• No results found

Semesteremne i edb for humanister

In document Humanistiske data nr 2 1983 (sider 61-75)

Fonte: Sérgio Queiroz – Arquivo Fase Programa Amazônia NDL (Gurupá).

Para atender a grande concentração de homens foram abertas casas de jogo e um bordel.

Se os seringueiros estavam impossibilitados de se organizarem de maneira independente, as disputas entre os seringalistas eram corriqueiras. Na medida que estes conseguiam um maior crédito nas casas aviadoras procuravam ampliar “seu território” em detrimento daquele dos vizinhos. Segundo Oliveira (1991, p. 66): “[...] houve nos locais de extração uma acentuada concorrência entre os seringalistas”. Como exemplo é citado aquele do coronel José Júlio que, na primeira metade do século XX, dominou econômica e politicamente170 a região compreendida entre os

municípios de Almeirim, Porto de Moz, Praiha e Gurupá. O mesmo autor (Oliveira, 1991, p. 66) apresentou como este domínio foi sedo consolidado: “Utilizando-se de métodos de aliciamento e reprimindo aqueles que se colocaram contra a expansão de suas posses, o coronel José Júlio, foi aniquilando economicamente, como também fisicamente, os seus concorrentes seringalistas, até a consolidação de seu poder econômico na área”. Datam deste período os contatos entre a região da ilhas de Gurupá com o Jari que será retomada posteriormente quando Ludwing comprará estas terras para implantar seu projeto.

170 José Júlio chegou a representar o Pará no Senado. Ele é considerado o responsável pela apropriação indevida (grilagem) de mais de um milhão de hectares das terras da Jari que, na segunda metade do século XX, foram adquiridas pelo americano Daniel Ludwing.

Com a perda da primazia brasileira na produção do “ouro negro”171 devido à

sua incapacidade de concorrer com as plantações asiáticas, a cidade, como do resto toda a região amazônica, entrou em colapso e conheceu um processo abrupto de empobrecimento que fez desmoronar toda a estrutura econômica baseada no aviamento comercial levando à miséria milhares de famílias. Durante quarenta anos assistiu-se à estagnação econômica e ao declínio populacional da região. Muitos comércios fecharam, os que tinham conseguido acumular e conservar uma certa riqueza, saíram do município, muitas famílias chegaram a voltar aos seus locais de origem, sobretudo no nordeste brasileiro, despovoando a região, os demais passaram a sobreviver da pequena lavoura (arroz, milho, feijão) e da criação de pequenos animais. Parte do capital acumulado serviu para ampliar a exploração de outros produtos da floresta como a extração de sementes oleaginosas ucuuba e andiroba e a retirada de madeira que era lavrada a machado e vendida sob a forma de dormentes.

A nova fase econômica, que apresenta índices econômico bem inferiores àqueles alcançados no período anterior, enfraqueceu o poder dos "patrões" permitindo a entrada dos "regatões", comerciantes que negociavam diretamente com os trabalhadores e que tinham suas bases comerciais em Macapá, Breves Santarém e Belém. Com uma circulação muito reduzida de moeda, estabeleceu-se a troca direta entre os produtores da terra firme (que produziam farinha de mandioca) e os ribeirinhos (peixe e arroz).

O fim deste ciclo que a elite amazônica não soube prever iludindo-se que seu bem-estar seria duradouro, jogou no isolamento e recessão toda a região. Wagley (1957, p. 82-83) relata esta situação:

Depois de 1912, desmoronou-se toda a estrutura econômica da Amazônia, e desapareceram o otimismo e a ostentação dos anos de prosperidade. A maioria das casas comerciais de Belém e Manaus arruinaram-se com o colapso financeiro de 1912 e uma série sucessiva de desastres econômicos conseqüentes atingiu os comerciantes rurais e seus seringueiros. Todo o

171 Santos (1980, p. 235-236) apresenta duas tabelas ilustrativas desta competição travada entre a exploração “desordenada” da Amazônia e aquela realizada através do plantio racional. Na primeira tabela mostra como apesar da Amazônia ter uma área explorada muito maior que a asiática (12.405.000 ha, contra 1.017.000), tinha uma densidade de pés por hectare muito inferior (1,5 x 200) e um custo de produção muito superior (7,50 fracos por quilos contra 3,48). A produção asiática que era de tão somente 3 toneladas em 1900 (contra as 26.750 da Amazônica), subiu para 3.685 em 1909 e 381.860 dez anos depois. Em compensação no mesmo ano a produção amazônica foi de 34.285 toneladas. Em números relativos se a Ásia detinha, em 1900, só 0,0055% da produção mundial, em 1919 passou a ter 90,1687%. Enquanto isso a Amazônia, que durante décadas teve mais da metade da produção, em 1919 só ostentava um mísero de 8,0957%.

sistema comercial, super-desenvolvido e totalmente dependente de concessões de créditos, era extremamente vulnerável.

Esta situação de dificuldades gerais comuns a toda a região172 repercutiram

negativamente também na vida das cidades menores do interior, entre elas Gurupá como mostra Wagley (1957, p. 83-84):

Os anos de 1912 a 1942 foram anos de amargura para Itá, como para grande parte do Vale Amazônico. A administração política que lá se estabeleceu logo depois do colapso da borracha vendeu todo o material de construção que havia sido acumulado para a construção da prefeitura. Até mesmo parte da estrutura concluída foi demolida para ser vendida e transformada em dinheiro. Numerosas famílias mudaram-se da vila logo depois de 1912. Os comerciantes fecharam suas lojas e deixaram a cidade, falidos ou desanimados. A população rural abandonou a extração da borracha e voltou a pequena agricultura [...]. O sistema de iluminação à gás que iluminara as ruas durante os anos áureos foi deixado ao abandono. As casas e os edifícios públicos ficaram vazios e logo começaram a desmoronar, por falta de proteção contra o incansável trabalho dos cupins.

Gurupá, entre 1912 e 1942, conheceu anos de amargura, abandono e escuridão173. Sua população diminuiu para trezentas pessoas em 1920, isto é, permaneceu menos de 10% da população anterior.

Um ano depois as exportações regionais de castanha do Pará (Bertholletia

excelsa H.B.K.) superaram o valor da borracha (ROYER, 2003, p. 107). Localmente

o cacau (Theobroma cacao L.), frutas, alguns bois e as sementes oleaginosas

(andiroba e ucuuba), são as únicas receitas. Os navios, que antes atracavam quase todos os dias, passavam agora ao largo, sem parar. O prédio da prefeitura ficou inacabado, os degraus de mármore utilizados em outras obras, mais um sinal destes anos difíceis.

Para sublinhar a situação de total abandono na qual se encontrava a cidade depois de décadas de opulência, João da Selva (apud WAGLEY, 1957, p. 85) escreveu, em 1929, que passeando pelas ruas da cidade viu num canto de uma casa em ruínas uma harpa com algumas cordas e um resto de um piano de cauda roído pelo cupim. Na rua terceira estavam os destroços de: “[...] um coche fúnebre de primeira classe, tão bom quanto os da Santa Casa de Belém, que algum prefeito havia adquirido, compadecido com os pobres defuntos que eram levados para o cemitério em padiolas ou em redes”. O coche tinha sido abandonado, pois não

172 Sinal destes tempos difíceis foi o fechamento do Teatro Amazonas de Manaus e do Teatro da Paz de Belém, esplendidas testemunhas dos tempos de ouro, onde se tinham apresentado alguns dos mais importantes e famosos artistas europeus.

173 A palavra “escuridão”, aqui usada em sentido figurado, era, infelizmente, verdade também no sentido literal do termo: a iluminação a gás utilizada durante os anos áureos da extração da borracha, tinha sido desativada.

passava mais pela senda que levava ao cemitério que há anos não era mais limpa dos galhos das árvores.

Loureiro (1992, p. 41) apresenta um balanço negativo de todo este ciclo:

Obtendo lucro na esfera da comercialização, o capital comercial não se interessava em modernizar e inovar os processos de produção das atividades econômicas da área (como o faz a indústria). Seu lucro estava garantido pela comercialização de um produto que os outros fizeram, não interessava como. Este é ainda hoje o mecanismo de sustentação e controle da produção de castanha, borracha e outros produtos da região.

Para a mesma autora (LOUREIRO, 1992, p. 35-36) as mazelas sociais deste sistema são evidentes:

O sistema extrativo produziu uma estrutura social fundada na super- exploração dos trabalhadores diretos, na pequena diversificação da estrutura produtiva urbana e rural e portava os traços fundamentais de um sistema social altamente concentrador e conservador. Assim se formou uma sociedade na Amazônia com milhares de pobres, alguns poucos remediados e uma minoria rica.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a ocupação dos seringais asiáticos pelas tropas japonesas e a necessidade de suprir as indústrias de matéria prima que fez desencadear a “guerra da borracha” permitiu uma efêmera regeneração econômica174.

Contando com o apoio da Companhia de Desenvolvimento da Borracha, uma entidade norte-americana o governo brasileiro investiu para revitalizar o sistema de transporte175. Oliveira (1983, p. 266) estima que chegaram na região Amazônica

cerca de 100.000176 trabalhadores nordestinos (apelidados de “soldados da

borracha”177). O investimento do governo na propaganda foi mássico, o próprio

174 Wagley (1957, p. 124) afirma que em 1946, Belém exportou 58.479 quilos de “borracha fina” e 30.881, em 1947.

175 Segundo Pinto (1997, p. 142): “O investimento mais importante para o conhecimento da Amazônia veio nessa época através da Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos, que fez o levantamento aerofotogramétrico da calha central do Rio Amazonas”.

176 Para Silva (2000a, p. 9), o órgão responsável pela migração teria contabilizado 50.000 pessoas, mas a mesma autora reconhece que este número não leva em consideração muitos outros que se instalaram em seringais reativados neste período.

177 Reconhecendo o valor da colaboração prestada á nação por estas pessoas, o Art. 54. do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da atual Constituição Federal determina que: “Os seringueiros recrutados nos termos do Decreto-Lei nº 5.813, de 14 de setembro de 1943, e amparados pelo Decreto-Lei nº 9.882, de 16 de setembro de 1946, receberão, quando carentes, pensão mensal vitalícia no valor de dois salários mínimos.

§ 1º - O benefício é estendido aos seringueiros que, atendendo a apelo do Governo brasileiro, contribuíram para o esforço de guerra, trabalhando na produção de borracha, na Região Amazônica, durante a Segunda Guerra Mundial.

§ 2º - Os benefícios estabelecidos neste artigo são transferíveis aos dependentes reconhecidamente carentes.

§ 3º - A concessão do benefício far-se-á conforme lei a ser proposta pelo Poder Executivo dentro de cento e cinqüenta dias da promulgação da Constituição (grifos de Girolamo D. Treccani)”.

Presidente da República, Getúlio Vargas, fez vário pronunciamentos incentivando os seringueiros conforme mostra Silva (2000a, p. 58):

Seringueiros: dediquei todas as energias à batalha da borracha [...]. Nas guerras modernas não fazem parte somente os soldados que estão nos campos de batalha, mas toda a nação: homens, mulheres, velhos e crianças. à vós desbravadores da Amazônia sois os mais importantes soldados. Unidos veremos sibilar a bandeira do Brasil.

Um verdadeiro “exército” de trabalhadores foi sendo mobilizado, inclusive por meio de propaganda enganosa sobre as reais condições de vida na Amazônia178

ocultando-se as informações relativas a doenças endêmicas, sobretudo a malária que vitimou milhares de pessoas.

A promessa de rápido enriquecimento fazia parte desta estratégia. Parte destes “soldados” se estabeleceu em Gurupá179. A população voltou a aumentar

passando de 7.081 habitantes, em 1940, para 12.419, em 1950. No ano de 1947 foi concluída a construção da sede da prefeitura que tinha começado no começo de século e tinha sido abandonado no tempo da crise gomífera. Nestes anos foram adotadas políticas públicas de apoio à região, sobretudo medidas sanitárias de combate às doenças tropicais. Em 1943 a SESP abriu um posto de atendimento em Gurupá que contavam com a presença de um médico, um enfermeiro e um inspetor de saúde pública180. A maciça borrifação de DDT em todas as casas permitiu

reduzir sensivelmente a incidência de malária. O convênio entre o governo brasileiro e norte-americano foi, porém, suspenso pouco depois do final da guerra não tendo mais continuidade estes programas de apóio sanitário. O fim das hostilidades voltou a jogar a região na estagnação econômica.

Também este ciclo, foi, porém efêmero e não conseguiu criar as bases para o desenvolvimento da região. A borracha voltou a sofrer a concorrência não só dos seringais asiáticos, mas também da borracha sintética, sendo hoje uma atividade praticamente abandonada. Esta nova crise mostra a fragilidade de uma economia voltada ao extrativismo abastecedor do mercado internacional e que não cria bases sólidas a nível local e regional nem permite a consolidação de mercado interno

178 Silva (2000a, p. 60) escreveu que a enganação era tão grande que nos postos de aliciamento eram colocados cartazes onde: “[...] apareciam seringueiros em meio a uma vasta floresta de seringueiras colhendo látex em tambores carregados por caminhões e jeepes, como se fossem seringais da Amazônia”. Na realidade os cartazes estavam retratando seringueiros da Malásia e não do Brasil!!.

179 Este fato foi confirmado nas entrevistas realizadas nas comunidades da Ilha Grande de Gurupá onde ainda moram seus descendentes.

In document Humanistiske data nr 2 1983 (sider 61-75)