2 Teoretiske perspektiv
2.1 Selvbestemmelsesteori
O matemático italiano apresenta uma nova realidade física da qual desencadeará outras tantas mudanças importantes. Essas mudanças afetam com grande vigor o pensamento filosófico da modernidade e representam as novas bases sobre as quais o conhecimento passará a se fundamentar. Em seu aspecto mais geral, o século XVII quer “substituir as forças ocultas pela combinação de matéria e pelas leis do movimento que devem explicar a formação dos seres vivos assim como a queda dos corpos ou o movimento dos astros.” (JACOB, 1983, p. 60) A nova ciência, ao repelir preconceitos e prejuízos desprovidos de uma fundamentação concreta, exige novos princípios face ao mundo físico, prioriza a racionalização e a observação e, ainda, rejeita qualquer explicação de ordem especulativa ou metafísica acerca da estrutura física dos corpos. Nas palavras de Jacob (Ibid., p. 38), “A física substitui a palavra da revelação pela palavra da lógica. No lugar da escuridão, da ambigüidade, da exegese sem fim dos textos sagrados, ela instala a clareza, o unívoco, a coerência do cálculo.”
Não se trata mais de salvar as aparências, mas de forçar a separação do domínio científico em relação à autoridade moral e religiosa, numa clara distinção entre fato e valor. Assim, conceitos como tempo, espaço, movimento, leis, massa, energia, força, aceleração e velocidade aos poucos adquirem sentido, substituindo antigas categorias como essência, qualidade, acidente, matéria, forma, etc. Os corpos físicos passam a apresentar qualidades geométricas diferenciadas e para que haja movimento deve existir uma força como categoria física, enquanto causa. É essa força que produz a aceleração e a velocidade nos corpos.
descoberta do teorema fundamental da nova ciência, a lei da queda dos corpos35.
Em 1604 ela surge como a primeira lei da física clássica, fundamental para desvendar os segredos da dinâmica. Essa lei prevê que a queda dos corpos deve ser representada por um movimento uniformemente acelerado. Aristóteles, como vimos, havia formulado uma teoria diferente36. E a reformulação moderna propõe mudanças importantes, defendendo como lei que uma força constante engendra um movimento uniformemente acelerado e a aceleração deste movimento é proporcional à força que solicita o próprio móvel. Disso resulta que a aceleração da queda dos corpos seja a mesma para todos os móveis, independentemente de seus pesos e que o movimento da queda livre de um corpo solto verticalmente, na medida em que a resistência do ar possa ser desprezada, é um movimento uniformemente acelerado.
As pressuposições do movimento retilíneo uniforme culminarão no importante princípio da inércia37. Apesar de não ter apresentado a lei da inércia em sua forma final, Galileu enunciou este princípio “tal qual Newton o fez anos mais tarde − todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme, exceto quando é compelido por uma força aplicada sobre ele a mudar seu estado” (ÉVORA, 1994, p.127). Como já foi anunciado, um corpo deixado a si mesmo permanece em seu estado de repouso ou de movimento desde que não seja impedido por nenhuma outra força externa. Desta feita, um corpo em movimento continuará a se mover e a se manter em movimento retilíneo e uniforme enquanto nenhuma força externa o impedir.
A física galileana chegara, portanto, à conclusão de que o movimento de um móvel é o efeito da causa que o anima, isto é, da aceleração inerente ao próprio corpo em movimento. De uma força constante resulta um movimento acelerado e a aceleração desse movimento é proporcional à força que solicita o móvel. Isto
35 “La loi de la chute des corps est une de loi fort importante: c’est la loi fondamentale de la dynamique moderne. C’est, en même temps, une loi extrèmement simple; elle s’épuise entièrement dans une definition: la chute des corps est un mouvement uniformément accéléré.” (KOYRÉ, 1966, p. 84).
36 Para Aristóteles, como foi visto no item precedente, uma força constante produz um movimento uniforme no qual a velocidade é proporcional à causa que o engendra.
37 Fátima R. R. Évora, em A Revolução Copernicano-Galileana II, lembra que a palavra inércia não é empregada por Galileu e que para expressar sua visão inercial ele usou muitas vezes a palavra ímpeto. De qualquer maneira, por esse princípio Galileu assume a tese de que “o movimento, sendo um estado, não necessita de uma causa (ou força) para mantê-lo. Uma força só se fará necessária para transformar o estado de movimento de um dado corpo no estado de repouso e vice-versa.” (1994, p. 116).
significa que a velocidade do móvel aumenta à medida que ele se distancia do ponto inicial. A tese é simples: supõe que os corpos caiam e que ao caírem seus movimentos se acelerem.
Ainda em relação ao movimento, Galileu é partidário do princípio da relatividade. Na segunda jornada do Diálogo, ele faz referência a esse princípio e deduz que entre os objetos que se movem igualmente e na mesma direção não é possível notar qualquer alteração, porque “o movimento opera, enquanto tem relação com coisas que carecem dele; mas entre as coisas que participam todas igualmente dele, nada opera e é como se ele não fosse [...].” (MARICONDA, 2001, p. 196-7). Ou seja, é nulo ou não-operativo, haja vista que os corpos que participam de um mesmo movimento estão em repouso entre si.
Conclusões importantes podem ser retiradas daqui para a filosofia hobbesiana, a saber: repouso e movimento possuem o mesmo estatuto de estado; repouso e movimento não provocam nenhuma modificação nos corpos; movimentos simultâneos não são incompatíveis entre si. E isso explica o fato dos corpos humanos estarem submetidos, interna e externamente, a movimentos variados, compatíveis e, muitas vezes, imperceptíveis. Numa analogia, pode-se dizer, portanto, que da mesma maneira que os movimentos do sistema solar não afetam os corpos na terra, os movimentos externos impostos aos corpos humanos no âmbito político, não modificam aqueles movimentos internos presentes nesses mesmos corpos. Neles continuam a atuar os movimentos ligados às faculdades do corpo e do espírito.
Ainda por analogia, no interior de um mesmo sistema mecânico, por exemplo, do estado civil, pode haver as duas condições − repouso ou movimento − sem que se produza nenhuma modificação interna nos corpos. A própria força interna, que movimenta os corpos, legitima uma outra força, externa, para barrar os movimentos daqueles corpos que se entrechocam. Constituídos de uma mesma matéria e submetidos às mesmas leis, os corpos humanos, cientes dos prejuízos causados pelos embates, movimentam-se rumo à paz e forjam movimentos externos em busca da autopreservação.
Aprofundando na analogia entre a física galileana e o Estado hobbesiano, poderíamos afirmar que um corpo consciente, o homo machina, não é indiferente às dores que lhe causam os seus próprios movimentos. Onde há vários corpos se movendo concomitantemente, haverá sempre possibilidades de choques. Assim,
numa transposição da teoria física dos movimentos para a filosofia política de Hobbes, a força constante que produz aceleração no móvel poderia ser compreendida como o Estado. Os movimentos dos indivíduos são propiciados por ele na figura do soberano, que será o centro da orbe política. Ele comanda os movimentos dos súditos, determinando sua direção e aceleração.
Com essa proposta, Hobbes afasta-se, então, da política e da física aristotélica. Repouso e movimento são, agora, qualidades dos corpos e não podem fazer parte de sua natureza condicionando-os de antemão. Na filosofia natural ou civil, os corpos se movimentam, acelerando os movimentos por suas próprias forças internas; e, às vezes, chocam-se, sendo limitados e obrigados ao repouso por forças externas. Seus movimentos não são nem naturais nem violentos e − não importa se artificiais ou externos, se inerentes ou internos − são sempre legítimos assim como o repouso.
São essas novas descobertas que levam Hobbes a abdicar do conhecimento das causas finais. Vale agora o objeto de estudo exato, pois o mundo real apresenta-se como uma sucessão de movimentos matematizáveis. A linguagem matemático-geométrica reduz as figuras complexas a simples, facilitando o acesso da mente humana à natureza. Dessa maneira, toda e qualquer alteração passa a ser vista como mudança nos elementos ou fenômenos materiais. As causas últimas são sempre concebidas como forças atuantes em uma dada matéria e as causas imediatas ou primárias apresentam-se como movimentos aptos a acionar ou a cancelar estas causas. Daí a conclusão de que os corpos se movem numa combinação de movimentos anteriores como forças presentes neles próprios.
É dessa “filosofia do movimento”, herdada da ciência natural, que Hobbes se apossa. Veremos, nos capítulos posteriores, como o conceito de movimento desenvolvido aqui entrecorta toda filosofia política hobbesiana e ocupa um lugar central em seu pensamento; e como os conceitos de linguagem, representação do conhecimento, Estado, representação política, obrigação moral e política dependem da naturalização do corpo humano e de sua equiparação a qualquer outro corpo físico em movimento, submetido à lei da queda livre dos corpos e ao princípio da inércia.
PARTE II – FILOSOFIA, CIÊNCIA E CONHECIMENTO
2 A RELAÇÃO ENTRE FILOSOFIA E CIÊNCIA
De posse das reformulações da física apresentadas pela ciência natural moderna, Hobbes propõe uma concepção de filosofia e de conhecimento fundada na tese de que tudo é corpo em movimento. A ciência natural reforça a necessidade da separação entre filosofia e religião, bem como a construção de uma razão e de uma ciência balizadoras dos artifícios da eloqüência e da retórica. Ao aderir à ciência, o pensador inglês se empenha em assumir um conhecimento convencional, uma compreensão nominal do mundo e em dar à linguagem o importante papel de possibilitar o acesso à natureza e, por conseguinte, ao homem e ao Estado.
O fisicalismo e o mecanicismo dos corpos, o nominalismo no conhecimento e o cientificismo presentes no método são caracteres que fundamentam essa filosofia dos corpos moventes e calculáveis em suas partes constitutivas. A base conceitual desse arcabouço teórico compõe-se de questões em torno do objeto, alcance e utilidade da filosofia, da linguagem e seu mundo representacional, da percepção e o desenvolvimento das idéias ou fantasmas, da importância do método, assim como, de uma certa proximidade entre as filosofias natural e civil. Nessa “filosofia do movimento”, os corpos humanos se locomovem inercialmente e descobrem a si mesmos num universo de representações.
Iniciemos este capítulo pela pergunta que norteia integral e metodologicamente o pensamento de todo filósofo: o que é filosofia?