4. Funn, kategorisering og analyse
4.3 Selvsikkerhet
Os escribas são citados na Bíblia, a partir do profeta Jeremias (cf. Jr 8,8). Nesta passagem, é salientado o problema já existente, da reprodução de cópias incorretas. Mas é exatamente a necessidade de preservação da Lei que elevará o papel do escriba, quando da queda de Judá e destruição do templo no Antigo Testamento. Estes descendentes dos levitas e dos sacerdotes copiavam, editavam e interpretavam o conteúdo oral e escrito da Lei, a função, portanto, era de preservação. Mas é somente após o exílio que os escribas têm preeminência. Ao discorrer sobre os escribas, é imperativo que se analise a pessoa e obra de Esdras. Esta personagem serve como transição entre a função sacerdotal e os posteriores escribas no ensino da Lei. Assim como Samuel foi juiz e profeta, Esdras era sacerdote e escriba (cf. 1Sm 3,19-21; 1Sm 7,16-17; Esd 7,1-6; Ne 8,1-2.9).
53 WOOD, L. Distressing Days of the Judges. Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House,
Constatou-se na pesquisa, que três passagens bíblicas são essenciais para uma maior compreensão deste sacerdote-escriba Esdras e as funções desempenhadas pelo mesmo (cf. Esd 3; 7 e Ne 8).
Em Esdras 3 nós vemos a importância da celebração da festa de Sucot no que tange a esta pesquisa, Rubenstein observa:
A passagem enfatiza que os sacrifícios oferecidos em Sukkot inauguraram o funcionamento regular do culto, a partir daí, Sábados, Luas Novas e outras festividades poderiam ser observadas de maneira adequada (cf. 3,4-5).54
Esta “maneira adequada” sugerida pelo autor acima está intrinsecamente relacionada às prescrições da Lei como afirma Breneman:
Aqueles que retornaram do exílio queriam começar corretamente, eles foram cuidadosos em adorar a Deus de acordo com a Sua revelação nas Escrituras. A “lei de Moisés” era considerada como autoritativa (...) A festa dos tabernáculos era uma das três mais importantes festas do calendário religioso judaico. As festas dos peregrinos, quando todos os homens de Israel iam para Jerusalém, a Páscoa na primavera, Pentecostes (Semanas ou Colheitas) no verão e Tabernáculos no outono (Ex 23,14-17; Dt 16,16). Em Nm 29,12-38 há uma lista extensa de sacrifícios a serem feitos em cada um dos sete dias da festa de Tabernáculos. Novamente, os que retornaram do exílio mantiveram a festa “de acordo com o que estava escrito”, enfatizando a autoridade do Pentateuco (Ex 23,16; 34,22; Lv 23,33-36.39-43 e Dt 16,13-15... Foi também na festa de Tabernáculos que Esdras leu a Lei para o povo (Ne 8,14- 18).55
Blenkinsopp56 também afirma que a celebração de Sucot foi uma maneira
apropriada para marcar um novo começo a exemplo da dedicação do primeiro templo (cf. 2Cr 5,3). Levering57 declara que no calendário litúrgico de Israel
(descrito em Nm 28-29; Lv 23; Dt 16; Ex 12;23), o sétimo mês é o de maior proeminência. Neste contexto Esdras 3, marca o retorno para a terra, um “novo Êxodo”, com a esperança do estabelecimento de um povo santo que habitaria
54 RUBENSTEIN, J.L. The History of Sukkot in the Second Temple and Rabbinic Periods. Atlanta:
Scholars Press, 1995, p.33.
55 BRENEMAN, M. Ezra, Nehemiah, Esther. The NAC. An Exegetical and Theological Exposition of Holy Scripture. Nashville: Broadman & Holman, 1993, p.87.
56 BLENKINSOPP, J. Ezra-Nehemiah. The Old Testament Library. Philadelphia: The Westminster
Press, 1988, p.98.
com Deus na terra e prestaria uma santa adoração. Daí pode-se traçar o paralelo entre Moisés e Esdras como mestres da Lei.
Araújo, abordando de maneira abrangente as diversas nuanças da festa de Sucot, também descreve sua importância em Esdras e Neemias. Este autor salienta a importância em Esdras, quanto à continuidade das antigas tradições:
Esta ideia é visível na ânsia dos repatriados de reconstruírem o altar dos sacrifícios, “como está escrito na Lei de Moisés” (3,2- 6). A reconstrução do altar dos sacrifícios “no seu lugar”, no sétimo mês, junto com a celebração da Festa de Sucot, coloca este evento em estreita relação com a consagração do Templo de Jerusalém (1Rs 8) (...) A Festa de Sucot aparece, em Esd 3, em estreita relação com reinício da vida cultual do Templo de Jerusalém (...) Assim, o início do ciclo festivo de Israel através de Sucot liga-se com a dedicação do Templo de Salomão e, ao mesmo tempo, confere legitimidade ao novo culto (...) A Festa é usada em Esdras e Neemias como referência histórica e teológica. A comunidade, que havia negligenciado a Lei do Senhor resultando no exílio da Babilônia, agora possui como única referência para reiniciar uma nova vida na “Terra Prometida” a estrita observância da Torá como obediência ao Deus de Israel.58
Em Esdras 7 Blenkinsopp59 observa Primeiro: O interesse do autor em enfatizar
a genealogia Aarônica de Esdras, portanto sacerdotal. No período pré-exílico, já temos apresentado que eram os sacerdotes que serviam de guardiões da Lei e ensinavam a mesma ao povo, os Levitas tinham este dever entre suas tarefas e foi uma tribo separada por Deus para tal função (cf. Dt 32,26-29; 33,10; Nm 3,5-8; 2Cr 17,7-9; 35,3).
Assim sobre esta linhagem sacerdotal de Esdras observa-se o que diz Williamson:
Como alguém que poderia traçar sua descendência até o próprio Aarão, Esdras era clara e totalmente qualificado a continuar esta tradição. Com o desenvolvimento do Judaísmo durante o período do segundo templo, contudo, a classe dos escribas como aprendizes e mestres da Torá cresceu em preeminência. Esdras é retratado como o primeiro e grande exemplo desta classe. Assim, ele representa de forma singular
58 ARAÚJO, G. L. De. História da Festa Judaica Das Tendas. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 74-81. 59 BLENKINSOPP, J. Ezra-Nehemiah. The Old Testament Library. Philadelphia: The Westminster
a transição entre os diferentes modos de mediação da Torá nos períodos pré e pós exílicos60
Em segundo: O papel de Esdras como escriba, incluiria anotar registros rápida e acuradamente (cf. Sl 45,2), conhecer a Lei de Moisés, interpretá-la e aplicá-la a casos específicos.
Assim Esdras estudava, observava e instruía a Lei a partir de sua dupla função sacerdote e escriba. Os estatutos e as ordenanças (Esd 7,10) então, mais do que termos sinônimos, seriam respectivamente, as provisões básicas e as estipulações e aplicações da Lei nos casos judiciais (cf. Dt 4,1.5.8.14; 5,1; 11,32; 12,1; 26,16).
Clines61 concorda com esta perspectiva sobre o destaque da linha sacerdotal e
também alista a possibilidade de Esdras ser um alto oficial do estado persa, talvez um embaixador persa para assuntos israelitas, mas acha mais provável que a ênfase do texto (cf. Esd 7,6) o retrate como um doutor, um expert da Lei, oque mostra a predominância de Esdras como mestre da Lei. A ideia é de um pesquisador e expositor da palavra de Deus.
Também se pode observar o caráter deste mestre da Lei em Esd 7,10, ele está disposto não somente em estudar e ensinar a Lei, mas também praticá-la, como bem acentua Kidner:
Ele é um modelo de reformador porque o que ele ensinou, em primeiro lugar ele viveu, e que ele viveu tinha apoio primeiramente nas Escrituras. Com o estudo, a conduta e ensino colocados deliberada e exatamente nesta ordem, cada um destes aspectos foi capaz de funcionar corretamente e da melhor maneira: O estudo foi salvo da irrealidade, a conduta da incerteza e o ensino da falsidade e superficialidade.62
Verificamos que o envolvimento de Esdras com a Torá é tanto técnico científico quanto litúrgico pastoral. Podemos concordar com a afirmação de Yamauchi63
quando diz que o estudo de Esdras não era meramente uma disciplina intelectual, mas também um estudo para a sua própria vida e para a instrução
60 WILLIAMSON, H.G.M. Ezra, Nehemiah. WBC. Waco, Texas, 1985, p.94.
61 CLINES, D. J.. Ezra, Nehemiah, Esther. The NCBC. Grand Rapids, Michigan: William B Eerdmans
Publishing Company. 1984, p. 99-100.
62 KIDNER, D. Esdras e Neemias: Introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão e Vida Nova,
1985, p. 84.
63 YAMAUCHI, E. Ezra, Nehemiah. The EBC volume 4. Grand Rapids, Michigan, Zondervan
de sua congregação. Clines64 segue a mesma direção quando diz que Esdras e
os rabis posteriores consideravam o estudo sem a ação como algo sem dignidade e diz que o rabban Gamaliel chegou a afirmar: “todo o estudo da Torá sem obras é em última instância fútil e torna-se a causa de pecado”.
Nef Ulloa também enfatiza que, a “centralidade da Torá e seu estudo”, abrange teoria e prática ao afirmar que:
A valorização do estudo da Torá, o qual não consistia (consiste) tanto no conhecimento como na meta a ser alcançada, ou seja, buscar o conhecimento pelo conhecimento em si mesmo, mas estava (e ainda hoje está) orientado para a interpretação, com o objetivo de encontrar a aplicação da Torá nos mais diversos aspectos da vida cotidiana do povo. Por isso, no interior do judaísmo, estudar a Torá é, antes de tudo, encontrar seu sentido prático, de cujo estudo como vimos anteriormente, Esdras é um exemplo clássico.65
Fensham66 também faz a análise do versículo 10 (cf. Esd 7,10) e comenta a importância da conjunção
yKi
(porque) e sua ligação com a última expressão do versículo anterior “segundo a boa mão do seu Deus sobre ele”, ou seja, a boa mão de Deus, o Seu favor estava sobre Esdras devido ao seu estudo e prática da Torá. Fensham defende a ideia da ênfase do estudo teórico e da prática baseado tanto na pontuação do texto massorético, quanto na interpretação dada pela LXX, este autor também afirma que “as ações de Esdras no restante do livro devem ser interpretadas à luz deste versículo”.Em Neemias 8, Blenkinsopp67 comenta sobre a função de Esdras, da Lei de
Moisés e dos Levitas e afirma ser imprescindível, no versículo 8, a compreensão do termo hebraico
vr"_pom.,))
a raíz verbal significa dividir, separar, especificar. Após apontar estudos que vêem aqui a origem bíblica dos targuns e o reestabelecimento da acentuação massorética esquecida; Blenkinsopp, após análise das expressões hebraicas, prefere concluir por uma leitura feita de maneira precisa e suas respectivas interpretações. Este autor conclui que a64 CLINES, D. J.. Ezra, Nehemiah, Esther. The NCBC. p. 101.
65 NEF ULLOA, B. A. O método deráshico no judaísmo. São Paulo: PUC, Revista de Cultura
Teológica 70, 2010, p.31-49.
66 FENSHAM, C. F. Ezra and Nehemiah. The NICOT. Grand Rapids, Michigan: William B Eerdmans
Publishing Company. 1983, p. 101.
67 BLENKINSOPP, J. Ezra-Nehemiah. The Old Testament Library. Philadelphia: The Westminster
passagem é de valor inestimável e oferece informações sobre o estudo, interpretação e ensino da Torá nos séculos precedentes à emergência do escribalismo Farisaico. Clines68 também enfatiza o valor do termo hebraico
citado acima e alista as seguintes opções: 1. A apresentação de uma tradução ou paráfrase do texto hebraico para o aramaico. 2. A origem dos targuns, segundo a tradição dos rabis. Yamauchi69 discorda desta opção muito
conhecida, porque a considera anacrônica principalmente por não haver evidência de targuns de uma data tão antiga. 3. Uma leitura clara, com pronúncia distinta, com pausas entre cada versículo. 4. Leitura e explanação do texto para a audiência. Williamson70 faz um interessante sugestão a partir de
Ne 8,7-8. Seria possível que a leitura da Lei fosse feita em seções e assim, após cada pausa, os levitas podiam ir de grupo em grupo verificando a compreensão do povo. Fenshan concorda com esta possibilidade, mas opta por “traduzir” para o termo hebraico vr"_pom.,)) , ele diz que “os judeus que falavam aramaico precisavam de alguém para traduzir o hebraico da Lei em seu próprio vernáculo”71. A despeito de qual destas alternativas estejam mais próximas da
realidade, verificamos que a ênfase no ensino da Lei produziu os resultados almejados porque o povo entendeu (cf. Ne 8,8.12) e foi sensibilizado (cf. Ne 8,9.12). Novamente vemos que Esdras e os levitas serviram de guardiões da Lei e mestres da mesma. Através da instrumentalidade do sacerdote escriba Esdras podemos constatar uma mudança metodológica que parte do místico, por exemplo, o proferimento de oráculos a partir do uso do urim e tummim e transfere-se para o exegético através do estudo e interpretação da Torá. Scardelai72 argumenta que Esdras, então inaugura um novo período no qual
tudo será centralizado no livro, constituindo um paradigma da nova comunidade restaurada após o exílio. Johann73 também tem esta mesma
perspectiva sobre esta transição para a religião do Livro, afinal, à medida que “as tradições foram guardadas por escrito a interpretação tornou-se necessária como meio de atualização”. O projeto de reconstrução sob Esdras iria,
68 CLINES, D. J.. Ezra, Nehemiah, Esther. The NCBC. p. 184-185. 69 YAMAUCHI, E. Ezra, Nehemiah. The EBC volume 4. p.725.
70 WILLIAMSON, H.G.M. Ezra, Nehemiah. WBC. Waco, Texas, 1985, p. 290-291. 71 FENSHAM, C. F. Ezra and Nehemiah. The NICOT. p.103.
72 SCARDELAI, D. O escriba Esdras e o judaísmo. Um estudo sobre Esdras na tradição judaica.
São Paulo, Editora Paulus, 2012, p. 87,123.
portanto, além das muralhas e do templo e visaria um reestabelecimento espiritual, este é o fundamento para o judaísmo do segundo templo e posterior. Este “novo período” deveria ser caracterizado não só por um novo templo e sim pela habitação de Deus, Levering74 afirma que a missão de Esdras é a
formação de um povo santo unido pela Torá, (cf. Esd 7-10). Este autor comenta sobre a visão pré-exílica de Ezequiel onde a glória do Senhor, (