Acompanhando este raciocínio, tudo indica que houve apenas uma remodelação de um tipo de certeza divina pela certeza de nossos sentidos, de observação empírica e geração de riquezas.
Numa visão digamos pessimista da modernidade, retornamos ao projeto iluminista, que Horkheimer e Adorno denunciam como sendo de dominação da
natureza, acabando por dominar o próprio homem, utilizando-se de uma razão nascida utilitária, realizando-se enquanto dominação e repressão.
Como expressaram ditos filósofos:
“... desde sempre o iluminismo, no sentido mais abrangente de um pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sob o signo do infortúnio triunfal, o programa do iluminismo era o de livrar o mundo do feitiço. Sua pretensão, a de dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber ... Na escravidão da criatura ou na capacidade de oposição voluntária aos senhores do mundo, o saber que é poder não conhece limites. Esse saber serve aos empreendimentos de qualquer um, sem distinção de origem, assim como, na fábrica e no campo de batalha, está a serviço de todos os fins da economia burguesa, os reis não dispõem sobre a técnica de maneira mais direta do que os comerciantes: o saber é tão democrático quanto o sistema econômico juntamente com o qual se desenvolve.”13
E prosseguem Horkheimer e Adorno:
“O que os homens querem aprender de natureza é como aplicá-la para dominar completamente sobre ela e sobre os homens. Fora disso, nada conta, sem escrúpulos para consigo mesmo, o iluminismo incinerou os últimos restos da sua própria consciência de si. Só um pensar que faz violência a si próprio é bastante duro para quebrar os mitos. Diante do triunfo atual do tino para os fatos, até mesmo o credo nominalista de Bacon seria suspeito de ser ainda uma metafísica e cairia sob o veredicto de futilidade que ele próprio pronunciou contra a escolástica. ... O que importa não é aquela satisfação que os homens chamam de verdade, o que importa é o OPERATION, o proceder eficaz ... Portanto, nenhum mistério há de restar e, tampouco, qualquer desejo de revelação ... O mundo vira caos e a síntese é a salvação. Entre o animal totêmico,
os sonhos de um visionário e a idéia absoluta, não cabe nenhuma diferença. Caminhando em busca da ciência moderna, os homens se despojam do sentido.”14 (grifo nosso)
É o próprio processo cognitivo do iluminismo na modernidade, que permite a matematização do mundo, onde o sujeito que conhece esta linguagem domina, sem, no entanto, compreender (apreender) a essência ou a porção substantiva dos objetos de seu conhecimento.
Tal situação proporciona tornar comparáveis coisas que não tem denominador comum, quando as reduz a grandezas abstratas. O que não se pode desvanecer em números, e, em última análise, numa unidade, reduz-se, para o iluminismo, à aparência e é desterrado pelo positivismo moderno, para o domínio da poesia.
O escape do próprio modo de ser de tal humanidade moderna se deu através de uma crítica dos fundamentos da razão iluminista, como o fez Nietzsche e Marx.
Marx tinha como propósito fazer o povo “sentir”, expressando suas idéias através de imagens intensas e extravagantes, como abismos, terremotos, erupções vulcânicas, etc.
Marshall Bermann, em sua obra “Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade”, cita Marx em discurso ocorrido em Londres, em 1856
“... pequenas fraturas e fissuras na crista seca da sociedade européia. Mas denunciavam o abismo. Sob a superfície aparentemente sólida, deixaram entrever oceanos de matéria
líquida, que apenas aguardam a expansão para transformar em fragmentos continentes inteiros de rocha dura”15.
No dizer de Marx, todas as invenções e progressos humanos estariam “estupidificando a vida humana ao nível da força material”16. Dessa forma, o impulso dialético da modernidade se volta ironicamente contra a própria burguesia, sua propulsora.
Como expõe Eduardo Bittar:
“Na passagem do Medievo à Modernidade, o crescimento econômico era um fato escancarado para os olhos dos teóricos, e Marx enfrenta a questão constatando que a riqueza das nações estaria sendo dirigida a uma só classe, dela excluída a classe proletária. Sua crítica ao capitalismo, bem como seu idealismo revolucionário pelas classes exploradas (proletariado) em direção ao comunismo, conduzem a um acirramento das necessidades de revolução social e econômica que insculpem na mentalidade do século XIX (pense-se em 1848) e do século XX a idéia de oposição de classes e a dicotômica oposição capitalismo/comunismo... O ideal comunista é exatamente a manifestação direta de uma reação opositiva ao imaginário geral da modernidade, reagindo modernamente à indesejada modernidade.”17
Marx através do Manifesto Comunista nos traz a imagem da “moderna sociedade burguesa”, onde “tudo que é sagrado é profanado”, dizendo que o sentimento de divindade, de santidade, se dissipa, vivendo a moderna sociedade
15 BERMAN, Marshall. Obra citada, p. 18-19. 16 Ibid. p.19.
em meio à ausência e vazio de valores, diante de uma enormidade de possibilidades. 18
O signo da liberdade que era norteador da modernidade, com as mudanças introduzidas pelos apelos culturais e econômicos, especialmente tendo na razão o movimento emancipatório desta liberdade, rompia o selo que as forças religiosas de integração social possuíam.
O pensamento medieval que via o universo como ilusório, cuja verdade só seria acessível através da transcendência dos corpos, pós-morte, transforma-se, especialmente na época da Renascença e da Reforma Protestante, no universo físico e social que existe aqui e agora.
De fato, as conquistas de aprendizagem e de conhecimento obtidas na modernidade, trazidas pelo iluminismo, não podiam mais ser esquecidas. Não havia como retroagir no tempo, para recorrer à Tradição, caso houvesse alguma espécie de crise.
Pretendiam os iluministas que a racionalidade tivesse a totalidade do poder unificador que era mantido, até então, pela religião, tal qual uma religião cultural que tivesse a capacidade de renovação do poder tradicional.
18 Reproduz-se aqui a fragilidade do pensamento capitalista: “Apesar de todos os maravilhosos meios de atividade desencadeados pela burguesia, a única atividade que de fato conta, para seus membros, é fazer dinheiro, acumular capital, armazenar excedentes; todos os seus empreendimentos são apenas meios para