4 Analysis
4.5 Scrip dividend
A tabela 5 mostra a associação existente entre a variável dependente autopercepção quanto à necessidade de tratamento e as variáveis sócio-econômico- demográficas e de acesso ao serviço de saúde bucal.
Tabela 5 - Relação entre as variáveis sócio-econômico-demográficas e as de acesso ao serviço de saúde bucal com
a autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico. Natal-RN, 2013.
Autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico Variáveis
independentes n (%) Sim n (%) Não p RP (95%) IC
Idade 15- 17 anos 77 (68,1) 36 (31,9) 0,896 0,969 0,791- 1,187 18- 19 anos 45 (70,3) 19 (29,7) Sexo Masculino 50 (61,7) 31 (38,3) 0,082 0,823 0,669- 1,012 Feminino 72 (75) 24 (25)
Tipo de escola que estudou anteriormente ao IFRN Pública 79 (70,5) 33 (29,5) 0,661 1,066 0,863- 1,317 Privada 43 (66,6) 22 (33,8) Moradia Outros 23 (74,2) 8 (25,8) 0,628 1,094 0,864- 1,385
Casa dos pais 99 (67,8) 47 (32,2)
Escolaridade da mãe ou responsável Ensino fundamental completo ou incompleto 41 (74,5) 14 (25,5) 0,634 1,18 0,868- 1,440 Ensino Médio 49 (68,1) 23 (31,9) 1,021 0,791- 1,317 Ensino técnico ou superior 32 (66,7) 16 (33,3) 1 Renda 1 salário ou menos 41 (70,7) 17 (29,3) 0,561 0,979 0,753- 1,272 2- 3 salários 49 (63,6) 28 (36,4) 0,881 0,677- 1,147 Mais de 3 salários 26 (72,2) 10 (27,8) 1
Tipo de serviço que teve acesso ao atendimento de saúde bucal Público 42 (68,9) 19 (31,1) 0,976 0,978 0,791- 1,209 Privado 69 (70,4) 29 (29,6) Fonte: Autor.
Nenhuma das variáveis foi associada com a autopercepção quanto à necessidade de tratamento, visto que todos os valores de p estavam acima do nível de significância considerado.
Em relação à satisfação com a aparência, a tabela 6 traz a associação entre essa e as variáveis sócio- econômico-demográficas e de acesso ao serviço de saúde bucal.
Tabela 6 - Relação entre as variáveis sócio-econômico-demográficas e as de acesso ao serviço de saúde bucal
com a satisfação com a aparência. Natal-RN, 2013.
Satisfação com a aparência
Variáveis independentes Insatisfeito
n (%) Indiferente n (%) Satisfeito n (%) p Idade 15- 17 anos 47 (37,6) 26 (20,8) 52 (41,6) 0,885 18- 19 anos 30 (34,9) 20 (23,3) 36 (41,9) Sexo Masculino 36 (35,6) 22 (21,8) 43 (42,6) 0,964 Feminino 41 (37,3) 24 (21,8) 45 (40,9)
Tipo de escola que estudou anteriormente ao IFRN
Pública 52 (39,4) 26 (19,7) 54 (40,9) 0,453
Privada 25 (31,6) 20 (25,3) 34 (43)
Moradia
Outros 16 (38,1) 11 (26,2) 15 (35,7) 0,621
Casa dos pais 61 (36,1) 35 (20,7) 73 (43,2)
Escolaridade da mãe ou responsável Ensino fundamental completo ou incompleto 28 (44,4) 14 (22,2) 21 (33,3) 0,306 Ensino Médio 31 (35,2) 21 (23,9) 36 (40,9)
Ensino técnico ou superior 16 (28,6) 11 (19,6) 29 (51,8)
Renda
1 salário ou menos 31 (45,6) 11 (16,2) 26 (38,2) 0,316
2- 3 salários 30 (31,6) 24 (25,3) 41 (43,2)
Mais de 3 salários 13 (31,7) 8 (19,5) 20 (48,8)
Tipo de serviço que teve acesso ao atendimento de saúde bucal
Público 33 (42,3) 14 (17,9) 31 (39,7) 0,635
Privado 41 (36) 25 (21,9) 48 (42,1)
Fonte: Autor.
Do mesmo modo que para a autopercepção quanto à necessidade de tratamento, nenhum dos valores foi significativo.
A associação entre esses mesmos dados e a satisfação com a mastigação está exposta na tabela 7.
Tabela 7 - Relação entre as variáveis sócio-econômico-demográficas e as de acesso ao serviço de saúde bucal
com a satisfação com a mastigação. Natal-RN, 2013.
Satisfação com a mastigação
Variáveis independentes Insatisfeito
n(%) Indiferente n(%) Satisfeito n(%) p Idade 15- 17 anos 21 (16,7) 15 (11,9) 90 (71,4) 0,725 18- 19 anos 12 (14) 13 (15,1) 61 (70,9) Sexo Masculino 12 (11,7) 16 (15,5) 75 (72,8) 0,239 Feminino 21 (19,3) 12 (11) 76 (69,7)
Tipo de escola que estudou anteriormente ao IFRN
Pública 23 (17,3) 17 (12,8) 93 (69,9) 0,664
Privada 10 (12,7) 11 (13,9) 58 (73,4)
Moradia
Outros 7 (16,7) 8 (19) 27 (64,3) 0,417
Casa dos pais 26 (15,3) 20 (11,8) 124 (72,9)
Escolaridade da mãe ou responsável Ensino fundamental completo ou incompleto 11 (17,2) 7 (10,9) 46 (71,9) 0,922 Ensino Médio 12 (13,6) 12 (13,6) 64 (72,7)
Ensino técnico ou superior 10 (17,9) 8 (14,3) 38 (67,9)
Renda
1 salário ou menos 14 (20,6) 9 (13,2) 45 (66,2) 0,391
2- 3 salários 10 (10,5) 11 (11,6) 74 (77,9)
Mais de 3 salários 8 (19) 6 (14,3) 28 (66,7)
Tipo de serviço que teve acesso ao atendimento de saúde bucal
Público 17 (22,1) 12 (15,6) 48 (62,3) 0,211
Privado 15 (13) 16 (13,9) 84 (73)
Do mesmo modo que para a percepção de tratamento e a satisfação com a aparência, a satisfação com a mastigação também não mostrou associação com esses dados.
É notório, portanto, que os fatores sócio-econômico-demográficos e de acesso ao serviço de saúde bucal não estão associados à opinião dos adolescentes, não sendo motivação para a busca de tratamento ortodôntico, nem causa da insatisfação com a estética e a mastigação.
A tabela 8 traz a associação entre a autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico e os dados normativos.
Tabela 8 - Relação entre variáveis relacionadas ao exame clínico-epidemiológico (DAI) e a mordida cruzada
posterior com a autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico. Natal-RN, 2013.
Autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico
Oclusopatias Sim n(%) Não n(%) p RP IC (95%) Apinhamento Possui 54 (81,8) 12 (18,2) 0,007 1,336 1,108- 1,610 Não possui 68 (61,3) 43 (38,7) Espaçamento Possui 42 (76,4) 13 (23,6) 0,208 1,165 0,958- 1,416 Não possui 80 (65,6) 42 (34,4) Diastema Possui (2mm ou mais) 11 (78,6) 3 (21,4) 0,554 1,154 0,863- 1,547 Não possui (<2mm) 111 (68,1) 52 (31,9) Irregularidade da maxila Possui (2mm ou mais) 34 (87,2) 5 (12,8) 0,009 1,367 1,149- 1,627 Não possui (<2mm) 88 (63,8) 50 (36,2) Irregularidade da mandíbula Possui (2mm ou mais) 67 (83,8) 13(16,3) <0,001 1,477 1,201- 1,802 Não possui (<2mm) 55 (56,7) 42(43,3) Trespasse maxilar acentuado Possui (4mm ou 40 (88,9) 5 (11,1) 0,002 1,431 1,209- 1,694
mais) Não possui (<4mm) 82 (62,1) 50 (37,9) Mordida aberta Possui 24 (80) 6 (20) 0,222 1,200 0,970- 1,484 Não possui 98 (66,7) 49 (33,3) Relação molar
Não está em chave 61 (79,2) 16 (20,8) 0,012 1,316 1,080- 1,603
Em chave 59 (60,2) 39 (39,8) Escore do DAI Precisa de tratamento 51 (89,5) 6 (10,5) <0,001 1,530 1,283- 1,825 Não precisa de tratamento 69 (58,5) 49 (41,5) Mordida cruzada posterior Possui 12 (66,7) 6 (33,3) 1,000 0,966 0,686- 1,362 Não possui 109 (69) 49 (31) Fonte: Autor.
No que diz respeito aos dados normativos, diversos problemas oclusais estiveram associados à autopercepção.
Destaque maior deve ser dado ao escore final do DAI, que apresentou valor de p altamente significativo, juntamente com a irregularidade da mandíbula que apresentou o mesmo valor, seguido pelo trespasse maxilar acentuado, irregularidade da maxila, apinhamento em um ou mais arcos e relação molar.
Em relação à percepção da necessidade de tratamento, aqueles indivíduos que apresentaram necessidade normativa de tratamento foram 53% mais classificados na categoria que percebiam necessidade de tratamento. Outras razões de prevalências que chamaram atenção foram às relacionadas com a irregularidade da mandíbula, trespasse maxilar acentuado e irregularidade da maxila, sendo respectivamente 47%, 43% e 36% mais vezes classificados na categoria que percebiam necessidade de tratamento.
Os dados normativos também foram associados com a satisfação com a aparência, mostrando similaridade ao que aconteceu para a autopercepção da necessidade de tratamento, como visto na tabela 9.
Tabela 9 - Relação entre as variáveis relacionadas ao exame clínico-epidemiológico (DAI) e a mordida cruzada
posterior com a satisfação com a aparência. Natal-RN.
Satisfação com a aparência
Oclusopatias Insatisfeito n(%) Indiferente n(%) Satisfeito n(%) p Apinhamento Possui 35 (46,1) 22 (28,9) 19 (25) 0,001 Não possui 42 (31,1) 24 (17,8) 69 (51,1) Espaçamento Possui 28 (42,4) 15 (22,7) 23 (34,8) 0,359 Não possui 49 (33,8) 31 (21,4) 65 (44,8) Diastema Possui (2mm ou mais) 8 (50) 6 (37,5) 2 (12,5) 0,042 Não possui (<2mm) 69 (35,4) 40 (20,5) 86 (44,1) Irregularidade da maxila Possui (2mm ou mais) 22 (51,2) 11 (25,6) 10 (23,3) 0,019 Não possui (<2mm) 55 (32,7) 35 (20,8) 78 (46,4) Irregularidade da mandíbula Possui (2mm ou mais) 40 (43) 28 (30,1) 25 (26,9) <0,001 Não possui (<2mm) 37 (31,4) 18 (15,3) 63 (53,4) Trespasse maxilar acentuado Possui (4mm ou mais) 25 (45,5) 14 (25,5) 16 (29,1) 0,085 Não possui (<4mm) 52 (33,3) 32 (20,5) 72 (46,2) Mordida aberta Possui 19 (52,8) 4 (11,1) 13 (36,1) 0,056 Não possui 58 (33,1) 42 (24) 75 (42,9) Relação molar
Não está em chave 35 (38,5) 22 (24,2) 34 (37,4) 0,472
Em chave 40 (33,9) 24 (20,3) 54 (45,8)
Escore do DAI
Precisa de tratamento 34 (50,7) 15 (22,4) 18 (26,9) 0,003
Não precisa de tratamento 41 (28,9) 31 (21,8) 70 (49,3)
Mordida cruzada posterior
Possui 9 (40,9) 2 (9,1) 11 (50) 0,305
Não possui 67 (35,6) 44 (23,4) 77 (41)
A irregularidade da mandíbula, o apinhamento, o escore do DAI e a irregularidade da maxila também apresentaram interferência na satisfação com a aparência.
Além desses valores, que foram comuns ao que aconteceu para a autopercepção, a presença de diastema também mostrou associação significativa.
Esses mesmos dados foram associados com a satisfação com a mastigação, como exposto na tabela 10.
Tabela 10 - Relação entre as variáveis relacionadas ao exame clínico-epidemiológico (DAI) e a mordida cruzada
posterior com a satisfação com a mastigação. Natal-RN, 2013.
Satisfação com a mastigação
Oclusopatias Insatisfeito n(%) Indiferente n(%) Satisfeito n(%) p Apinhamento Possui 15 (20,3) 13 (17,6) 46 (62,2) 0,102 Não possui 18 (13) 15 (10,9) 105 (76,1) Espaçamento Possui 11 (15,9) 13 (18,8) 45 (65,2) 0,225 Não possui 22 (15,4) 15 (10,5) 106 (74,1) Diastema Possui (2mm ou mais) 1 (6,3) 5 (31,3) 10 (62,5) 0,067 Não possui (<2mm) 32 (16,3) 23 (11,7) 141 (71,9) Irregularidade da maxila Possui (2mm ou mais) 11 (25,6) 6 (14) 26 (60,5) 0,112 Não possui (<2mm) 22 (13) 22 (13) 125 (74) Irregularidade da mandíbula Possui (2mm ou mais) 16 (17,4) 12 (13) 64 (69,6) 0,813 Não possui (<2mm) 17 (14,2) 16 (13,3) 87 (72,5) Trespasse maxilar acentuado Possui (4mm ou mais) 4 (7,3) 10 (18,2) 41 (74,5) 0,091 Não possui (<4mm) 29 (18,5) 18 (11,5) 110 (70,1) Mordida aberta
Possui 12 (34,3) 2 (5,7) 21 (60) 0,003
Não possui 21 (11,9) 26 (14,7) 130 (73,4)
Relação molar
Não está em chave 14 (15,2) 15 (16,3) 63 (68,5) 0,526
Em chave 18 (15,3) 13 (11) 87 (73,7)
Escore do DAI
Precisa de tratamento 12 (17,9) 14 (20,9) 41 (61,2) 0,047
Não precisa de tratamento 20 (14) 14 (9,8) 109 (76,2)
Mordida cruzada posterior
Possui 7 (31,8) 1 (4,5) 14 (63,6) 0,058
Não possui 26 (13,8) 27 (14,3) 136 (72)
Fonte: Autor.
Não foram encontradas muitas oclusopatias associadas à satisfação com a mastigação. Apenas o escore do DAI e a mordida aberta mostraram valores significativos. Valor próximo à significância foi encontrado para a mordida cruzada posterior.
6 DISCUSSÃO
Desde muito tempo, estudos como o de Shaw, Lewis e Robertson (1975) sugerem que adolescentes apresentam consciência e percepção desenvolvida para identificar as oclusopatias. Entretanto, segundo Peres, Traebet e Marcenes (2002) a tendência dos jovens em perceber seus problemas oclusais não tem sido acompanhada com os critérios clínicos das oclusopatias. Em seu estudo realizado em adolescentes entre 14 e 18 anos observou que os critérios normativos identificaram mais problemas do que os percebidos pelos indivíduos.
Na literatura científica pesquisada, não consta, no decorrer desse período de quase 11 anos, nenhum estudo específico realizado nessa mesma faixa etária, avaliando todas as características sobre a autopercepção quanto à necessidade de tratamento, a satisfação com a aparência e a mastigação em um mesmo estudo. É importante avaliar se houve nesse interstício alguma modificação na percepção dos adolescentes. Além disso, a pesquisa anterior foi realizada em outra realidade, no Sul do país. É importante ressaltar ainda que a adolescência é uma fase marcada por características de variabilidade e diversidade dos parâmetros biológicos e psicossociais, e a sociedade exerce forte influência sobre os indivíduos. Essa influência também se dá sobre a estética que pode ser compreendida de diversas formas, em diferentes populações, dependendo das tradições sociais e culturais (KEROSUO 1995; EINSENTEIN, 2005).
Para aferir normativamente os problemas oclusais dos adolescentes, optou-se pelo DAI visando compará-lo à autopercepção quanto à necessidade de tratamento, a satisfação com a aparência e a mastigação na presente pesquisa em virtude da sua adoção pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Federação Dentária Internacional (FDI), além de sua alta precisão e validade. Soma- se a isso o fato de ser o índice utilizado nas maiores pesquisas de saúde bucal do Brasil – SBBrasil 2003 e 2010 (BRASIL, 2010).
A faixa etária selecionada, e os dados sócio- econômico- demográficos coletados no estudo seguiram a mesma lógica do SBBrasil. Já o questionário utilizado para verificar os dados subjetivos dos alunos foi o mesmo utilizado na pesquisa de Peres, Traebet e Marcenes (2002), possibilitando grande comparabilidade de dados com o estudo que nos serviu de referência. Portanto, metodologicamente, o estudo se encontra validado, tomando como base os estudos clássicos utilizados como referência.
Em relação à amostra aqui selecionada, observa- se que a distribuição dos jovens quanto o tipo de escola que estudou anteriormente ao IFRN apresentou valores bem próximos aos da cidade de Natal, que possui 65,72% dos adolescentes entre 15 e 19 anos que estudam
em escolas públicas e 34,27% em escolas particulares (EQUIPE da estatística RN, 2013). O fato da escolaridade da mãe e a renda familiar se mostrarem bem distribuídas, tendo percentual de resposta considerável para quase todas as classificações, revela a heterogeneidade da amostra. Esses dados nos permitem afirmar que há similaridade entre os alunos da nossa amostra e aqueles que estão regularmente matriculados na rede de ensino da cidade do Natal, garantindo assim a validade externa do estudo.
Os dados de acesso ao serviço de saúde bucal revela que os adolescentes realmente tem procurado atendimento odontológico, e esse fato corrobora os dados positivos encontrados no SBBrasil. A melhoria encontrada em muitos dos problemas de saúde bucal pode ser um dos motivos do aumento da procura pela estética (BRASIL, 2010).
Isso se revela no nosso estudo na grande busca por tratamento ortodôntico, na alta taxa de percepção de necessidade de tratamento e na grande insatisfação com a aparência. No estudo de Peres, Traebet e Marcenes (2002), algum tipo de oclusopatia foi encontrada em 71,3% dos jovens, e alguns desses problemas oclusais foram aceitáveis pelos mesmos, visto que o percentual de adolescentes que achavam que precisavam de tratamento foi inferior à necessidade normativa (61,1%). Já no presente estudo, a percentagem de indivíduos que perceberam necessidade de tratamento (68,9%) superou a prevalência de oclusopatia encontrada (57,7%). Esse fato já havia sido registrado por Marques (2009) na cidade de Belo Horizonte, MG. Utilizando o mesmo índice normativo, o pesquisador encontrou uma prevalência de oclusopatias de 49% e o desejo em receber tratamento ortodôntico foi de 78%. Assim como encontrado em nosso trabalho, até mesmo quem não tinha nenhum problema oclusal se percebia como tal. Esses números mostram que o jovem de hoje se encontra bastante exigente em relação a si mesmo, podendo ser indício que não existem limites pela busca da estética. Tal aspecto pode ser embasado por Elias, Cano, Mestriner Júnior e Ferriani (2001). Segundo esses pesquisadores, o jovem tende a comparar seu corpo com um modelo, e busca aspectos da sua cultura. Ele afirma que a importância da boa aparência física em nossa sociedade é consenso.
Uma maior prevalência de oclusopatias (76%) foi encontrada por Soares (2011) em um município vizinho a Natal, em uma faixa etária semelhante a nossa. Dessa percentagem, 52% se encontravam na forma severa ou muito severa. Um contraponto social pode ser feito por se tratar de uma população com uma menor renda e menor acesso aos serviços de saúde. A prevalência de oclusopatias encontrada em nossa pesquisa pode ser comparada as duas grandes pesquisas nacionais (SBBrasil), principalmente a de 2003. Em 2003 a prevalência encontrada foi de 53,23%, sendo que 32,79% se encontravam na forma severa ou muito
severa. Em 2010 a prevalência foi de 38,2%, sendo que 16,9% se encontravam na forma severa ou muito severa. Diversos outros autores, em vários países do mundo, também encontraram alta prevalência de oclusopatias, porém esses dados não foram analisados em relação aos problemas percebidos. (BRASIL, 2010; CARTES-VELASQUEZ; ARAYA; VALDÉS, 2010; HANGCOCK; BLINKHORN, 1996; MANDALL, 1999; PAULA JUNIOR, 2009).
A associação entre as variáveis sócio- econômico- demográficas e as variáveis relacionadas à percepção individual reforçou a teoria de consenso citada no texto (ELIAS; CANO; MESTRINER JÚNIOR; FERRIANI, 2001), já que os resultados mostraram que não houve associação entre elas. Pode- se interpretar que qualquer indivíduo, independente da sua condição social e econômica, pode estar igualmente afetado quanto à autopercepção da necessidade de tratamento, satisfação com a aparência e com a mastigação. Esse achado também foi encontrado em outros estudos como o de Marques et al. (2005 e 2009), Danaei e Salehi (2010), Tessaloro, Feldens e Closs (2012). Todas as pesquisas reafirmam que a preocupação com a boa aparência ocorre de forma generalizada em toda sociedade.
A associação existente entre a autopercepção quanto à necessidade de tratamento e os dados normativos foi encontrada anteriormente por Peres, Traebet e Marcenes (2002). Em seu estudo, os autores encontraram associação entre essa e o escore do DAI, o apinhamento e a irregularidade da mandíbula. Pode-se observar um menor número de problemas associados do que o encontrado atualmente, que mostrou associação também para a irregularidade da maxila, trespasse maxilar acentuado e relação ântero- posterior alterada. Marques et al. (2009), estudando adolescentes entre 14 e 18 anos também encontrou associação significativa para quase todos os problemas encontrados em nosso estudo, exceto irregularidade da maxila. Há unanimidade em afirmar que isso se justifica pelo fato de que os problemas que afetam a região anterior dos dentes são os mais percebidos pelos pacientes. O destaque que alguns problemas oclusais receberam, como a irregularidade da mandíbula e o apinhamento, se deve por esses terem sido os mais prevalentes.
Analisando a associação entre a satisfação com a aparência e os dados normativos foram encontradas diferenças interessantes ao estudo de Peres, Traebet e Marcenes (2002). No trabalho realizado por eles, apesar de alguns problemas isolados mostrarem significância, como o apinhamento e a irregularidade da mandíbula, a maior parte dos indivíduos que possuíam oclusopatias estavam satisfeitos com sua aparência (62,3%). Os trabalhos realizados recentemente, como o de Tessarolo, Feldens e Closs (2012) e Danaei e Salehi (2010) se assemelharam ao presente trabalho, e associação foi encontrada entre o DAI e a satisfação
com a aparência. A pesquisa de Tessarolo, Feldens e Closs (2012), apesar de ter sido realizada em uma faixa etária inferior, revelou associação também para o apinhamento, irregularidade da maxila e irregularidade da mandíbula (os mesmos problemas que afetaram o grupo de adolescentes da presente pesquisa). Esse fato, segundo Peres, Traebet e Marcenes (2002) tem uma explicação semelhante ao que aconteceu para a percepção de tratamento. Problemas ortodônticos na região dos dentes posteriores parecem não ter impacto na satisfação com a aparência e na percepção da necessidade de tratamento ortodôntico. Isso pode ser demostrado no presente estudo pela ausência de associação dessas duas variáveis com a mordida cruzada posterior.
Em relação à satisfação com a mastigação, a pesquisa também seguiu a mesma tendência dos trabalhos anteriores. Entretanto, os trabalhos existentes na literatura, dentre eles o de Peres, Traebet e Marcenes (2002), Moura e Cavalcante (2007), Tessarolo, Feldens e Closs (2012) e Danaei e Salehi (2010) não mostraram nenhuma associação significativa e o atual, apesar de pouca associação, mostrou alguma. É importante ressaltar que esses dois trabalhos mais recentes foram realizados em indivíduos mais jovens, que tendem, segundo Phillips e Beal (2009) a avaliar seus problemas oclusais mais positivamente. E mesmo encontrando associação para duas variáveis no presente estudo, a insatisfação com a mastigação quando comparada à insatisfação estética foi mínima. Dessa forma, fica evidente a importância dessa última para o grupo estudado. Dentre os achados sobre a mastigação, o único problema isolado que teve associação foi a mordida aberta anterior, o que é coerente, pois a ausência de contato dificulta, de fato, a mastigação. Em relação ao escore do DAI, é fácil entender que pequenos problemas isolados que não repercutem na mastigação, quando somados, podem afetar tal função. Entretanto, é necessário mais estudos para comprovar esses achados.
Vários trabalhos existentes na literatura demostram uma maior importância ao fator estético. Soares (2011) em seu estudo com adolescentes da mesma faixa etária em questão, em um município vizinho a Natal, encontrou que os indivíduos que possuíam dano estético positivo estavam com a qualidade de vida mais afetada, achado esse corroborado por Barnabé e Flores-Mir (2006). Os autores observaram que alterações na relação ântero- posterior dos dentes, com ênfase no segmento anterior, tinham um grande impacto na qualidade de vida. O impacto na qualidade de vida observado nesses trabalhos pode representar que os adolescentes realmente se preocupam com tal fator. Shaffiula, Chandu e Shivakumar (2009) ainda foram mais enfáticos, e afirmaram que a busca pelo tratamento ortodôntico está basicamente influenciada pelo desejo de uma aparência mais atraente.
Para alguns autores, o desejo de possuir uma boa aparência não é mais encarado como sinal de vaidade. Em uma sociedade tão competitiva, boa aparência se tornou uma necessidade. Existem ainda aqueles que acreditam existir uma associação do uso de aparelho ortodôntico com “modismo”. Em adolescentes esse fato pode ser verdade, visto que essa fase se caracteriza, dentre outras coisas, por anseios e esforços em alcançar os objetivos relacionados às expectativas culturais da sociedade em que vive (EISENSTEIN, 2005; MARQUES et al., 2005; BADRAN, 2010).
Sendo ou não “modismo”, é fato que o tratamento ortodôntico, quando bem realizado, pode beneficiar quem o recebe, como confirmado na pesquisa de Bandran (2010). Em seu trabalho ele verificou que pacientes que realizaram tratamento ortodôntico melhoraram sua auto-estima. O mesmo também foi verificado por Borges, Peres e Peres (2010) e Feu, Oliveira, Celeste e Miguel (2012).
Os resultados da pesquisa apontam para a necessidade da continuidade dos estudos sobre a incorporação dos critérios subjetivos aos normativos, visando reduzir as muitas lacunas existentes neste campo. Entender como e quais oclusopatias são perceptíveis para os indivíduos e, consequentemente, podem causar impacto negativo na vida dos mesmos contribuirá na definição dos critérios que priorizarão o tratamento ortodôntico.
Os problemas de saúde bucal têm sido cada vez mais reconhecidos como importantes causadores de impacto negativo na qualidade de vida dos indivíduos e da sociedade. A Organização Mundial da Saúde, através dos seus relatórios, reconheceu que as doenças bucais causam dor, sofrimento, constrangimentos psicológicos e privações sociais, acarretando prejuízos em nível individual e coletivo.
Por se tratar de um problema de saúde pública, as oclusopatias merecem ser tratadas como tal e, portanto, critérios devem ser estabelecidos para selecionar quem de fato deveria ter acesso e como priorizar quem mais necessita, levando-se em consideração os poucos recursos públicos disponíveis para o seu tratamento. Segundo os resultados do presente estudo, o DAI foi bastante coerente com a opinião dos adolescentes. Com isso não advoga- se dispensar esse dado tão valioso, quando possível a sua coleta. Sendo assim, em inquéritos populacionais grandes, o DAI pode ser considerado uma boa ferramenta epidemiológica no auxílio da definição e priorização do atendimento ortodôntico, a fim de contribuir para a alocação de recursos públicos para a saúde, garantindo a equidade. Já no planejamento do tratamento ortodôntico propriamente dito, o profissional sempre deve coletar todos os dados subjetivos possíveis em sua ficha clínica.
Em relação a grande insatisfação dos pacientes que já foram tratados ortodonticamente, pesquisas direcionadas devem ser realizadas a fim de verificar os motivos. O alto percentual encontrado é bastante relevante e preocupante. Tendo em vista a alta prevalência de oclusopatias e a grande demanda por tratamento, a ausência do atendimento ortodôntico no serviço público pode levar os pacientes a procurarem por serviços menos especializados, de custo acessível, e que não trazem bons resultados. Tal hipótese deve ser evidenciada em um novo estudo.
A inserção de políticas que tragam acesso ao tratamento ortodôntico é fundamental, pois como é garantido pela Política Nacional de Saúde Bucal, todos os indivíduos, independente da classe social, têm o direito de melhorar sua autoestima e seu aspecto psicossocial com a melhora da saúde bucal (BRASIL, 2010). Novos estudos devem ser realizados a fim de reforçar o embasamento científico e comprovar tal interferência.
7 CONCLUSÕES
- Alta prevalência de oclusopatias foi encontrada, e os adolescentes possuíram percepção suficiente para detectar tais problemas.
- As condições sociais, econômicas e demográficas não se associaram com a autopercepção quanto à necessidade de tratamento ortodôntico, nem com a satisfação com a aparência e a mastigação.
- Os problemas oclusais que afetam os sextantes anteriores foram os que mais se associaram à autopercepção de necessidade de tratamento ortodôntico e satisfação com a aparência. Já em relação à satisfação com a mastigação, a maioria desses problemas não esteve associada.
- Os problemas oclusais estão mais fortemente relacionados à estética do que a função mastigatória.
REFERÊNCIAS
AIKINS, E. A. et al. Self-perception of malocclusion among nigerian adolescents using the aesthetic component of the IOTN. Open. Dent. J., v. 6, p. 61-66, 2012. No prelo.