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DRIFTSANSVARLIG FOR DAGKIRURGEN A

KAPITTEL 7, SAMMENDRAG AV INTERVJUER 7.1 INNLEDNING

7.9 SAMMENDRAG AV INTERVJU MED DRIFTSANSVARLIG

Fátima [Julia Rabello] está ajoelhada aos pés da cama para uma prece noturna. Deus [Gregório Duvivier] aparece em cena, e a mulher estranha a presença dele em seu quarto. Impaciente, Deus pede para Fátima ser breve em seus pedidos. A mulher pede que sua situação amorosa seja resolvida, mas Deus afirma que é incapaz de interferir nos desejos de alguém, pois em um mundo com tantos problemas, é necessário eleger prioridades. Antes de sair, Deus lista uma série de outras situações nas quais ele nada pode fazer por se tratar de questões terrenas e pessoais.

O vídeo aborda a questão da oração, atitude presente em diversos credos religiosos, que consiste na ligação de alguém com deuses, espíritos ou pessoas falecidas através da fala ou do pensamento. O conteúdo de uma oração, feita individualmente ou em comunidade, pode ser uma simples conversa, um agradecimento, mas, sobretudo, um pedido para que determinada entidade sobrenatural intervenha com poder em algum

assunto deste mundo. A ênfase do vídeo, destacada logo no título, está nas orações de pedidos. A esquete faz humor com a maneira como os pedidos são feitos em oração e, também, com o conteúdo de tais pedidos.

O roteirista, G. Duvivier, declara-se ateu, mas pensa que se Deus existisse, ele não estaria preocupado com assuntos banais. Em sua concepção, Deus seria alguém preocupado com assuntos mais sérios. ―Eu acho uma sacanagem a pessoa ficar pedindo pra Deus coisas relativas a futebol, coisas amorosas. Por que a sua fé é mais importante do que a dos outros?‖, conclui.109 O que é problematizado, então, não é exatamente o fato de pedir algo a uma entidade sobrenatural, mas os pedidos egoístas que as pessoas se dão o direito de fazer. De acordo com essa linha de raciocínio, lemos na descrição:

Já parou pra pensar que uma oração na maioria das vezes não é uma coisa muita altruísta? Você assume que Deus, ou deuses, não tem nada melhor a fazer, ou te deve algo por anos de devoção e se vê no direito de pedir um quebra-galho. É como se fosse um jeitinho divino. Tenho certeza que Deus concordaria que um pouco de proatividade nunca fez mal a ninguém.110

O vídeo foi gravado dentro de um quarto. O elemento cênico de maior destaque na produção é uma cama e dois criados-mudos, ambos com luminárias acesas. A iluminação é fraca, recurso utilizado para demonstrar que o diálogo ocorre durante a noite. Fátima está aparentemente sem maquiagem e veste uma camisola amarela. A mulher reluta em aceitar que o pedido feito a Deus não possui relevância frente a problemas com os quais ele deveria se preocupar. Por isso, possui um tom de voz dramático, como de uma criança que pede algo insistentemente. Deus possui cabelos longos e levemente despenteados, barbas compridas e grisalhas e veste uma túnica bege de mangas longas. É alguém irritado, estado refletido no tom de voz agressivo, na gestualidade efusiva e no vocabulário permeado de expressões chulas.

O vídeo enquadra o momento de prece noturna de Fátima, mulher cristã que reza o ―Pai Nosso‖. O humor começa a ser constituído no momento em que o vídeo rompe com a normalidade da prece e introduz Deus na cena. Vejamos a primeira troca de falas entre os personagens:

[0:00 – 0:16] DEUS: Fala FÁTIMA: Deus?

109 Entrevista disponível em <https://goo.gl/KlWqh6>. Acesso em 1 dez. 2015. 110 Disponível em <https://goo.gl/VlbCeP>. Acesso em 1 dez. 2015.

DEUS: Então, parei de resolver um problema da fome na África pra vir até aqui. Então fala. Espero que seja importante. Vamos lá.

FÁTIMA: É o Senhor mesmo?

DEUS: É, porra. Tá me chamando há 30 anos e quando eu apareço tu acha estranho?

FÁTIMA: Mas você há de convir que realmente é um pouco estranho quando Deus aparece no seu quarto.

Ao contrário do trecho bíblico do livro de Salmos (125.2) que diz que Deus é onipresente, o vídeo opta por representá-lo como alguém cujo agir é limitado por questões de tempo e espaço e, por esse motivo, possui prioridades de atendimento. Dada a sua limitação – ele diz que parou de resolver um ―problema de fome na África‖ –, Deus deixa claro quais sãos os verdadeiros problemas com os quais uma entidade sobrenatural deve se preocupar [por exemplo, a situação de mais de 200 milhões de pessoas subalimentadas em um único continente].111 Após 30 anos de insistência, Deus resolve parar de resolver problemas sérios para ouvi-la. O exemplo da fome mundial é estratégia do canal para começar a fazer separação entre assuntos individuais, de interesse restrito, e assuntos coletivos, com os quais até Deus se importa, para, em seguida, contrapô-los em graus de importância. Na sequência:

[0:21 – 0:35]

FÁTIMA: É o seguinte... É que já faz um tempo que eu estou envolvida... DEUS: Onze.

FÁTIMA: O que?

DEUS: Crianças morreram na África porque você está demorando. FÁTIMA: Eu quero que o Walter largue a esposa dele.

DEUS: Puta que pariu. Caralho... FÁTIMA: O que?

DEUS: Isso você tem que pedir pro Walter, minha filha.

O pedido de Fátima surpreende e irrita Deus. A produção mostra o custo [em vidas] do pedido individual de Fátima, de que seu amante, Walter, largue a esposa. Nesse sentido, o vídeo é uma sátira às orações egocêntricas, isto é, ao uso particularista dado a religião. O Deus idealizado pelo canal não se preocupa com trivialidades cotidianas e esclarece que o problema com o Walter deve ser resolvido sem a

111 Mapa da fome 2015. Fonte: relatório ―O estado da insegurança alimentar no mundo‖ (SOFI).

intervenção divina. Todavia, Fátima recorre a outro argumento a fim de ter sua oração atendida:

[0:57 – 0:12]

FÁTIMA: Eu sou completamente apaixonada pelo Walter. DEUS: A esposa dele também é.

FÁTIMA: Mas a Mirela não merece ele. DEUS: Por quê?

FÁTIMA: Porque ela não te ama.

DEUS: E que porra que eu tenho a ver com isso?

FÁTIMA: Ué, não tem que amar você acima de todas as outras coisas? DEUS: Pelo amor de Deus, me tira dessa suruba infernal.

FÁTIMA: Você não vai punir a Mirela? DEUS: Por quê?

FÁTIMA: Porque ela não gosta de você, né?

Fátima aciona o primeiro mandamento para convencer Deus do seu direito de ser atendida. A personagem se refere ao versículo do livro de Mateus (22.37) para justificar que ―ama a Deus acima de todas as outras coisas‖ e que, por isso, possui privilégios. A sátira ao comportamento de alguns cristãos no que se refere a pedidos nada altruístas é aprimorada aqui. O vídeo, ao mostrar uma personagem que se sente no direito de conduzir o agir de Deus porque pratica o mais importante dos mandamentos, aponta para o legalismo de Fátima e, por consequência, de todos aqueles que creem que o estrito cumprimento do conjunto de regras bíblicas é requisito para que Deus cumpra desejos pessoais. Contudo, o Deus do vídeo se isenta, mais uma vez, da responsabilidade de interferir no fluxo cotidiano e na livre vontade das pessoas diante do caráter emergencial de problemas considerados mais importantes, como a ―fome, a AIDS, o ebola, genocídios de palestinos, terremotos, maremotos e tsunamis‖, segundo as palavras do próprio personagem.

Para concluir a sátira, Deus ainda cita uma série de situações sob as quais ele não pode interferir, porque cada pessoa deve buscar resolver seus próprios problemas, bem como se responsabilizar por seus atos. Trata-se de situações rotineiras, tais como truques para emagrecer, modos corretos de cozinhar determinados alimentos, formas de fugir de engarrafamentos, o tempo certo para fazer sexo, entre outras.