outro desde que nascemos: é ele quem confirma a nossa existência e a recíproca é verdadeira [...]”. Contudo, como se dá essa interação? Maturana e Yáñez (2009, p. 75) explicam que “o sistema nervoso não interage com o meio; o organismo, sim”. A dinâmica de interações dos organismos com o meio tem como resultado mudanças estruturais entre sistema nervoso, organismo e meio para a conservação do modo de viver do organismo. Maturana e Yáñez (2009, p. 77) consideram que,

[...] assim como em todos os animais, nosso viver relacional surge em cada instante como um fluir de correlações senso\efetoras determinado por nossa corporalidade nesse instante e pelo modo como nos movemos no mundo que surge em cada instante na realização de nosso viver em coordenações de coordenações condutuais consensuais.

Nessa perspectiva, a corporalidade é determinante para o fluir do viver relacional por meio da linguagem e da cultura.

Morin (2007, p. 35) entende que “o aparecimento da cultura opera mudança de órbita na evolução. [...] são as culturas que se tornam evolutivas, por inovações, absorção do aprendido, reorganizações; [...]”. No seio das culturas e das sociedades, os indivíduos evoluirão mental, psicológica e afetivamente. Essa evolução da cultura com e por meio da linguagem fará emergir, do cérebro humano, o espírito.

Porém, quando esse Ser percebe-se humano, diferente de outros animais? O questionamento ajuda a refletir sobre a matriz biológico-cultural da existência humana

(MATURANA, 2009). A teoria evolucionista nos fala de uma origem evolutiva da linhagem de primatas bípedes. Para Maturana e Yañez (2009, p. 115),

O humano se originou com o viver Homo sapiens-amans amans na conservação do linguajear e do conversar como um conviver em mundos consensuais [...] ao propor a denominação Homo sapiens

amans amans para nos referirmos a nossa linhagem, queremos indicar

que pensamos que o humano surgiu e pôde surgir somente com uma linhagem cultural na intimidade da conservação transgeneracional sistêmica de um conviver em mundos consensuais [...].

Nesse sentido, o espaço em que as interações se dão, nesse viver e conviver, são essenciais para compreendermos nosso devir evolutivo. Isso se dá a partir das experiências que vivenciamos nas redes de relações que construímos durante nosso existir, ao abrirmos caminhos para refletirmos sobre nossas atividades humanas e ao mesmo tempo para tomarmos consciência de nosso viver biológico-cultural.

A consciência de nosso viver biológico-cultural permite-nos indagar sobre a justaposição da trindade humana indivíduo\sociedade\espécie, estabelecendo as conexões em que esses termos dialogam e são complementares. Conforme Morin (2007, p. 52), “as interações entre indivíduos produzem a sociedade e esta retroagindo sobre a cultura e sobre os indivíduos, torna-os propriamente humanos”.

Ao refletirmos sobre nossas atividades humanas, vamos percebendo nossas finalidades individuais que se desenvolveram ao longo da história: felicidade, amor, bem-estar, ação, conhecimento, entre outras. A consciência alerta para o mundo em que vivemos e nos aponta o caminho a seguir.

Essa decisão de reconhecimento do outro e de si, no outro, é um dialogo existencial que expressa a construção de um mundo comum, um mundo humano. (FREIRE, 1997). Partindo desse entendimento, é chegado o momento de pensarmos uma educação que verdadeiramente se comprometa na formação do ser.