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Segundo o relato de Jomar o “tornar-se professor” começou a ser gestado no final do ensino fundamental. Naquela época, ele não imaginava que seria professor e nem tinha vontade de exercer tal profissão. No entanto, ele se lembrou de um docente da oitava série do ensino fundamental [na ocasião, era o último ano desse nível de ensino] que ministrava aulas de Organização Social e Política do Brasil (OSPB). Esse professor fazia uma abordagem da sociedade diferente da que predominava na época porque tinha uma postura crítica e procurava motivar os/as estudantes com as seguintes frases: “Vocês têm que se esforçar; Vocês são o futuro do Brasil; Você é importante”. No segundo semestre daquele ano, o referido professor solicitou que os/as estudantes elaborassem um trabalho sobre a diferença entre o dia da Independência do Brasil e o dia da Proclamação da República. Jomar se atrapalhou e não conseguiu se planejar para fazer o trabalho escolar com antecedência e, para não desapontar o professor que tanto os/as incentivavam, decidiu fazer a pesquisa no horário do seu almoço no dia da entrega da atividade.

A realização desse trabalho escolar foi importante para perceber como a sensibilidade do professor é determinante para a motivação dos/as estudantes. Jomar relatou detalhadamente como ele procedeu para fazer a referida atividade: saiu do trabalho4, pegou a

2 Como mencionado na seção anterior, trata-se de um nome fictício, indicado pelo próprio professor.

3 Todas as dimensões contam com um ou mais subtítulos que são transcrições de trechos de entrevistas ou rodas de conversa e que se apresentam como unidades de significados por sintetizar a descrição de cada dimensão da análise.

120 bicicleta, almoçou rapidamente, deslocou-se até a biblioteca, perguntou para a atendente se poderia indicar algum livro que abordasse o tema do trabalho e ela sugeriu que ele consultasse a enciclopédia. Depois de entender como funcionava a enciclopédia (era a primeira vez que Jomar consultava uma) e localizar os temas, ele tinha apenas quinze minutos para fazer as anotações e retornar para a o trabalho. Jomar pensou em passar suas anotações a limpo antes de entregar para o professor, mas não teve tempo para fazer isso.

A escola na qual Jomar cursou o ensino fundamental, segundo ele, era muito diferente das que encontramos atualmente no Estado de São Paulo porque naquela época os/as estudantes estavam, caso não se dedicassem aos estudos, mais sujeitos à reprovação. Por isso, era importante realizar as atividades e os trabalhos solicitados pelos/as professores/as. No caso do referido trabalho, havia o elemento adicional que era a identificação com o professor. Quando o professor entrou na sala no dia combinado para a entrega, ele já perguntou quem havia elaborado o trabalho e todos/as estudantes haviam feito. Jomar entregou seu trabalho em forma de rascunho e com a folha suja de suas mãos por conta de sua ocupação e o professor disse que iria aceitar o trabalho dele porque: “Eu percebo que você deve ter gasto meia hora para fazer esse trabalho (...) já pensou se você gastasse mais tempo? Se demorasse uma hora? Teria ficado ótimo!”. Quando o professor falou isso, Jomar pensou: “Puxa vida! Ele considerou toda minha história de vida”. Mesmo não tendo intenção em seguir a carreira docente, Jomar prestava atenção em tudo que o professor falava e pensava: “Eu quero ser que nem esse cara!”. Além disso, Jomar acrescentou: “Ele foi uma referência para mim (...) e procuro dar aula pensando na forma que ele abordava os temas, na maneira como ele falava comigo” (JOMAR, março de 2016, São Carlos/SP).

Jomar mencionou que terminou o ensino médio com 20 anos de idade, em 1994. Ou seja, com uma idade um pouco acima da esperada para a conclusão desse nível de ensino. Ele aponta que desde a sexta série do ensino fundamental “só podia estudar à noite” porque durante o dia trabalhava. Não alimentava expectativa de cursar além do ensino médio. Nos anos 1990, não dar continuidade aos estudos após o ensino médio era muito comum entre os jovens das classes mais desfavorecidas. Inclusive, não era raro ouvir esses/as jovens falarem: “Ah! Terminei a escola!” quando concluíam esse nível de ensino. Jomar explicitou esse entendimento da seguinte forma: “Quando eu acabei o ensino médio, eu falei ‘bom, agora não vou mais estudar, não vou fazer mais nada’” (JOMAR, março de 2016, São Carlos/SP).

4. Educação das relações étnico-raciais e ensino de Sociologia

121 se encontrar com amigos e colegas no período noturno e frequentar bares em sua cidade natal. Em determinado momento, começa a se questionar se esse tempo não poderia ser dedicado para outras atividades, como os estudos. Foi durante esses questionamentos que ele obteve informações sobre um cursinho pré-vestibular popular. Mesmo sem saber direito no que consistia o cursinho e qual seria seu objetivo, ele resolveu que seria uma boa oportunidade para retomar a dinâmica de trabalhar durante o dia e estudar à noite.

Na escolha do curso de Graduação, Jomar pensou inicialmente em Direito porque ele “não era bom em Matemática” e gostava de Geografia e História. Segundo o relato, um professor do cursinho o influenciou na escolha do curso de Ciências Sociais que Jomar prestara em uma universidade que não oferecia o curso de Direito. O referido professor salientou que o curso de Ciências Sociais seria interessante porque possibilitava “agir na sociedade, no sentido de construir, de lutar por direitos” (JOMAR, março de 2016, São Carlos/SP). No primeiro ano que prestou vestibular, ele ficou na lista de espera do curso de Ciências Sociais da Unesp-Araraquara. Esse feito o animou bastante e o motivou a continuar se preparando para prestar o vestibular no ano seguinte. No segundo ano de cursinho, Jomar se dedicou mais aos estudos e já começou a buscar informações sobre as Ciências Sociais. Depois de ler sobre o curso, decidiu que era isso que faria na Graduação. Então, ele abandonou a ideia inicial de fazer Direito e focou na área que se identificara: Geografia ou Ciências Sociais. Ele foi aprovado no vestibular para o curso de Ciências Sociais na Unesp- Araraquara e ficou na lista de espera em Geografia na USP. Por conta da proximidade da residência de sua mãe (que vivia em Ribeirão Preto/SP), optou pela Unesp-Araraquara.

No curso de Ciências Sociais na Unesp Araraquara, havia duas opções de formação: Bacharelado e Licenciatura. A ênfase era determinada pela escolha de disciplinas optativas. Como Jomar não tinha o objetivo de seguir a carreira acadêmica porque para ele a academia era uma coisa totalmente distante, direcionou sua formação para a licenciatura. Cabe acrescentar que Jomar começou o curso de graduação no final dos anos 1990. Então, a Sociologia não figurava no quadro das disciplinas obrigatórias da educação básica. Por isso, era necessário, para quem optasse pela licenciatura em Ciências Sociais, que era o caso dele, cursar muitas disciplinas de História e Geografia para obter habilitação para dar aulas dessas disciplinas nos ensinos fundamental e médio.

Outra experiência que contribuiu para o “tornar-se professor” foi a realização dos estágios obrigatórios da licenciatura. Jomar fez estágio em uma das maiores escolas de Araraquara. Durante o estágio, vivenciou situações que colocaram em dúvida seu objetivo em

122 ser professor. Como a escola era muito grande, os problemas também eram proporcionais ao tamanho da instituição. Por conta de uma confusão na atribuição de funções e para suprir a falta de funcionários, durante os estágios, ele trabalhava como inspetor de alunos e, com frequência, tinha que separar estudantes brigando. Jomar relatou inclusive que alguns estudantes pensavam que ele era segurança na escola. Não havia uma estrutura mínima para atender as demandas dos/as estudantes e em alguns banheiros nem havia vasos sanitários. Jomar acrescenta que, no estágio, se deparou com um “ambiente caótico, o professor todo nervoso, aquela veia no pescoço”. Ele complementa: “Um monte de amigo meu que estava fazendo o estágio desistia da carreira docente” (JOMAR, março de 2016, São Carlos/SP). Alguns estudantes até continuavam na universidade fazendo uma segunda graduação, mas como Jomar não dispunha desse tempo porque precisava ajudar financeiramente sua família, ele resolveu continuar sua formação e se tornar professor.

O “tornar-se professor” é motivo de muita alegria e realização profissional para Jomar. Ele sublinhou que:

sou muito orgulhoso, sou muito feliz de estar dentro da escola pública hoje, toda uma história de vida. Não estou ganhando melhor salário, se eu tivesse trabalhando de funileiro eu estava ganhando mais do que se eu tivesse dando aula (...) Mas estou muito feliz de dar aula justamente por isso, por eu estar trabalhando para um futuro melhor para nossa Nação (JOMAR, março de 2016, São Carlos/SP).

Essa satisfação e realização profissional não ocorreram no início da docência. Na verdade, elas fazem parte de um processo marcado por prazeres e desprazeres proporcionados pelos desafios e adversidades vivenciadas no início da carreira.

4.1.3.2. Início da docência – “Vou trabalhar nisso por mais que seja difícil” (JOMAR)