Com uma linha costeira de cerca 5 mil Km, excluindo os territórios ultramarinos, a França é também uma nação marítima. Com uma situação geográfica privilegiada e uma ZEE de 955 mil Km2, as vantagens do país, residem na diversidade das suas indústrias e dos seus serviços altamente competitivos. O VAB das actividades marítimas é de cerca 19 mil milhões de euros, assegurando mais de 500 mil postos de trabalho (directos e indirectos). O Quadro 12 apresenta o volume de emprego nas principais actividades marítimas no país, assim como o valor da sua produção:
Actividade Marítima Empregos
directos
(%) Produção (mil milhões
de euros) (%) Frota comercial 20 000 6,5 6,5 16,8 Portos 45 000 14,5 5 12,9 Construção naval e equipamentos 40 000 12,9 5 12,9 Offshore 25 000 8,1 5,4 14,0 Indústria náutica 50 000 16,1 3 7,8
Pesca e produtos do mar 55 000 17,7 5,7 14,8
Acção do Estado no mar 60 000 19,4 6 15,5
Investigação 4 000 1,3 0,6 1,6
Organismos de formação 5 000 1,6 0,6 1,6
Outras actividades 6 000 1,9 0,8 2,1
Total 310 000 100 38,6 100
Quadro 12. A importância económica de algumas actividades do Cluster marítimo francês Adaptado de Institut Français de la Mer (2004, pg. 6).
O Institut Français de la Mer (IFM), entidade de onde emergiu o Cluster Marítimo Francês, reconhece a dificuldade que existe em separar as actividades que são marítimas das que o não são, pelo que considera o turismo litoral à parte daquelas actividades. De qualquer forma, estima para essa actividade cerca de 200 mil postos de
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trabalho e uma produção da ordem dos 20 mil milhões de euros. A mesma entidade refere que se se tiver ainda em conta outras actividades indirectamente ligadas aos portos, então a importância do sector marítimo para o PNB nacional pode oscilar entre 5 e 10%.
Os dados da POLICY RESEARCH CORPORATION (2008) apontam para mais de 500 mil empregos nas três Áreas já identificadas – figura 33. Na Área 1, a Marinha é o principal empregador no país (mais de 55 mil empregos), seguindo-se a Construção Naval, o Equipamento Marítimo, os Portos e o sector offshore (cada um garantindo entre 30 800 e 26 800 postos de trabalho).
Figura 33. Emprego nas Áreas 1, 2 e 3 em França70
A importância do sector marítimo não se esgota no emprego, como referimos anteriormente. Por exemplo, o transporte marítimo assegura 79% das importações e
71% das exportações francesas.71 A França, uma das grandes potências comerciais do
Mundo, realiza assim grande parte do seu comércio externo por via marítima. O país dispõe de uma frota composta por navios de todas as dimensões e tipologias, sendo os armadores franceses considerados líderes mundiais ao nível das actividades marítimas de pesquisa e de serviços tecnológicos. Também a construção e reparação naval garante ao país um lugar entre os seis maiores no ranking mundial, sendo um dos
70 POLICY RESEARCH CORPORATION (2008)e.
71
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principais produtores de navios de pesquisa e de ferries de grande velocidade. Aqui é produzido 1/3 dos metaneiros em serviço no Mundo. A construção naval, integrando outros subsectores, funciona, por si só, como um Cluster, pois “Construire un navire c’est construire un système dans lequel s’intègrent des sous – systèmes” IFM (2004, pg. 12). Na exploração de petróleo e gás, subsector em franco crescimento, onde a França tem também algumas empresas líder, estima-se que mais de metade da sua produção será obtida, nos próximos anos, no offshore o que irá reforçar o papel do Cluster marítimo na economia nacional.
Os portos, englobando várias empresas e actividades logísticas e industriais ligadas ao
sector marítimo, recebem, anualmente, 370 milhões de toneladas de produtos72. A sua
localização estratégica, atlântica ou mediterrânica, torna-os portas de entrada privilegiadas na Europa, tanto para Norte, como para Sul ou Este. Também o sector das indústrias náuticas de recreio, voltado para a exportação, tem vindo a crescer nos últimos anos. Na pesca, a França ocupa o terceiro lugar do ranking das potências marítimas europeias. O sector, abrangendo a aquicultura, a produção e transformação de algas e a indústria de transformação de produtos do mar, assegura cerca de 55 mil postos de trabalho e factura 5 710 milhões de euros anuais para a economia do país. A “Acção do Estado no Mar” diz respeito, sobretudo, à Marinha (55 mil efectivos) e à polícia marítima, que assegura a vigilância marítima, controla as pescas, as actividades de pesquisa e de salvamento no mar. Tem também um papel importante no controlo da poluição e do tráfico.
Os organismos de formação ligados ao sector marítimo, empregando cerca de 5 mil pessoas e produzindo cerca de 600 milhões de euros, contemplam formação nos transportes marítimos (escolas nacionais da marinha mercante, universidades com formação marítima…), na construção naval (formação dada em escolas profissionais e centros de formação profissional…), nas pescas e aquacultura (as mesmas instituições de formação para a navegação mercantil, escolas profissionais e organismos de formação específicos), para os serviços do Estado e na oceanografia (escolas próprias da Marinha, Escola Naval… e Universidades para os estudos oceanográficos). A França
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tornou-se um dos países líder em matéria de pesquisa marinha e oceanográfica. Os principais organismos de pesquisa aplicada ao sector no país são:
- o Institut Français pour la recherche et l’exploitation de la mer, que tem por função estudar a evolução dos recursos do mar, indicar formas de exploração sustentável e melhorar os métodos de protecção do meio marinho e costeiro; tem um orçamento de
150 milhões de euros e emprega cerca de 1 400 pessoas73;
- o Service Hydrographique et Océanographique de la Marine, responsável pelo Plano Nacional de Informação Náutica, recolhe e divulga informação sobre o meio marinho e elabora documentos com carácter operacional; dispõe de dez navios e emprega 800 pessoas74;
- o Centre de documentation, de recherche et d’expérimentations sur les pollutions accidentelles des eaux, com um orçamento de cinco milhões de euros e 50 postos de trabalho75, actua ao nível da poluição das águas marinhas e interiores.
Existem, ainda ligados à pesquisa oceanográfica, o Météo France, o Centre National de la Recherche Scientifique sur l’Océanographie e o Institut de recherche pour le développement, completando um rol de instituições que, participando do Cluster, assumem um papel de grande importância na sua prosperidade e sucesso.
As actividades marítimas encontram-se organizadas em Cluster, desde Março de 2006, altura em que foi fundado o já referido Cluster Marítimo Francês, representando cerca de 120 federações e empresas. O Plano de Acção do Cluster centra-se em três eixos: - Lobbying, na medida em que intervém como uma verdadeira organização de lobbying;
- Comunicação activa e interactiva, externa e interna, assumindo-se como uma espécie de plataforma de comunicação entre os membros;
- Identificação e incremento das sinergias entre os vários subsectores ou actores marítimos franceses.
73
Dados disponibilizados pelo IFM (2004).
74 Idem.
75
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No estudo da POLICY RESEARCH CORPORATION (2008), o Cluster Marítimo Francês apresenta a composição representada na figura 34.
Figura 34. O Cluster Marítimo Francês
As relações que se processam entre estes sectores estão esquematizadas no Quadro 13, do que se destaca as muito fortes ligações entre a Construção Naval (na compra) e o Equipamento Marítimo (na venda) e entre a Marinha (na compra) e a Construção Naval (na venda).
Verificam-se, ainda, fortes relações entre o Transporte Marítimo e a Construção Naval e os Portos, entre a Marinha e o Equipamento Marítimo e no interior de sectores como o Equipamento Marítimo, a Construção Naval e o sector offshore.
152 Buyer Seller Maritime services Marine equipment Shipbuilding Maritime
works Seaports Shipping
Offshore supply
Inland navigation
Recreational
boating Navy Fisheries
Maritime services + + + + Marine equipment ++ +++ + ++ Shipbuilding ++ + ++ + +++ + Maritime works Seaports + ++ Shipping + Offshore supply ++ Inland navigation Recreational boating + Navy Fisheries +
+++: very strong relation +: mediate relation
++: strong relation blank: weak or no relation
Quadro 13. Relações inter-sectoriais no Cluster francês
Adaptado de POLICY RESEARCH CORPORATION (2008)e.
Entre os principais actores do Cluster Marítimo Francês contam-se:
- sindicatos/associações empresariais (Chambre Syndicale des Constructeurs de Navires – CSCN; Syndicat des industries des réparations navales; Union des Armateurs à la Pêche de France; Union des Ports Autonomes et des Chambres de Commerce et d’Industrie Maritimes; Groupement des Entreprises Parapétrolières et Paragazières; Groupement Industriel des Constructions et Armements Navals; Groupement Professionnel du Courtage d’Assurance Maritime et Transports; Armateurs de France); - comités representativos de algumas actividades (Comité Français de l’équipement naval; Comité National des Pêches Maritimes et des Élevages Marins);
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- representantes dos transportes marítimos e dos portos (Direction du transport maritime, des ports e du littoral);
- representantes de seguros (Fédération Françaises des sociétés d’ assurances);
- federações de indústrias (Fédération de l’industrie maritime française ou Fédération
des industries nautiques);
- organismos do Estado (Marine Nationale; Ministère de l’Équipement, des Transports
et du Logement);
- instituições de investigação e documentação (Institut Français de la Mer; Institut Français de Recherche pour l’Exploitation de la Mer; Centre de documentation - CESM).
Como referem VALLAT e PERENNEZ (2006, pg. 88) “…the spirit and will of the French
Maritime Cluster are to develop a system of mutual assistance that will allow each party to contribute to the reinforcement of the totality of «Maritime France».” O Cluster é hoje visto, e passados poucos anos da sua implementação, numa perspectiva dinâmica e dinamizadora – por exemplo, os seus membros sugeriram que este sirva como um espaço neutral de encontros/reuniões entre os diferentes actores, sejam ou não membros, para debater assuntos de interesse comum. No fundo, procura-se “…convergence goals to its members, in the hope that their implementation would contribute to the valorization of the French maritime place.”76
Associado ao Cluster Marítimo, e trabalhando em parceria, o Pôle Mer Bretagne surgiu na sequência de uma medida, tomada pelo Governo em 2004, de reforço das capacidades de inovação da indústria francesa e da maior internacionalização do país, através de uma presença mais forte nos mercados internacionais. O aumento da competitividade e da visibilidade internacionais surgem, assim, como os grandes desígnios da política que foi incrementada de dinamização dos Pólos de
Competitividade77. O Pôle Mer Bretagne surge, neste contexto, como uma associação,
sustentada pelo Estado e colectividades territoriais, de empresas, centros de
76
VALLAT e PERENNEZ (2006, pg. 91).
77“Un pôle de compétitivité rassemble sur un territoire donné, des entreprises, des laboratoires de
recherche et des établissements de formation pour développer des synergies et des coopérations. D’autres partenaires dont les pouvoirs publics, nationaux et locaux, ainsi que des services aux membres du pôle sont associés”, in http://www.competitivite.gouv.fr
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investigação, tecnopólos, universidades… envolvendo cerca de 230 actores (metade correspondem a PME’s; 28 a empresas de grande dimensão e 44 a instituições de investigação)78.
À semelhança do Cluster, o Pôle procura desenvolver sinergias, partilhando conhecimentos e competências, a fim de promover a inovação e o emprego no sector marítimo. Na governação do Pôle, os membros repartem-se por “colégios”, num total de cinco, a saber:
- Colégio 1: Grandes grupos (28 aderentes, 4 representantes);
- Colégio 2: PME’s (139 aderentes, 4 representantes);
- Colégio 3: Universidades, Centros de Formação, de pesquisa e de inovação tecnológica (44 membros, 6 representantes);
- Colégio 4: Organizações profissionais (27 aderentes, 2 representantes);
- Colégio 5: Estruturas de desenvolvimento económico no domínio da inovação (7 aderentes, 2 representantes).
Empresas e instituições de pesquisa, reunidas no âmbito do Pôle Mer Bretagne, partilham conhecimentos e competências de forma a colocarem no mercado mundial produtos e serviços competitivos.
Em síntese, a França procura, na actualidade, maximizar as potencialidades da sua localização, fomentando o Clustering aplicado aos sectores marítimos, de forma a consolidar a sua posição de potência marítima, no seio do continente europeu e no
contexto mundial. “It’s advantages are based on the remarkable natural assets and a
great diversity of resources.” (VALLAT e PERENNEZ, 2006, pg. 82).
78 Informação disponível no site (em Julho de 2008):
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