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A agência Xinhua tornou-se a porta-voz da ideologia nacional chinesa. Enquanto a

maioria das agências internacionais do Ocidente é independente do Governo, sendo

financiadas, em grande parte, pela mídia e por conglomerados aos quais servem, as

agências estatais devotam-se ao serviço dos seus governantes. A China, por meio da

Xinhua e do Departamento de Propaganda, faz um diário monitoramento jornalístico,

enviando as diretrizes sobre o melhor modo de divulgar as notícias.

O discurso utilizado pela agência estatal Xinhua não deixa de ser igual, porém, ao

utilizado por agências ocidentais, pois ambos necessitam convencer de que são baseados na

“liberdade de imprensa”.

Na atual conjuntura, constata-se uma tendência global em exigir a democratização

das sociedades, a crescente importância do mercado e a internacionalização de questões

internas dos países, principalmente relacionadas aos direitos humanos. Todavia, conforme

levantamento sobre a liberdade de imprensa realizada pela organização Repórteres Sem

Fronteiras (2005), a China ficou em 163º posição em 169 países.

Assim, percebe-se a necessidade do governo chinês modificar a imagem do país

perante a comunidade internacional através de um discurso, muitas vezes manipulador.

Baseando-se no estudo sobre manipulação, poder e discurso de Van Dijk, percebeu-se nas

reportagens da agência uma clara polarização ideológica entre Nós/Eles, sendo a estratégia

de auto-apresentação positiva e outra-apresentação negativa bastante presente. Assim,

notou-se a diferença entre o tratamento Nós/Eles:

- Nós: defesa, muitos detalhes, especificação, palavras positivas, ênfase no poder,

autoridade, superioridade e confiabilidade de suas fontes, apelos emocionais, utilização de

eufemismos.

- Eles: acusação, poucos detalhes, generalização, palavras negativas, ênfase da

descrença a fontes e crenças alternativas (dissidentes, por exemplo), descrédito dos

oponentes, utilização de hipérboles.

A política de abertura ao exterior e de reformas econômicas iniciada por Deng no

final dos anos 70, assim como as alterações ocorridas em todo o mundo, facilitaram a

integração econômica da China ao sistema internacional, além de terem favorecido o

aumento de seu protagonismo regional e internacional. Entre os objetivos estratégicos do

país, destacam-se a modernização, o regionalismo e o nacionalismo.

Segundo ZHAO (2006, p. 35), “[...] o Estado comunista tem explorado o

nacionalismo como compensação ou até quase como substituição para a ideologia

comunista, que perdera importância na era pós-Mao.”

Após a perda de credibilidade da ideologia comunista, muitos intelectuais chineses

voltaram-se para as idéias liberais, reivindicando uma democracia com moldes ocidentais, o

que ocasionou, em 1989, as manifestações na praça Tiananmen.

No Ocidente, o Massacre da Praça Celestial, ou melhor, Tiananmen, foi visto como

um confronto entre um Estado comunista não-reformado e um grupo de estudantes liberais

que reivindicavam mais democracia. Porém, muitos intelectuais chineses demonstram que

houve a participação de um grupo mais amplo, formado por trabalhadores que buscavam

exigências econômicas e sociais mais concretas e que participavam de uma resistência ao

neoliberalismo. “[...] Esses trabalhadores não tinham interesse algum em fazer parte do

ocidente. Na verdade, eles queriam estabilidade dos preços, segurança social e o fim da

corrupção e da especulação.” (ZHAO, 2006, p.44).

Para os dirigentes do Partido, uma das tarefas mais árduas tem sido tentar restituir a

legitimidade do regime comunista, bem como conseguir o apoios da maioria da população

– tanto os favoráveis ao Partido quanto os seus críticos. Para tanto, o instrumento

ideológico mais conveniente passou a ser o nacionalismo.

Exemplos de como o nacionalismo está surtindo efeitos são os esforços para a

escolha de Beijing como sede das Olimpíadas de 2008, e também a campanha para evitar-se

a independência de Taiwan.

A partir dos anos 90, o governo chinês iniciou uma ampla campanha

propagandística com relação à educação patriótica. Pretendia-se, com isso, expressar as

particularidades nacionais chinesas e demonstrar que não se enquadravam em uma

democracia liberal de padrões ocidentais; muito pelo contrário, deveria ser mantido o

sistema único de partido para que a estabilidade política e, conseqüentemente, o

crescimento econômico, não fossem comprometidos.

O Partido, desde então, inclui, em seu discurso, a necessidade de uma nova ética e

de um novo patriotismo – imperialista - que inclui um apelo à história e à tradição chinesa –

vide as aberturas dos jogos olímpicos de Beijing.

Nesse sentido, a legitimação do poder é buscada por meio da recuperação de

princípios confucionistas, como, por exemplo, o da força da moral nas decisões políticas. O

Governo chinês criou, inclusive, o Instituto Confúcio, destinado à difusão da língua e da

cultura chinesa. A retomada do confucionismo seria em função de seus valores estratégicos

para o Partido, como o respeito às tradições e às autoridades.

Já neste século, com a modernização do país, e conseqüente contacto com o exterior, a relação família/colectividade/Estado deu origem à identificação com um ideal de nação, cuja ‘ face’, tal como a família, é fundamental preservar junto dos estranhos. Destarte, surge como mecanismo de defesa o ideal do nacionalismo, assente na percepção da China como uma cultura superior (moral), a qual é invocada como elemento de coesão à volta de objectivos estratégicos de afirmação do Estado. (ROMANA, 2005, p.71).

O qiangguomeng (o sonho de uma China forte) é compartilhado por todos os setores

da sociedade chinesa. Segundo Zhao (2006), depois da Guerra do Ópio e da conseqüente

perda da soberania nacional para as potências imperialistas, a elite política chinesa começou

a adaptar as doutrinas de nacionalismo e, assim, o governante deveria propor e implementar

programas para a salvação nacional. No entanto, os chineses sempre estiveram divididos

sobre qual tipo de nacionalismo seguir.

A preocupação com a soberania nacional e com o poder do Estado está presente em

toda a história do país. Deste modo, China atual criou uma alternativa aos padrões

ocidentais: o ideal de um “Mundo Murado”, que faz negociações econômicas, mas que, ao

mesmo tempo, mantém o controle sobre seu sistema político e sobre sua política externa.

Para Leonard (2008), porém, não será fácil conseguir o status de superpotência, pois

é possível que a mistura do capitalismo estatal junto a mercados abertos e à política fechada

não sobreviva. Todavia, a ascensão chinesa já modificou o equilíbrio econômico e militar

mundial e agora está mudando a opinião internacional sobre política e economia: “[...]

Aqueles que afirmaram que a República Popular se tornaria mais ocidental com sua

crescente riqueza receberam prova do contrário.” (2008, p. 150)

O nacionalismo emergiu como uma corrente ideológica dentro da modernização

ocorrida no pós Guerra Fria e foi estrategicamente instigado pelo discurso do Partido tanto

na sua política externa quanto na interna, tornando-se um nacionalismo de Estado e o

principal instrumento de mobilização da sociedade chinesa.

A legitimidade passa a ser uma questão vital para o Partido frente a uma nova

realidade sociológica do país – como o surgimento de grupos de interesses que não se vêem

representados.

Pode-se dizer que já não é possível ao PCC manter um sistema fechado às

influências externas, levando os dirigentes a introduzirem medidas graduais de

reajustamento, por meio de reformas de descentralização da decisão política.

Considerando tal situação, o Partido vem reforçando a idéia de ser a única força

capaz de formular um projeto de modernização sócio-econômica e de engrandecimento do

país. Deste modo, é possível que também ocorram, futuramente, mudanças na estrutura

político-ideológica do regime.

Podem ser identificadas várias contradições entre a imagem que a China tem de si

própria, a imagem que pretende projetar e a imagem que a sociedade internacional tem

desse país, tratando-se de uma questão de posicionamento relativo da realidade observada e

da realidade observante do país.

Dentre essas contradições, podemos citar o problema de ser, ao mesmo tempo, uma

grande potência e um país em desenvolvimento, pois, apesar do rápido crescimento,

apresenta alto grau de desigualdade social. Também há uma grande contradição na

necessidade de o país abrir-se ao exterior e na sua preocupação em não permitir a

interferência externa em questões internas.

Além disso, a China passa por uma indefinição ideológica ao mesmo tempo em que

se encontra envolvida em questões internacionais – o que propicia uma atuação cautelosa

da diplomacia chinesa, considerada pragmática por resguardar os interesses nacionais.

Assim, a agência acaba sendo um importante instrumento ideológico para o PCC, na

medida em que suaviza e flexibiliza a imposição da linha política do Partido e exalta o

nacionalismo chinês a um quinto da população mundial por meio de seu discurso.

O discurso da agência, porém, é constantemente debatido pela população através de

meios alternativos, como a internet, demonstrando, portanto, a possibilidade de que outras

“vozes” sejam expostas, na medida do possível, tanto aos próprios chineses quanto à

sociedade internacional.

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