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Esta última seção aborda as ideias da teoria do pensamento maternal e as críticas que se fazem a essa corrente da teoria feminista. As críticas são de grande importância para compreensão de como a mídia se apropria do essencialismo6 e do ideal de mãe para tentar impor uma feminilidade universal e ressalvar valores e virtudes identificados como “femininos” a partir da maternidade. Observa-se no material empírico analisado que a revista Veja normatiza determinadas atitudes de mulheres que atuam no campo político a partir de padrões patriarcais naturalizados, muitas vezes embasada no argumento de naturalização de uma feminilidade universalizada, a partir de uma socialização diferenciada vivida pelas mulheres através da maternagem7. Além disso, a naturalização acerca da maternagem e da esfera de ‘pertencimento’ da mulher foi institucionalizada no contrato social, e a partir de então aceito como norma, já debatido nas seções anteriores deste capítulo a partir das críticas de Pateman e Fraser.

Jean Bethke Elshtain (1993), Sara Ruddick (1989) e Carol Gilligan (1982), esta última no campo da Psicologia, são as principais autoras da corrente do feminismo chamada “pensamento maternal” ou “política do desvelo” (care politics) (MIGUEL, 2012). Elas dialogam e concordam com boa parte das críticas feitas pelas demais feministas ao pensamento liberal. Por exemplo, como a crítica à racionalidade e à impessoalidade (características atribuídas ao masculino), valores considerados centrais à esfera pública em contraposição à esfera privada, esta última o ambiente do cuidado e do afeto (atribuída ao feminino). No entanto, o entendimento liberal de que a esfera privada é o ambiente do cuidado sob responsabilidade exclusiva das mulheres, por suas características naturais, é compartilhado também pelas autoras do pensamento maternal. As autoras do pensamento maternal consideram que existe uma diferença moral entre homens e mulheres, que as mulheres teriam uma ética do cuidado.

O pensamento maternal tem o entendimento de que a socialização e experiências diferenciadas que mulheres e homens vivenciam contribui para criar essa diferença moral. Como por exemplo, a experiência da possibilidade da maternidade vivida pelas mulheres influenciaria na atuação na esfera pública, em especial na política, sendo considerada um diferencial feminino no exercício do poder. Sendo assim, essas autoras tem o entendimento de que as mulheres levariam valores diferenciados para o fazer 6 Essencialismo no sentido do que é essencial, de atributos considerados naturais

da mulher, que constituiriam a essência da mulher.

político, que elas levariam compaixão e solidariedade, fazendo com que a política tivesse um caráter menos agressivo e belicoso, características inerentes aos homens, além de instituírem uma “cultura para paz”.

Carol Gilligan (1982) em seu livro “In a Different Voice”, através de entrevistas com mulheres e homens, crianças e adultos, concluiu que homens e mulheres usam abordagens fundamentalmente diferentes em relação às suas morais e decisões éticas. Para a autora a o entendimento masculino sobre moralidade considera que os indivíduos têm determinados direitos básicos e que uns devem respeitar os direitos dos outros. A moralidade masculina impõe restrições no que se pode fazer sobre a ação dos indivíduos. A abordagem feminina de moralidade considera que os indivíduos devem ter responsabilidades para com os outros. A moralidade é um imperativo em relação ao cuidado. Gilligan resume essa dualidade afirmando que a moralidade dos homens tem uma “orientação de justiça” (“justice orientation”), e a moralidade das mulheres tem uma “orientação da responsabilidade” (“responsibility orientation”).

Durante a pesquisa, a autora apresenta às(aos) entrevistadas(os) várias situações onde devam tomar decisões e pede para se posicionarem. As situações são de cunho moral, como fazer um aborto ou seguir com a gravidez, roubar um remédio para uma pessoa doente ou deixá-la morrer, uma briga/disputa entre as crianças numa brincadeira, dentre outras. As respostas dadas por mulheres e homens, meninas e meninos e, a lógica argumentativa da justificativa dada por eles, levou Carol Gilligan a essas conclusões, de que a mulher tem uma moral específica, uma ética feminina, diferente da ética masculina. Consequentemente, as mulheres seriam possuidoras de um menor senso de justiça que os homens, sendo essa ética feminina de origem maternal, voltada a responsabilidades e cuidado com o outro.

Gilligan e outras intelectuais da maternagem afirmam que as mulheres, por terem maior preocupação e cuidado com os outros, levariam contribuições diferenciadas à esfera política. Por exemplo, defendendo os mais necessitados e modificando a atmosfera agressiva dos espaços de mando, predominantemente masculinos. Além disso, essa corrente leva a crer que a paridade entre mulheres e homens nos foros decisórios acarretaria naturalmente uma mudança nos padrões de comportamento da política (MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 80), pois quanto maior o numero de mulheres, maior seria o abrandamento e a moralização na política. No entanto, é preciso observar esses argumentos de forma cuidadosa e temerária, pois essa posição reforça os papeis

tradicionais de gênero os quais as mulheres foram colocadas há séculos e que seguem até hoje.

Já Jean Bethke Elshtain (1981), na segunda parte do seu livro “Public man,

private woman”, tenta descrever um discurso feminista reflexivo alternativo, baseado

em um “ideal de reconstrução de público e privado” (ELSHTAIN, 1981, p. 301, tradução livre). Para tanto, ela perpassa as principais correntes da teoria política feminista mostrando suas nuances e fazendo críticas a algumas abordagens acerca da dicotomia entre as esferas pública e privada: feminismo radical, feminismo liberal, feminismo Marxista e uma perspectiva feminista psicoanalítica.

A autora faz críticas às deficiências de determinadas correntes feministas acerca das origens das desigualdades de gênero. Por exemplo, ela critica as feministas liberais, argumentando que essa corrente focou-se muito nas “armadilhas ao invés da substância do poder político”, o que, portanto, acabou deixando-as “ligadas à ideologia dominante” (idem, p. 237). A autora critica também as sufragistas, por seu entendimento de que as mulheres, ao entrarem na vida pública, seriam forçadas a mudar seus hábitos e atitudes, mas continuariam sendo ingênuas. Consequentemente, para as sufragistas, as mulheres teriam uma moral natural, uma moral de “espírito elevado” ou de “altivez” que seria uma força alternativa para renovar a vida pública. A autora critica também a lógica estruturalista de Juliet Mitchell, pois segundo Elshtain, não existem nem pessoas e nem política dentro do estruturalismo marxista de Mitchell (idem, p. 279). Haveria apenas uma interdependência rígida entre estruturas e funções de homens e mulheres como atores sociais que não possuem consciência auto reflexiva sobre os seus papéis e as crenças que os sustentam.

Esperava-se que a reconstrução proposta por Elshtain fosse evitar essas armadilhas. Entretanto sua “reconstrução” equivale a pouco mais do que uma exaltação à família com uma definição altamente emocional, exigindo a presença contínua de outros entes (familiares) específicos, como sendo a base para a redenção da vida cotidiana (idem, pp. 328-329). Elshtain defende uma “visão da esfera privada, familiar, como tendo a sua própria dignidade e propósito” (idem, p. 334); ela apela às mulheres “para afirmar a proteção da fragilidade e vulnerabilidade a existência humana como a base de um modo de discurso político” e sua afirmação de que este “seria um sinal de uma força de grande potencial de reconstrução” (idem, p. 336). Porém, essa argumentação parece uma reminiscência sentimentalizada das sufragistas a quem ela

mesma criticou. Para essa reconstrução a autora fala também em uma “política de compaixão”, baseada no “evangelhosocial cristão” (idem, p. 345).

Todavia, essas ideias continuam sendo demasiado vagas como base material sobre a qual se pretende construir uma “política ética”. Elshtain traz a visão de que um movimento político de reconstrução deve começar por aceitar preocupações imediatas das pessoas, no entanto expõe a fraqueza central de sua apresentação, quando recorre a uma identidade estadunidense. Pois, apesar do fato de que “os americanos continuam comprometidos com a vida familiar” (idem, p. 332), e de que há “uma identidade especificamente americana” (idem, p. 345), um apelo a estas tradições não levará automaticamente a um senso compartilhado de “visão para transformar a comunidade política” (idem, p. 348). A apropriação crítica dessas imagens exige mais do que a certeza religiosa de Elshtain de que esses americanos que prezam pela família estão em consonância com fins igualitários ou feministas. Essa formulação é carente de análise de base material que permita o entendimento da reestruturação da família e do mundo político em linhas mais igualitárias, como proposto pela autora. Consequentemente, a noção de reconstrução do público permanece como idealista, assim como sua imagem do privado, sem nenhum embasamento na realidade concreta. No fim das contas, sua promessa “para articular um ideal particular de vida familiar que não repita os termos anteriores de opressão feminina e exploração” (idem, 1981, p. 323) ainda continua por se cumprir.

Algumas autoras feministas, como Elisabeth Badinter (2005) fazem a crítica ao pensamento maternal, por este cair no essencialismo, argumentando que a valorização das experiências com a maternidade (ou mothering8) e o ideal da ética do cuidado

estariam na base da naturalização da submissão das mulheres. Segundo esta autora, a valorização da infância, a questão da criação e cuidado com crianças é uma construção social recente nas sociedades ocidentais. Foi a partir do século XIX que o amor materno tomou as formas do que ele é atualmente, e a partir daí o valor do cuidado maternal toma nova dimensão em detrimento da liberdade da mulher. O problema da maternidade se relaciona com a divisão sexual do trabalho doméstico em que “deduzindo-se o feminino da capacidade materna, define-se a mulher pelo que ela é e não pelo que escolhe ser. E não há definição simétrica do homem, sempre apreendido pelo que faz e não pelo que é” (BADINTER, 2005).

8 A atividade materna, ou traduzindo como maternagem, segundo Sara Ruddick

As autoras do pensamento maternal sustentam esse argumento como um projeto político, pois, com a ética do cuidado, as mulheres conseguiriam lançar luz a pautas menos prestigiadas no campo político, como políticas sociais, meio ambiente e educação. Dessa forma, transpor-se-ia para a esfera pública a mesma lógica da divisão sexual do trabalho, em que os homens normalmente ficam com tarefas de maior reconhecimento social, pois a inserção das mulheres nos espaços políticos, respeitando a proposta das autoras maternalistas, colocam as mulheres desempenhando papéis socialmente construídos que se revestem de naturalidade, como destinos biológicos inexoráveis que são, na verdade, construções sociais. É preciso ter cautela no uso desse argumento, pois como afirmou Susan Okin, esse tipo de discurso tende a ser apropriado por forças reacionárias, como a hierarquia católica, com intuito de aprisionar as mulheres na esfera doméstica (OKIN, 1989, p. 15, apud MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 80). De modo diferente, tem-se na história mulheres que fizeram e fazem política de forma considerada ‘masculina’ e ‘desviante’, e que tiveram carreiras bem sucedidas e foram muito influentes, como Margaret Thatcher e, atualmente, Dilma Russeff, presidenta do Brasil, eleita em 2010.

Cabem aqui dois pontos de reflexão, pois a questão do discurso de uma “política maternal” se imbrica com os estereótipos: primeiro se de fato as mulheres optam, deliberadamente, por atuar de determinada maneira e se dedicar a temas voltados ao cuidado, ou se elas são levadas a atuar assim por causa do caráter patriarcal e hierárquico da estrutura do campo político. Segundo, como a mídia se apropria desse discurso essencialista de que as mulheres tem uma ética diferenciada, voltada ao cuidado com os outros, para naturalizar hierarquias de gênero e sustentar uma forma de dominação e subordinação das mulheres pelos homens.