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O Diário da Dona Alzira é um caderno grande, comum, onde ela escreveu dezoito laudas, sobre o Massacre em Santa Elina, Corumbiara e o assentamento de uma parte dos sobreviventes desse Massacre no município de Theobroma. Dessas dezoito laudas uma se perdeu, sendo este trabalho limitado á apenas dezessete laudas do diário. O registro do relato do diário de Dona Alzira é escrito no intervalo de tempo pós o massacre. Ela foi escrevendo o que considerou importante sem levar em conta a ordem com que os fatos aconteceram nem a linearidade dos acontecimentos. Essa forma de escrita demonstra que ela já havia construído uma opinião sobre o fato e que seu exercício de escrita está a serviço do seu grupo. Usando palavras e exemplos próprios típicos de sua formação cultural, dando a entender autenticidades da reconstrução do fato histórico.

É lúcida na percepção da importância do Massacre para a concretização da identidade camponesa e por isso a intenção vai alem das simples palavras, mais que um trauma, é um ato de manifestação do seu ser na plenitude reveladora de toda uma vida mentalizada, sonhada, marcada pelos fatos da vida de migrante. É um instante concebido do presente que se forjou da história de um passado que expande sempre para um futuro numa negação constante do presente. Superado trauma, descreve o fato de forma sabia vai desconstruindo todo o discurso

156 que pesa como acusação sobre os seus atos, colocando todos os sujeitos históricos envolvidos no ato revelando o grau da cumplicidade de cada ator ao mesmo tempo em que resguarda e propaga a importância da luta pela terra.

Quem são as lideranças? O Manuel, o Joaquim, o fulano e o sicrano são pessoas comuns, são eles que por si só se organizam entre si, sem líderes dotados de estratégias. Dizer que se mobilizaram se organizarão sozinhos importa; porque o Estado e o poder judiciário buscavam condenação dos líderes responsabilizando-os pelas mortes. Esses supostos líderes estavam sendo bombardeados também pela imprensa. A Liga dos Camponeses pobres de Rondônia estava sendo acusada de criar um movimento armado em Rondônia, com a intenção de criar um Estado comunista. Tal noticia propagada, enfraquecia a luta. A necessidade e sonho da conquistar da terra se tornam como uma regra disciplinar em que todos comungam é o que faz com que todas as ameaças se tornem insignificante perante a certeza da união do grupo que é constantemente reforçada pelas assembléias que reforça o cuidado que se deve ter do poder do latifúndio. O movimento é bem organizado, cuidando da saúde e da alimentação de todos.

Tudo começa assim, uns mobiliza outros, não tem essa de líder como os latifúndios; chama Joaquim, Manuel; vamos sair pelas linhas zero cinco e três lixo João e Antônio vai para a quatro lixo linha dois e zero dois Maria Jandira vai para Guaraju, Rondolândia e Vitória da União; Raimundo fica em Corumbiara e todos combinam encontrar na fazenda, e quando e no dia marcado no dia 14 de julho de 1.995, acontece a ocupação, cada pessoa que chega no acampamento traz arroz e feijão; e entrega na cantina, um barracão muito grande perto dele existe uma farmácia bem organizada, a união é completa o objetivo é a terra é o pensamento de todos. (Dona Alzira). A equipe de segurança foi criada porque sofriam ameaças constantes por parte do fazendeiro.Essa segurança era defensiva, pois eles foram ameaçados antes pelo fazendeiro. Em seu relato a segurança era de homens do grupo que fazia a vigilância do acampamento. Já no inquérito do “Caso Corumbiara”, o promotor denuncia que havia o grupo armado e treinado, de mais ou menos 40 homens que compunha a guerrilha. Eles eram conhecidos pelo grupo como segurança. Cai sobre eles também a denuncia de cárcere privado; pois eles recolhiam os documentos de quem chegava a Santa Elina, impedindo o direito do sem terra sair do acampamento quando quisesse. Para ela ter a equipe de segurança era tão normal que ela descreve no mesmo parágrafo o Estado de Espírito do Acampamento que é de assembléias, animação e alegria.

E o tempo passa e começa a perseguição; jagunços querendo invadir o acampamento, homens e mulheres do campo são pessoas organizadas nós, jamais vamos dormir nada de segurança, nós mesmos somos a segurança, uns olha os outros, todos contribui para que nada dê errado, tudo tem horário, sempre tem nossas assembléias, para nossos informes, muita animação dos companheiros e companheiras, nada nos faz ficar tristes. (Dona Alzira). Na madrugada que do dia 09 de agosto, quando a policia invade o acampamento, Dona Alzira compara a uma guerra, um filme de “bang-bang”, ou de terror. Eram três horas da manhã quando a policia entrou no acampamento, houve gritos e um clarão na mata provocado por fogo, tiros e bombas. As mães tentam proteger os filhos. A tentativa de salvar os bebês da

inalação da fumaça das bombas de gás lacrimogêneo com vinagre, não deu certo, pois os bebes morreram por causa das bombas de gás que ela chama de “névoa do mês de agosto”. Crianças perdidas dos pais tentavam encontrá-los apavorados. A polícia se diverte com o sofrimento alheio. Eram muitos policias, pois a derrubada ficou escura, por causa da cor escura da farda da policia. Ela pedia a Deus que amanhecesse. O anunciado do fazendeiro se cumpriu, a polícia cumpriu o que o latifúndio projetou.

Às três horas da manha começa a grande chacina, gritos horrível, clarão na mata, fogo, tiros, bombas de gás, só se via mães com nenês nos braços gritando: Jesus tem misericórdia dos meus filhos. Pessoas correndo de um lado para outro com lenços ensopado de vinagre socorrendo criançinhas, meninos e meninas apavorados gritando os pais e o ratatata das metralhadoras cada vez mais aproximando, parecia um filme de bang bang ou mesmo de terror.Todos apavorados, e parecia que os policiais se divertiam com tudo aquilo sem ter compaixão com os inocentes. Criançinhas de dois e três meses que morreram depois, fumaça branca junto com a névoa do mês de agosto. Eu pedi a Deus que clareasse para que nos pudesse enxergar alguma coisa. Companheiros e companheiras, parecia um cenário de guerra. Logo amanheceu e podia ver a sessenta metros a policia do batalhão de choque de Porto Velho, quando olhei do lado onde tínhamos feito uma derrubada, estava escuro de policiais invadindo o acampamento. (Dona Alzira).

Havia homens sem a farda, foram esses homens sem farda que começaram a atirar, atingindo o batalhão de choque da policia. Essa atitude exime tanto os sem terra quanto a própria policia da responsabilidade de ter começado a atirar, o que provocou o massacre. No inquérito do Massacre a promotoria denuncia que foram os seguranças dos sem terra que atiraram na policia. A estratégia de um bombardeio noturno se cumpriu e a prova estava nos jagunços infiltrados no meio dos policiais e começaram a atirar na policia. O que ela denuncia não é a policia é o poder do latifúndio. Que em Rondônia pode até se infiltrar no meio da policia para expulsar os sem terra.

Roupas, policiais vestindo uniforme azul claro que não muito combinava com as cores dos outros uniformes, com botina k-chute, começaram a atirar no batalhão de choque, para dizer que éramos nós, até que acertaram um deles, um policial encapuzado mandou abrir fogo nos jagunços estes se afastaram para o outro lado do acampamento (...). Diminuíram os policiais, eu queria saber o porquê aqueles homens vestidos de soldados falsos tinham desaparecido rapidamente. Chegando ao campinho do assentamento Adriana lá tinha policia, encapuzado. (Dona Alzira).

A descrição da tortura, só poderia ser feita por alguém do próprio grupo. O diário denuncia as várias formas. Nessa descrição ela lembra que destruíram os alimentos e a botija de gás explodiu e quase matou uma criança.

A coisa foi feia na cantina, furaram os tachos com machado, já tinha feijão cozido, arroz derramou tudo, banha óleo, começou a queimar o barraco, um botijão explodiu quase mata um menino. (Dona Alzira).

Suas bolsas com documentos, cigarros e dinheiro foram levadas pelos policiais que roubaram o dinheiro e os cigarros e queimaram o resto em uma fogueira. A partir daquele momento eles não tinham mais nada, como ela lamenta em outra parte. “Barbaridade; nossos documentos, roupas foram queimados”. Aqui não importa se foram os seguranças que

158 apreenderam os documentos dos sem terra, como o promotor denunciou, pois a policia queimou tudo.

Dava pra ver eles nos extorquindo, catando maços de cigarros, dinheiro, uns iam aos barracos trazia as bolsas eles despejava e caçava dinheiro e jogava a bolsa no fogo. (Dona Alzira).

O estado de insanidade da policia ao cometer os assassinatos e torturas eram tão bárbaros que ela diz que pareciam estar drogados. Tanto que ela faz questão dizer que é policia de Rondônia. Assinalando que em Rondônia, não se cumpre a Lei. O pobre não tem direito. De que Rondônia será ela? Da Rondônia do poder político estabelecido, ou da sociedade civil organizada? Os atos de barbárie revelam não uma Rondônia, mas uma lei, a lei de um poder hegemônico.

Os policiais pareciam drogados, pegavam o moto serra matavam companheiro partido suas cabeças os miolos mexendo, cortava ele da guela até o umbigo e gritava: Aqui e policia de Rondônia. Juntava de dois e amarravam quatro homens neles amarrados, e falavam: quer terra porcos? coma ai. E metia o rosto dos coitados no chão. Davam chute no rosto que abria buraco nos companheiros. (...) Pegaram o Felipão, o colocaram no chão parecia que estava batendo feijão, o coitado até hoje quase não pode trabalhar no sol quente. (Dona Alzira).

Dona Alzira ainda tenta mostrar aos policiais que não existe diferença entre trabalhadores, tentando formar uma consciência de classe, como aprendeu no movimento. Pois os dois são explorados. Ela mostra também a interdependência entre o campo e a cidade. Apontando a saída ideológica e política, que é a união dos camponeses e operários. Discurso que não convenceu e talvez não convença a policia do Estado.

Amigos policiais, para que tanta perseguição? Nós somos pequenos agricultores, fracos mais honestos, olhe sua mesa no almoço o feijão arroz óleo e tempero, quanto sol e chuva levamos nas costas, suor derramado e vocês ai com suas maldades protegendo, protegendo a burguesia, vocês vivem deste misero salário que o governo paga salário de fome. (Dona Alzira).

As torturas contra mulheres e as crianças foram diferentes. O caso mais forte foi quando as mulheres foram tomadas como refém e foram espancadas para seguir os policiais. A violência moral foi descrita com as ameaças, xingamentos e humilhação. Elas foram humilhadas ao serem carimbadas antes de ser despejadas no salão paroquial. Lembrando as vítimas do nazismo nos campos de concentração. Ela conta que uma mulher só apanhou porque eles pensaram que ela era homem. O que comove é a descrição do trauma das crianças indefesas verem seus pais serem torturados e mortos e o temor das mulheres ao perceberem que se saíssem da cena do crime, seus companheiros morreriam.

As crianças gritavam não bata no meu pai pelo amor de Deus. Sangue dentro do acampamento parecia água no chão. (...) Começaram falando: Temos que sair com elas, a ai gritou: Vamos fazer fila. Barbaridade nossos documentos, roupas foram queimados. Diziam: e saiam logo, rápido se não perdemos a paciência. Aquela enorme fila de mulheres e crianças ia saindo. Pensei logo, eles vão matar todos os homens que ficar, porque só se ouvia tiros. (...) Por causa das crianças pequenas, eles concordaram só que eles ficaram carimbando, falta de capacidade desses homens carimbar mulher, onde já se viu, ai elas foram também para a igreja, lá existe um salão paroquial bem

grande. (...) Eles pegaram a Rose, bateram nela tanto pensavam eles que ela era homem, ela teve que mostrar os seios. (Dona Alzira).

Mesmo pessoas que não eram do grupo e que estava no local apenas para registrar também foram ameaçados e torturados. A polícia não queria que o fato fosse registrado como realmente ocorreu. Esses registros foram tão importantes para divulgar o fato que para Dona Alzira diz que o fotografo presente no Massacre foi um herói.

Eles falaram assim: olha um retratista, pegou o coitado bateram nele tanto e cortaram um pedaço de sua orelha, ele é o Pantera, um companheirão de luta, te admiro muito. Foi o único que apanhou junto com a gente. (Dona Alzira). As mortes aconteceram de diversas formas, execução com vários tiros dos seguranças da figueira onde as mulheres foram usadas para que eles se rendessem. Cortados com moto serras, castrados, com olhos furados. Esses crimes de morte e tortura cometidas pela policia de Rondônia, soam como lenda ou mito. No documentário “Corumbiara nunca mais”, feito pela CUT, o repórter pergunta para um sobrevivente, se ele também comeu miolo, ele responde que apenas colocou na boca e depois jogou. Esse testemunho não pareceu autêntico. Somente um tempo depois o movimento começa através de Dona Alzira a fazer o trabalho de controle da imagem do Massacre, para provar sua veracidade. Muitas pessoas davam testemunho e isso fugia do controle da construção da memória que se queria fazer do grupo. Na escrita de Dona Alzira ela quer provar a veracidade dessa atitude absurda da policia, de assassinar cortando com moto serra, obrigar as vitimas a carregar os mortos comerem os miolos e beberem o sangue humano. Por isso ela diz que basta olhar atentamente nas fotos dos jornais que o fato pode ser provado, pois nela os homens mortos nos caixões estão remendados de cima a baixo. Como ela diz: do umbigo até a goela. Em seu relato o fato não é mito nem lenda, quem comeu miolo foi o Jê e quem bebeu sangue humano foi o Bicudo. Ambos estão vivos e podem dar seu testemunho.

Pegaram um coitado e mataram a faca, pode ver no caixão, no folheto, homens remendados. Pegaram um homem que parecia o Buriti e mataram, pegou outro e caparam e furaram os olhos, dizendo ser o topa tudo. Fizeram o Jê comer o miolo o Bicudo beber o sangue humano. (Dona Alzira). Verifica-se na construção da memória do massacre feito por Dona Alzira que ela reconstrói o Massacre com base em suas memórias herdadas pelo seu passado, moldada nas ideologias dos movimentos sociais de luta pela terra em Rondônia. Ela desconstrói a memória oficial do Massacre. Procura denunciar crimes de assassinatos e de torturas mostrando provas mais concretas, como seu testemunho de seus companheiros e fotos. Tais descrições querem provar que sua memória é autêntica. O fato de escrever deixa essa memória guardada, ou seja, construída. Os sem terra que sobreviveu são donos de seu próprio destino, mesmo à custa de seus companheiros mortos, constroem a sua historia na luta pela terra em Rondônia. Eles são verdadeiros heróis que poderiam estar em um filme. Porem ela não quer nem aceita porque essa memória em disputa ainda é muito frágil, está em disputa com a memória oficial. Na memória oficial os Índios, Seringueiros e Ribeirinhos; são sempre retratados ou ocultados

160 como insignificantes. Nessa nova memória, esse grupo representado pelos sem terra são representados como ladrões de terra. A memória que se quer construir ainda é frágil.