“É preciso modificar o meio social, ilustrando-o e interessando-o no sentido de reconhecer a necessidade dos trabalhos experimentais e a importância dos laboratórios para todas as ordens de vida e de prosperidade nacional. O que distingue hoje as nações cultas das incultas é justamente este apreço à vida do laboratório e aos seus heróis.”244
Como já se mencionou, com a I República a Universidade ganhou uma nova centralidade na realidade científica nacional, funcionando como organismo tutelar da investigação científica. Esta nova dimensão originou um movimento de concentração, sob a tutela universitária, de várias instituições científicas pré-existentes, como o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana e o Instituto Central de Higiene.
239 Note-se que datou de 1870 a primeira tentativa de organização de um Ministério da Instrução Pública,
protagonizada por D. António da Costa.
240 Lei de 7 de Julho (D.G., n.º 156, 07-07-1913).
241 Projecto de lei de 14 de Março (D.G., n.º 63, 16-03-1912, p. 1026). 242 Decreto de 7 de Julho (D.G., n.º 157, 11-07-1913).
243 Decreto n.º 159, de 13 de Outubro (D.G., n.º 239, 13-10-1913) e rectificações publicadas no D.G., n.º
244, 18-10-1913. Decreto n.º 193, de 29 de Outubro (D.G., n.º 253, 29-10-1913).
244 SILVA, A. J. Ferreira da. 1911, “A importância e dignidade da Ciência e as exigências da cultura
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A vontade de integrar o Instituto Bacteriológico na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa era antiga, encontrando-se no próprio Luís Câmara Pestana e na sua escolha para a localização da nova sede do Instituto. Durante a primeira década do século XX esta tendência acentuou-se:
“Existe, por exemplo, na cidade um instituto bacteriológico […] que poderá constituir um elemento de educação médica de primeira grandeza. Na escola de Lisboa nem há cadeira ou curso de bacteriologia nem as correspondentes instalações materiais. Por outro lado, o ensino de bacteriologia faz parte da educação de um clínico. Não está assim indicado que se aproveitem o Instituto Câmara Pestana e o seu director, que por lei já é professor da especialidade, para ministrarem o devido ensino aos alunos da escola? Hoje, pode-se frequentar o instituto nas condições determinadas pela lei, mas isso é facultativo, e o que a escola desejaria é que todos os seus alunos passassem pelo instituto de bacteriologia num momento dado do seu curso escolar e ali conseguissem a devida educação. […] O que aqui fica dito do Instituto de bacteriologia é o mesmo que se terá de dizer do instituto de higiene, do instituto de oftalmologia, do posto de desinfecção, numa palavra de todos os serviços que o ensino da escola possa aproveitar.”245
Esta aspiração cumpriu-se em 12 de Novembro de 1910246, data em foi promulgado o decreto que determinou a anexação do IBCP à Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Na sequência da publicação deste diploma, os serviços de hospitalização do Instituto foram entregues à administração dos Hospitais Civis de Lisboa247, o seu director, Aníbal Bettencourt, ingressou no corpo docente da Faculdade de Medicina248 e o próprio IBCP foi reorganizado. O novo regulamento, aprovado em Julho de 1911249, definia-lhe como atribuições principais: o ensino da Microbiologia na Faculdade de Medicina de Lisboa; o estudo e profilaxia das doenças infecciosas e parasitárias dos humanos e animais; a realização de análises bacteriológicas; o tratamento anti-rábico; e a preparação de soros e vacinas, entre muitas outras funções. Dedicado a três serviços principais – científico, pedagógico e assistencial –, o Instituto Bacteriológico recebia, como dotação privativa,
245 1910, “Ainda a questão da Escola médica de Lisboa”. A Medicina Contemporânea, N.º 40, 2 de
Outubro: 313-314.
246 Decreto com força de lei de 12 de Novembro (D.G., n.º 34, 14-11-1910). 247 Decreto de 11 de Março (D.G., n.º 58, 13-03-1911).
248 Decreto de 6 de Abril (D.G., n.º 81, 08-04-1911).
249 Decreto de 6 de Julho (D.G., n.º 156, 07-07-1911) e rectificação de 24 de Julho (D.G., n.º 171, 25-07-
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uma parcela do orçamento geral do Estado, uma percentagem variável das quantias cobradas pelas análises efectuadas na instituição, o produto de vendas várias – soros, produtos e animais – e uma parte das propinas de inscrição dos alunos.
Quadro 3 – Pessoal privativo do IBCP em 1911
Cargo Nome
1 Director Aníbal Bettencourt
2 Primeiros assistentes Marck Athias/ Vago 2 Segundos assistentes Nicolau Bettencourt/ Vago
2 Assistentes veterinários Miguel Augusto Reis Martins/ Ildefonso Borges 3 Primeiros preparadores João Brás de Gouveia/ António Vicente Fortunato/ Vago 1 Segundo preparador António Correia
2 Analistas Guilherme José Nunes/ Zélia Donas Botto
1 Mecânico Vago
1 Secretário Júlio da Silva Bettencourt 1 Bibliotecário Luís Augusto de Araújo Barbosa
1 Amanuense Nazareth Afonso de Azevedo
1 Maquinista Joaquim Miguel Martins
1 Ajudante de maquinista José Gonçalves 10 Primeiros serventes
3 Segundos serventes 1 Porteiro
Fonte: Decreto de 25 de Julho (D.G., n.º 172, 26-07-1911).
Seguiu-se a integração do Laboratório de Patologia Vegetal, da antiga Direcção- Geral de Agricultura, no Instituto de Agronomia e Veterinária. Associado à cadeira de Nosologia Vegetal e dirigido pelo professor da mesma, Manuel de Sousa da Câmara250, o Laboratório ficou organizado em duas secções principais – parasitas vegetais e parasitas animais –, tendo por competências a organização de um serviço sobre doenças das plantas; a realização de trabalhos experimentais sobre produtos vegetais cultivados; a constituição de uma micoteca e de uma colecção entomológica nacional; e a publicação de uma revista251. Como colaboradores, Sousa da Câmara contou com Martinho de França Pereira Coutinho, Rosindo de Morais Moniz da Maia, Mário Loureiro Ferreira, António Branquinho de Oliveira, Teresa de Jesus Lopes e António de Sousa Monteiro252.
250 Manuel de Sousa da Câmara (1871-1955) foi professor do Instituto Superior de Agronomia, deputado
durante a I República e ministro da Agricultura. Durante o Estado Novo assumiu a direcção da Estação Agronómica Nacional.
251 Artigo 9.º do decreto de 6 de Dezembro (D.G., n.º 53, 07-12-1910).
252 Em 1918 foi dotado de autonomia técnica e administrativa, pelo decreto n.º 4249, de 10 de Maio
(D.G., I Série, Supl., n.º 101, 10-05-1918). A sua direcção foi entregue a um engenheiro agrónomo, nomeado pelo ministro da Agricultura, e o Laboratório foi reorganizado em três secções: parasitas animais, parasitas vegetais e bacteriologia (decreto n.º 4249). Em 1923 foi rebaptizado de Laboratório de
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Em Abril de 1911 foi a vez do Instituto Central de Higiene e do Instituto de Oftalmologia de Lisboa serem transferidos para a tutela pedagógica da Faculdade de Medicina de Lisboa253. Instalado no Campo dos Mártires da Pátria, próximo da Faculdade de Medicina e do IBCP, o Instituto Central de Higiene era uma instituição com uma forte componente pedagógica e profiláctica, dedicando-se à formação de médicos e engenheiros sanitários e à realização de trabalhos experimentais e de análises químicas e bacteriológicas. Criado em 1899 e regulamentado em 1901254, ficou sob a direcção de Ricardo de Almeida Jorge255, funcionando na dependência do Ministério do Reino. Com a integração na Faculdade de Medicina foram-lhe ampliadas as atribuições nos domínios pedagógico, científico e assistencial, mediante a promulgação de um novo regulamento256, ficando, a partir de então, responsável pela análise “estatística do movimento fisiológico da população”;pela fiscalização dos géneros alimentícios; pela realização de análises químicas, microscópicas e bacteriológicas; pela expansão do Museu de Higiene; pela direcção do serviço de vacinação pública; pela promoção de estudos e inquéritos sobre as doenças identificadas no País;e pela elaboração do censo da tuberculose257.
Quadro 4 – Pessoal privativo do ICH no ano lectivo de 1915-1916
Director Ricardo de Almeida Jorge
Auxiliares Álvaro Augusto Celestino Dias/ António Cassiano de Moura Neves/ Augusto Lobo Alves Serviço de Química Sanitária
Químico-chefe João Holtreman do Rego
Químicos ajudantes Aníbal de Noronha/ Júlio Vidal Júnior/ Francisco Rosa
Analista Fernando Waddington
Preparadores Carlos Alberto Vidal/ Júlio de Sousa Lopes/ Francisco José Velasco Martins Serviço de Vacina e Bacteriologia Sanitária
Médico-chefe J. E. Morais Sarmento Médico ajudante Luís Pires Soromenho
Preparadores João Cardoso Jorge/ Próspero Meireles/ Francisco de Almeida e Brito Serviço de Estatística
Chefe Henrique Schindler
Patologia Vegetal Veríssimo de Almeida, dedicando-se então a três tarefas principais: investigação laboratorial, defesa contra as doenças e fiscalização (decreto n.º 9247, de 15 de Novembro. D.G., I Série, n.º 243, 15-11-1923).
253 Decreto de 6 de Abril (D.G., n.º 81, 08-04-1911).
254 Decreto de 28 de Dezembro de 1899 (D.G., n.º 15, 19-01-1900) e decreto de 24 de Dezembro de 1901
(D.G., n.º 292, 26-12-1901).
255 Ricardo de Almeida Jorge (1858-1939) formou-se no Porto, pela Escola Médico-Cirúrgica. Iniciou a
sua actividade professoral nessa instituição, sendo posteriormente transferido para a Escola Médico- Cirúrgica de Lisboa. Foi director do Laboratório Municipal de Bacteriologia do Porto, do Instituto Central de Higiene, integrou a Assistência Nacional Contra a Tuberculose e presidiu à Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa.
256 Decreto com força de lei de 26 de Maio (D.G., n.º 124, 29-05-1911).
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Fonte: Adaptado de Anuário da Universidade de Lisboa (1915-1916).
O Instituto de Oftalmologia era mais antigo. Criado em 1891258 e entregue à direcção de Gama Pinto259, o qual obtivera a sua especialização na Universidade de Heidelberg, este Instituto possuía um serviço hospitalar, um consultório e um laboratório, “destinado a trabalhos científicos relativos a assuntos de oftalmologia”260. Com a sua anexação também Gama Pinto ingressou no corpo docente da Faculdade de Medicina. No entanto, a sua actividade não foi fácil, enfrentando fases de enorme instabilidade administrativa, marcadas por processos disciplinares e por propostas de extinção da instituição261.
Ainda em Abril, na sequência da organização do ensino superior de Agronomia262, o Jardim Botânico da Ajuda seria integrado no Instituto Superior de Agronomia, adoptando a designação de Jardim Botânico e Colonial de Lisboa. Em Julho foi a vez do Laboratório de Ensaio de Resistência de Materiais, do Ministério do Fomento, passar para a dependência pedagógica da cadeira de Resistência de Materiais, do Instituto Superior Técnico, apesar de manter a subordinação administrativa e científica ao Ministério do Fomento263.
258 As primeiras tentativas para organizar uma instituição deste género dataram de 1889, pela publicação
de um decreto, em 8 de Agosto, que estipulava a criação de um curso teórico e prático de patologia e clínica oftalmológica, regido por Gama Pinto: “Acresce que presentemente se oferece uma circunstância, que muito importa aproveitar para, sem demora e com seguro proveito dos estudiosos e alívio dos enfermos, se fundar a instituição de que se trata. Acha-se na capital um nosso compatriota de reconhecida competência e notória reputação, que ocupa um lugar distinto entre os mais acreditados especialistas na oculística, e exerce dignamente o magistério numa Universidade da Alemanha, o Dr. Gama Pinto. Sendo- lhe confiada desde já, para que se não veja na necessidade de voltar ao exercício do seu emprego no estrangeiro, a direcção do curso teórico e prático da clínica oftalmológica, far-se-á uma excelente aquisição, com que muito lucrará o País e a Ciência.”, Collecção Official da Legislação Portuguesa,
Anno de 1889, Imprensa Nacional, Lisboa: 362.
259 Caetano António Cláudio Júlio Raimundo da Gama Pinto (1853-1945) formou-se pela Escola Médico-
Cirúrgica de Lisboa. Em 1886 desempenhou vários cargos oficiais na Universidade de Heidelberg, nomeadamente o de encarregado dos cursos práticos de Oftalmologia e Cirurgia Ocular, o de “privatdozent” e o de assistente de Oftalmologia. No regresso a Portugal foi convidado para a direcção do recém-criado Instituto de Oftalmologia de Lisboa. Ingressou no corpo docente da Faculdade de Medicina da mesma cidade em 1911.
260 Artigo 15.º da portaria de 6 de Fevereiro de 1891. Collecção Official da Legislação Portuguesa, Anno
de 1891, Imprensa Nacional, Lisboa: 40.
261 Em 1929, na sequência da aposentação de Gama Pinto, o Instituto passou a denominar-se Instituto de
Oftalmologia Dr. Gama Pinto. Decreto n.º 16862, de 11 de Maio (D.G., I Série, n.º 113, 21-05-1929).
262 Decreto de 12 de Abril (D.G., n.º 89, 18-04-1911).
263 Decreto de 14 de Julho. (D.G., n.º 163, 15-07-1911); NARQ/IST, fundo de Alfredo Bensaúde, “As
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Em 1913 o Laboratório de Higiene do Porto264, o Museu Etnológico Português265 e o Museu Machado de Castro266 passaram, respectivamente, para a dependência das Faculdades de Medicina do Porto, de Letras de Lisboa e de Letras de Coimbra. Como não podia deixar de ser, a sua actividade passou então a desenvolver-se em estreita articulação com os currículos universitários, auxiliando a formação de alunos e investigadores. Criado pelo Estado em 1906 e instalado no Hospital do Bonfim, o Laboratório de Higiene do Porto recebia auxílio financeiro da Câmara Municipal e destinava-se à fiscalização de géneros alimentícios. A sua integração na Faculdade de Medicina começou a ser debatida em 1912, na sequência dos trabalhos de reorganização do Instituto de Higiene, dirigido por João Lopes da Silva Martins Júnior267.
Já o Museu Etnológico Português, criado em 1893 e dirigido, desde então, por Leite de Vasconcelos, enfrentou, no período que se seguiu à implantação da República, uma enorme instabilidade, devido a conflitos recorrentes entre o director e o pessoal privativo da instituição, pela realização de várias sindicâncias e pela mudança frequente de tutela:
“[…] no plano pessoal, a crise comporta dois aspectos, sendo o primeiro o da ameaça à posição de director de Leite de Vasconcelos, decorrente da legislação sobre acumulações na função pública […] e o segundo o da contestação ao modo como eram exercidas as funções inerentes ao desempenho deste cargo.”268
A anexação do Museu à Faculdade de Letras deu-se em Agosto de 1913, seguida da reorganização do mesmo. O novo regulamento foi promulgado em Junho de 1914269 e contemplava, entre outras resoluções, a criação de três secções de trabalho: Arqueologia Pré-histórica, Proto-histórica e Histórica; Etnografia Moderna; e Antropologia Antiga e Moderna.
264 Decreto de 5 de Abril (D.G., n.º 81, 08-04-1913). 265 Decreto de 16 de Agosto (D.G., n.º 196, 22-08-1913).
266 Decreto n.º 124, de 8 de Setembro (D.G., n.º 210, 08-09-1913).
267 ADUP SEN, Livro de Actas das sessões do Senado da Universidade do Porto I, 1911-1929, “Sessões
do Senado de 26 de Fevereiro e de 30 de Março de 1912” (http://hdl.handle.net/10405/32980, consultado em 5 de Março de 2011); 1915, “Proposta de organização do Instituto de Higiene da Faculdade de Medicina do Porto e do curso especial de Higiene Pública”. Anuário da Faculdade de Medicina do Porto.
Ano lectivo de 1913-1914, Tip. Enciclopédia Portuguesa, Porto: 329-331.
268 GOUVEIA, Henrique Coutinho. 1993-1994, “A crise do Museu Etnológico Português (1911-1913)”.
O Arqueólogo Português, S. 4, Vol. 11-12: 46.
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Quanto ao Museu Machado de Castro, o mesmo passou a funcionar na dependência das cadeiras de Estética e de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra270.
Verificou-se ainda uma tentativa de anexação do Aquário Vasco da Gama, por parte da Universidade de Lisboa. Nesse mesmo ano de 1913 a Universidade tentou obter autorização ministerial para tutelar pedagogicamente este organismo, o que não foi aprovado. No entanto, reconhecendo as potencialidades do estreitamento de relações entre o Aquário e os estabelecimentos científicos universitários, o governo acabaria por autorizar a colaboração da Universidade de Lisboa na gestão do mesmo organismo, mediante a nomeação de um representante para o conselho de administração do Aquário271.
Este processo de concentração de instituições científicas sob tutela universitária foi acompanhado da organização de novos núcleos de investigação e ensino. Aos antigos e depauperados gabinetes escolares sucederam-se laboratórios pedagógicos e de trabalho experimental, cada vez mais especializados, em virtude das crescentes exigências curriculares272, dinamizados por uma elite de professores cientistas bastante heterogénea, formada nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.
Esta era uma elite homogénea no seu ideário científico mas bastante heterogénea na sua composição e na sua matriz político-social. Era constituída por professores e investigadores de diferentes origens e de distintas orientações políticas, como testemunhou Gonçalo Sampaio:
“[…] eu fui arduamente republicano; mas quando vi o partido atacado de certos achaques abandonei-o. E estou na minha: no momento actual uma monarquia honrada seria o que mais convinha ao estado do País. Mas, posta a República,
270 Decreto n.º 1127, de 2 de Dezembro (D.G., I Série, n.º 225, 02-12-1914).
271 Arquivo RUL/SPUL, Actas do Senado 1911-1916, “Sessões do Senado de 25 de Abril e de 23 de Maio
de 1914”, cota UL/S/12/121-1.
272 “In general terms, the new chairs meant a profound change in the fields of knowledge towards
systematization and specialization of all kinds of science, and in most cases, a growing research orientated concept of the role of the university teacher, particularly of the professor. […] The authority of the professor only grew if his chair emerged at the head of a special institute or laboratory.”, KLINGE, Matti. 2004, “Teachers”. RÜEGG, Walter (ed.), A History of The University in Europe, Vol. III –
Universities in the nineteenth and early twentieth centuries (1800-1945), Cambridge University Press: 129.
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que ao menos a República faça alguma coisa de bom para este desventurado torrão em que nascemos […]”273.
Para a formação desta elite terá contribuído o contacto próximo com professores com um ideário mais modernizante, como Augusto Rocha, Ferreira da Silva, Sousa Martins e Miguel Bombarda, a frequência dos novos estabelecimentos científicos, nomeadamente o Laboratório Químico Municipal do Porto e o IBCP, e o contacto regular com os principais centros científicos internacionais, pela realização de trabalhos de especialização no estrangeiro, por iniciativa dos próprios investigadores. Neste domínio podem mencionar-se os casos de Augusto Nobre, que trabalhou em Paris com Edmond Perrier e Sabatier e frequentou o Muséum d’Histoire Naturelle; de Joaquim Alberto Pires de Lima, que se especializou no Instituto Pasteur de Paris; de Sílvio Rebelo, que colaborou com Schmiedberg, Tappeiner e Alberico Benedicenti; de Azevedo Neves, que frequentou os laboratórios de Rudolf Virchow e Hansemann; de Celestino da Costa, que trabalhou com Oskar Hertwig, R. Krause, Benda, Rubner e Ramón y Cajal; e de António Pereira Flores, colaborador de Oskar Vogt, Zichen e Oppenheim274.
A reforma dos antigos gabinetes, museus e laboratórios universitários275 não se limitou a uma simples modificação nominal, tendo implicado importantes transformações ao nível da sua organização, estrutura e campo de acção. Além das tradicionais funções de apoio ao ensino teórico e de introdução ao trabalho experimental, acumularam atribuições no âmbito do ensino prático e da investigação
273 Carta de Gonçalo Sampaio a Júlio Augusto Henriques, 29-10-1910, p. 2. UCFCT Botânica, fundo JH,
pasta Ri-Sam (919), SAM (G)-110 (http://bibdigital.bot.uc.pt/obras/UCFCTBt-JH-RiSam919-SAM- G110/UCFCTBt-JH-RiSam919-SAM-G110_item1/index.html, consultado em 23 de Janeiro de 2014).
2741957, “Elogio do sr. António Flores pelo sr. Costa-Sacadura”. Boletim da Academia das Ciências de
Lisboa, Vol. XXIX: 190-204; COSTA, A. Celestino da. 1933, “Prof. Sílvio Rebello”. Lisboa Médica, Ano X, N.º 8: 470-489; HORTA, J. da Silva; DAVID, A. Morais; SANTOS, J. Cid dos. 1964, Primeiro
Centenário da criação da cadeira de Anatomia Patológica na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, Gazeta Médica Portuguesa; LIMA, J. A. Pires de. 1938, Memórias, Livraria Tavares Martins, Porto: 66; MACHADO, António. 1946, Dr. Augusto Pereira Nobre, Imprensa Portuguesa, Porto: 8.
275 Antes da reforma de 1911 a EMCL, por exemplo, era constituída pelos seguintes estabelecimentos
anexos: Museu Anatómico – Parte Normal e Parte Patológica –; Casa das Dissecações; Gabinete de Fisiologia e de Histologia; Gabinete de Instrumentos Cirúrgicos; Gabinete de Matéria Médica; Laboratório das Clínicas; Horto Botânico; Laboratório Químico e Laboratório Farmacêutico anexos à Escola de Farmácia. Por sua vez, a EMCP incluía o Gabinete de Fisiologia; o Gabinete de Histologia; o Teatro Anatómico; o Museu Anatómico; o Laboratório Nobre; o Observatório Meteorológico; o Museu e Laboratório de Higiene; o Laboratório Químico e o Laboratório Farmacêutico, anexos à Escola de Farmácia.
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científica276. Pretendia-se, deste modo, superar um modelo predominantemente expositivo e demonstrativo, por outro mais activo, experimental e positivo277.
Quadro 5 – Estabelecimentos dependentes da UC em 1910 e 1916
1910 1916
Faculdade de Medicina Faculdade de Medicina
Gabinete de Anatomia Normal Lab. de Anatomia Descritiva e Topográfica Gab. de Histologia e Fisiologia Experimental Laboratório de Histologia e Embriologia Gabinete de Anatomia Patológica Laboratório de Fisiologia
Gabinete de Medicina Operatória Instituto de Anatomia Patológica Lab. de Microbiologia e Química Biológica Laboratório de Farmacologia Laboratório de Análises Clínicas Instituto de Medicina Legal Gabinete de Radioscopia e Radiografia Laboratório de Bacteriologia Museu e Laboratório de Higiene Laboratório de Análises Clínicas
Lab. de Radioscopia, Radiografia e Electroterapia Laboratório de Técnica Cirúrgica
Instituto de Higiene
Escola de Farmácia Escola de Farmácia
Sem informações. Sem informações.
Faculdade de Matemática Faculdade de Ciências
Observatório Astronómico Observatório Astronómico
Faculdade de Filosofia Laboratório Químico