• No results found

No contexto em que se insere nossa cartografia, fazemos menção aos acontecimentos chilenos que nos sugerem repetições e que aglutinam novas maneiras de protesto e de expressão em torno de situações muito similares as questões impostas pelo neoliberalismo. Portanto, tais cacerolazos chilenos vão se apresentar como repetições e produção de diferenças e multiplicidades; isto é, são ritornelos sonoros10 a favor da vida.

No recente ano de 2011, outra grande agitação verificou-se no Chile, sobretudo em dois importantes cacerolazos ocorridos. O primeiro a ser relatado ocorreu no início de maio do ano mencionado e diz respeito à aprovação do projeto hidroelétrico HidroAysén, que contempla a construção e a operação de cinco centrais hidrelétricas, duas no rio Baker e três no rio Pascua, localizados na região de Aysén, ao sul do Chile. Segundo o site chileno de notícias El Ciudadano, o projeto foi aprovado por 11 votos a favor e um contra, em meio a uma atmosfera tensa marcada por um protesto de mil pessoas em frente à Prefeitura Municipal de Coihaique, onde teve lugar a votação. A população como um todo se manifestou contra esta construção, que evidenciou em seu projeto irregularidades nos processos e tramitações da obra, além do fato de que diversos grupos ambientalistas advertiam sobre os impactos ambientais negativos de tal obra na região.

O outro cacerolazo e série de protestos de grande relevância no cenário atual chileno nos últimos quatro meses, que obtivemos informações por meio das mídias e dos sites alter-latina.com e operamundi.uol.com.br, e onde se insere de fato nossos trajetos cartográficos, foram iniciados em agosto de 2011 e se estendem até as datas recentes em que se finaliza esta pesquisa, em 2013. Tais cacerolazos dizem respeito ao fortalecimento do papel do Estado na educação, à garantia do acesso à

educação pública gratuita e de qualidade, reivindicando o fim ou diminuição das atividades com fins lucrativos no setor educacional.

Figura 2 – Manifestações em frente a Universidade Pública do Chile, 2012

Fonte: Elaborada pelo autor

Em recente publicação o geógrafo e pesquisador Fábio Betioli Contel (2011), em parceria com a socióloga Manolita Correia Lima (2011), lança o livro Internacionalização da Educação Superior que aborda criticamente sobre estas questões que ocorrem não somente no Chile, mas em diversos países. Em entrevista cedida à Luciana Araújo e publicada no site operamundi do dia 18 de setembro de 2011, intitulada como: “Chile mostra esgotamento do modelo 'privatista' de educação superior”, os autores criticam o modelo educacional definido por critérios mercadológicos — que levou, por exemplo, aos protestos contra o aumento das taxas anuais de empréstimo estudantil nas universidades inglesas — e defendem uma “universalização cooperativa”.

Segundo os autores, o livro parte de analises diversas acerca dos períodos de implementação de políticas de intercâmbio de conhecimento em sete países (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, Canadá, França, Brasil e Chile). Ao comentar sobre estas ações, em recente entrevista ao site Opera Mundi (2011), Contel afirma que:

que o conhecimento – meio e fim das universidades – tende ao universalismo; por isso a internacionalização em moldes cooperativos não só é desejável, como necessária, se quisermos construir uma “globalização solidária” (OPERA MUNDI, 2011),

Contel e Lima apontam que as causas principais dessa internacionalização desigual e hierárquica existente hoje entre as universidades dos países ricos e dos paises em desenvolvimento é que seus critérios são meramente mercadológicos, definidos pelos esquemas financeiros, como a OMC e o Banco Mundial.

Diante disso Contel diz que:

Obviamente não podemos esperar do Banco Mundial soluções de caráter universal. Nenhuma instituição financeira vinculada a interesses dos países centrais pode ajudar na consolidação de sistemas nacionais de ensino superior nos países periféricos, afirma o geógrafo. Pelo contrário, sua ação é em grande parte determinada por raciocínios eminentemente contábeis, tendo nos mecanismos de mercado o grande elemento de definição das políticas (OPERA MUNDI, 2011).

Dando continuidade, o autor alerta que se houvesse e fosse possível uma vontade política por parte dos governos e dirigentes universitários de países, poderia se “aumentar as solidariedades acadêmicas”, o que permitiria maiores relações entre as universidades do centro periférico e, assim, estas relações seriam menos hierarquizadas que os intercâmbios com o centro.

Desta maneira fazendo um paralelo com as lutas dos cacerolazos chilenos, os autores finalizam a entrevista e nos permitem perceber que ao se estabelecer relações acadêmicas com os países centrais, deve se criar uma postura mais pragmática das políticas de internacionalização que são implementadas nos países periféricos. Isso pode suprir carências em áreas específicas de acordo com os projetos nacionais e regionais destes países. Além disso, segundo os autores se faz necessário que os investimentos em pesquisa se desloquem das universidades publicas, e sejam estes também financiados pelas empresas dos países semi- periféricos.

É neste contexto que se inserem as manifestações chilenas, que reuniram cerca de cem mil pessoas em apoio aos estudantes, e suas demandas que fizeram soar as cacerolas em Santiago do Chile.

No site “diretodochile.juntos.org.br”, em matéria publicada no dia 19 de agosto de 2011, com o titulo de “O cacerolazo: estudantes secundários saem mais uma vez

às ruas”, podemos verificar a motivação de um estudante chamado Benjamim em participar do movimento. Tal testemunho de experiência é relatado no site pela brasileira Thalie Drumond. e se expressa assim:

São muitos mesmos, que cantam com orgulho que vão repetir de ano porque suas escolas estão ocupadas há três meses contra a Educação de Pinochet. Perguntei a Benjamin onde encontrava motivação para tanto, ele me respondeu que sua mãe e seu pai faziam o mesmo contra a ditadura e que agora é sua vez. Benjamin saiu entusiasmado, contando a todos como seria a tomada da escola de hoje. Sua vó beijou-o no rosto e desejou-lhe sorte. Ao fechar a porta o jovenzinho deixou para trás adultos cheios de orgulho e esperança (DIRETO DO CHILE, 2011).

As notícias descrevem que a grande adesão obtida pelo movimento no dia oito de agosto de 2011 é um reflexo do que ocorreu nos últimos dias anteriores, em especial no dia quatro de agosto, quando a repressão policial resultou em 870 detenções. Diante disso, os meios de comunicação informaram que a população chilena se solidarizou de forma potente com o movimento e diversos cacerolazos foram registrados diariamente como sinal desse apoio.

A mídia naquele período informou que o ministro da educação, Felipe Bulnes, entendeu que seria possível uma conciliação através da mediação do Congresso, mas os porta-vozes do movimento estudantil (CONFECH) afirmaram que a exigência pelo fim das atividades de fins lucrativos é um ponto inegociável e, assim, não acreditam em consenso.

Segundo o site Opera Mundi, da Uol, publicado no dia nove de setembro de 2011, a CONFECH (Confederação de Estudantes do Chile) exigiu, entre outros pontos, a suspensão da tramitação dos projetos de lei sobre a educação que estão sendo debatidos no Congresso e assim até o presente momento vem sendo realizadas diversas propostas, mesas de discussões e reuniões para um possível diálogo e negociação sobre a problemática estudantil chilena.

Enfim, o que viemos identificando neste estudo é o quanto as sonoridades dos cacerolazos se fizeram perceber como forma de expressão e luta ao contemplar diversas manifestações e possibilidades de lutas nos períodos mais diversos na América do Sul.

Figura 3 – Manifestações em prol da educação no Chile, 2012

Fonte: Elaborada pelo autor