5.1 Vitenskapsteoretisk forankring
5.1.1 Selvbiografisk situering
A classe temática dos Aspectos físicos e naturais do país compreende 93 UTs distribuídas em quatro categorias de representações sociais do Brasil, são elas: Biomas e belezas naturais; Aspectos climáticos; Cidade; Extensão territorial, apresentadas na tabela 3 a seguir, com suas frequências e porcentagens.
38 a religião igualmente foi “reculturada”... Os brasileiros põem lado a lado, de uma maneira geral, o
pagão e o cristão, a religião católica e as religiões de origem africana, como o candomblé e a macumba... Produz-se então, no domínio religioso, fenômenos de mestiçagem.
101
Tabela 3: Classe temática: Aspectos físicos e naturais Uts Categorias % Subcategorias f %
Biomas e aspectos 49,46 Naturais
Praia 19 41,30
Floresta Amazônica 13 28,26
Paisagens belas ediversificadas 9 19,56
Natureza 5 10,86 Total 46 100 Aspectos climáticos 24,73 Total Sol 12 52,17 Calor 11 47,82 23 100
Cidade 16,12 Rio de Janeiro 15
Total 15 100
Extensão territorial 9,67 9
Total 9 100
Total 100% 93 100
Observando-se a tabela 3 conclui-se pelos números apresentados que praia e floresta são os dois ecossistemas citados para representar o Brasil quando se trata de seus aspectos naturais. Juntos, correspondem a 69,56% da categoria Biomas e aspectos naturais. Contrastando com esses dados, observa-se que os termos genéricos Paisagens belas e diversificadas e Natureza englobam todo o restante dos ecossistemas do país. Analisando a segunda categoria dos Aspectos climáticos, observamos que é formada por apenas duas subcategorias, sol e calor, que se associam justamente aos ecossistemas praia e floresta. Juntos compõem a imagem do país tropical. Uma síntese dessa imagem do país de clima quente associado à praia e à floresta é apresentada no enunciado a seguir reportado dos comentários:
Clima favorável, extensa praia de areia fina, samba, carnaval, [...] floresta Amazônica. Encaixa-se para compor a imagem do país expressa no comentário, o ritmo e a festa popular citados como representações culturais do país, como visto na análise da tabela 2, página 95. Essa representação do país é compatível com a imagem que Alfonso (2006, p. 118) afirma ter sido construída pela Empresa Brasileira de Turismo, EMBRATUR, para ser utilizada nas suas campanhas publicitárias, onde o Brasil é apresentado como
102 país dotado de natureza “exuberante”, representada pelas praias, a Amazônia e o Pantanal, Foz do Iguaçu, a fauna e a flora e o ecoturismo. O Brasil aparece aí como país tropical, de clima quente, em que o sol aparece o ano todo; um país continental, colorido pelo verde das matas, o azul do céu e as diferentes cores de suas frutas tropicais, seus pássaros, suas fantasias de Carnaval etc.[...] Este foi o Brasil turístico mostrado e alardeado pela EMBRATUR no decorrer da história da entidade –– que de Empresa passou a Instituto ––, em suas várias campanhas. Pode-se dizer, assim, que a EMBRATUR cumpriu seu papel de criadora de determinadas imagens turísticas do Brasil, e, conseqüentemente, de determinadas imagens da nação.
Ações deliberadas por parte do Estado, como essa da EMBRATUR, materializadas em discursos, podem estar na base da formação de representações sociais do país como a que lemos ainda no seguinte comentário
Calor. Beleza do país. Paisagem. Férias. Pequeno paraíso.
em que os elementos de uma natureza brasileira estão associados à imagem do paraíso. Segundo Chauí (2010), a ideia de paraíso está embutida numa memória histórica, a representação natural do país como explorada pelos colonizadores europeus e cultivada por um discurso nacionalista brasileiro. Como diz a autora, “essa ‘visão do paraíso’, o topos do Oriente como jardim do Éden, essa Insulla de Brazil ou Isola de Brazil, são constitutivos da produção da imagem mítica fundadora do Brasil” (CHAUÍ, 2010, p. 62).
Mais um elemento citado para compor a representação social do país quanto aos aspectos físicos e naturais é sua extensão territorial, que aparece também na citação de Alfonso (2006, p. 118) acerca do “país continental”. Essa representação está contida em comentários como os que seguem:
País vasto; vasto país com muitas paisagens diferentes.
País imenso, dotado de uma natureza generosa e de paisagens grandiosas; grande; imenso.
Também essa representação social já é explorada institucionalmente, faz parte do discurso oficial produzido para a fixação de uma identidade para o país, como o do hino nacional em cuja letra é ressaltado esse aspecto: “gigante pela própria natureza”. A ideia de extensão territorial funcionou também como um dos pilares do “‘princípio de
103 nacionalidade’, isto é, um princípio que definia quando poderia ou não haver uma nação ou um Estado-nação” (CHAUÍ, 2010, p. 17). Assim, a grandeza territorial do Brasil atendeu perfeitamente bem a um discurso ufanista e foi amplamente explorada nos diversos projetos de construção de uma identidade nacional brasileira, isso desde os tempos do Império. Nesse caso, pode-se afirmar com Moscovici (2009, p. 179) que uma representação “pode tornar-se estável através da reprodução e transmissão de uma geração a outra”. E sendo estável, esse discurso sobre a natureza do Brasil é resgatado, por exemplo, como veremos nas matérias do jornal Le Monde, para ser atualizado, e sobre ele serem assentadas representações atualizadas de um grande país tropical, possuidor de uma natureza exótica. Esse continua a ser o imaginário europeu, já ancorado como representação, sobre a terra brasilis.
É elucidativa a explicação de Chauí (2010, p. 10) sobre a vitalidade da representação da nação brasileira que se ancora no fato histórico de sua descoberta:
o mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados tanto do ponto de vista de sua hierarquia interna (isto é, qual o elemento principal que comanda os outros) como da ampliação de seu sentido (isto é, novos elementos vêm se acrescentar ao significado primitivo). Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimentam-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente.
A última categoria a ser citada dessa classe temática é Cidade e a compondo como representação encontra-se apenas a subcategoria Rio de Janeiro, com frequência suficiente, 15 UTs, para ratificá-la como a cidade brasileira que representa o Brasil. Também nesse ponto Alfonso (2006, p. 83) atesta o investimento do governo brasileiro. A autora relata que
é no início da década de 1970 que a EMBRATUR começa a estruturar a promoção turística do país. É o pontapé inicial da fase de preocupação com a imagem do país no exterior. Os primeiros materiais publicitários do Brasil procuravam lançar “O Carnaval do Brasil”, principalmente os “festejos carnavalescos” das capitais e a imagem do Rio de Janeiro, com o Cristo Redentor.
Em nossos dados também encontramos associadas ao Rio muitas das ocorrências do termo “carnaval”, sendo recorrente a presença do sintagma “carnaval do Rio de Janeiro”, assim estando a manifestação popular associada à cidade. No mesmo sentido
104 retomamos a citação anterior de Alfonso (2006, p. 121) sobre a publicidade produzida para o Rio de Janeiro para ser veiculada em Paris, na qual bumbum/biquínis/praia formam um conjunto. O cruzamento, portanto, de elementos culturais e naturais que vemos acontecer nos comentários dos participantes da pesquisa pode ser creditado a uma bem sucedida estratégia de construção de uma imagem para o país através de projeto turístico institucional. A esse respeito, Cousin (2002, p. 20) esclarece que:
le discours du tourisme culturel permet d’organiser une représentation du monde efficace d’un point de vue politique et institutionnel. Cette efficacité politique et institutionnelle passe par une redéfinition des identités – culturelles, locales, nationales - à l’aune de valeurs marchandes et politiques qui ne s’opposent plus, mais s’entretiennent et se coproduisent39.
Sendo assim, o resultado apresentado da categorização dos dados analisados para as classes temáticas dos Aspectos culturais e Aspectos físicos e naturais indica uma representação social do Brasil ancorada em discursos institucionais produzidos a partir de um projeto político de construção de uma imagem ufanista para a nação, como o descrito por Chauí (2010). Constata-se assim a eficácia desse projeto tendo em vista as representações sociais presentes nos comentários dos participantes da pesquisa.