De acordo com uma das entrevistas profissionais, em que houve a descrição do processo de trabalho da avaliação neuropsicológica, há no serviço uma demanda grande de adolescentes com problema do desenvolvimento e com quadros com sequela, com impacto importante do funcionamento cognitivo. A avaliação contribui com o diagnóstico diferencial de usuários com suspeita de déficit cognitivo. Permite fazer um diagnóstico melhor, bem como indicações mais precisas de onde existe o déficit, para que o alvo do tratamento fique mais bem definido.
Esses adolescentes têm muita dificuldade no desenvolvimento, tiveram história de estimulação pobre, viveram violências e conflitos importantes na família, o que gerou ansiedade, depressão e também rebaixamento do funcionamento cognitivo. A estimulação pobre corresponde a não ter um ambiente rico de estímulo, como o estímulo à leitura, fazer um passeio diferente, ter uma brincadeira educativa. Significa a criança ter sido criada na frente da televisão, celular.
O material da avaliação foi comprado pela caixinha do Adolescentro, que é paga todo mês pelos servidores e o recurso é utilizado para melhorias no serviço, pagamento de passagem dos usuários com dificuldade financeira, financiamento da
94 festa do Adolescentro, que ocorre anualmente, compra de materiais para utilização nas consultas, grupos terapêuticos e avaliação neuropsicológica. Além da caixinha, a equipe da avaliação vendeu alguns testes mais antigos para comprar os mais novos, outros materiais foram trazidos dos consultórios particulares dessas servidoras.
A equipe é composta por duas neuropsicólogas e uma neuropediatra. Elas utilizam instrumentos padronizados. Cada neuropsicóloga chama aproximadamente 12 pacientes por vez e faz acompanhamento com eles durante mais ou menos dois meses, podendo ter, inclusive, mais de um encontro semanal. A aplicação do teste é relativamente fácil, segundo uma delas. O que demora é a quantidade de encontros para a aplicação de todos os testes, a análise de cada um deles e a confecção dos laudos.
O protocolo de organização da avaliação é o seguinte: qualquer profissional do serviço que identificar ser importante para a condução terapêutica do caso, a realização da avaliação, deve colocar o nome do paciente em lista específica. Os dados constantes são: a data que a pessoa colocou na lista (para ter noção do tempo de espera), a queixa observada pelo profissional que justifique a realização da avaliação e o nome do paciente.
A profissionais responsáveis pela avaliação pegam a lista, analisam a queixa. Posteriormente elas pegam os prontuários dos pacientes e avaliam no prontuário se há histórico que justifique a necessidade da avaliação. Os casos em que o paciente tem apenas uma consulta e não há história clínica, nem presença de exames básicos são indeferidos, porque a avaliação neuropsicológica é exame complementar, para fins de diagnóstico diferencial.
No caso de o paciente ter história clínica no prontuário e que existam os dados que embasem a realização da avaliação, ele terá agendamento realizado, situação que reflete a autonomia técnica das profissionais que executam essa avaliação, no sentido de que elas decidem o fluxo e o público alvo que tem direito ao exame. Aqueles com idade perto dos 18 anos, que estão perto de sair do serviço e o tratamento não evoluiu ou que esperaram muito tempo antes de terem indicação para a avaliação, aqueles que tiveram perícia negada, ou que estão em grave crise, ou que a perícia vai ser realizada em pouco tempo são passados na frente.
95 Recebem fita vermelha na classificação de risco. A perícia é importante para que o paciente receba os benefícios aos quais tem direito.
O tempo de espera gira em torno de seis ou sete meses, para que a avaliação aconteça. A fila ainda é muito grande, contou uma das psicólogas. Na época da coleta de dados, tinha uns 100 pacientes. O Adolescentro é o único serviço do SUS DF que faz a avaliação neuropsicológica completa, com laudo.
Há definição clara das tarefas de cada membro da equipe, como o que é papel das psicólogas (atendimento, realização do teste, avaliação), o que é papel da neuropediatra (avaliação dos usuários) e o que é papel da equipe do Adolescentro (encaminhamento dos pacientes). A clareza dos critérios de inclusão e exclusão de usuários na avaliação denota que existe comunicação entre os profissionais da avaliação neuropsicológica com os demais profissionais do serviço.
O trabalho das profissionais com o restante da equipe é importante no sentido de que o trabalho que elas fazem contribui para tomada de decisão quanto ao diagnóstico médico, na definição do diagnóstico, quanto aos benefícios que as assistentes sociais precisam conseguir, quanto ao trabalho que a terapeuta ocupacional pode realizar na reabilitação ou pode indicar para as escolas para essa reabilitação. Portanto há complementariedade entre os trabalhos das neuropsicólogas e da neuropediatra com a equipe do Adolescentro, somente quando os profissionais consultam o laudo e procuram saber o que ele significa para fazer o trabalho deles, que fortalece o trabalho em equipe.
Há interdependência, no sentido de que as autonomias técnicas existem, em cada etapa da realização da avaliação, mas essa realização depende do trabalho dos demais profissionais da equipe no sentido de suspeitarem de que os pacientes têm deficiência intelectual e, dentro do fluxo definido antes que o usuário tenha direito à avaliação, ele seja encaminhado ao hebiatra ou psiquiatra para que faça anamnese completa, de forma que a avaliação neuropsicológica seja ferramenta para comprovação do diagnóstico diferencial do retardo mental. A lista da fila de espera representa um dos modos de articulação entre as equipes, porque dependendo da avaliação dos membros da equipe, quando há possibilidade de comprometimento de moderados a grave, os casos são discutidos com a equipe da avaliação e as profissionais adiantam o usuário na fila de espera. Portanto, a
96 articulação entre os profissionais pode diminuir o tempo de espera na fila para os casos mais graves. Portanto, há evidências de que o trabalho da equipe de avaliação neuropsicológica, tanto internamente, quanto externamente, seja interação.