A história de Septimus não vai surgir só através de sua voz, Lucrezia emerge por diversas vezes no plano narrativo principal para dizer sobre o marido, parece espantada com aquele homem que dizia ouvir vozes e dizia costumeiramente que iria se matar. Há um pedido de socorro na voz desta, que, por conta das normais sociais, guarda para si o drama em que vive. Com relação a Septimus, diz: “Tinha direito a seu braço, embora este fosse insensível. E o que o marido lhe podia dar – a ela, que era tão simples, tão impulsiva, 24 anos apenas, sem amizades na Inglaterra, e que por ele deixara a Itália - era apenas um osso” (WOOLF, 2015, p.19).
Estão naquele dia aguardando para visitar um novo médico, afinal, nenhum dos anteriores havia proposto uma solução para o problema que Septimus apresentava. Apesar das visitas diárias do Dr. Holmes, este havia indicado um colega, pois não via mais solução para o caso. Enquanto estão sentados esperando, naquele dia, Septimus pensa:
Felizmente que Rezia lhe pôs a mão sobre os joelhos, com um tremendo peso, tanto que se sentiu inerte, pregado com todas as folhas iluminadas e as cores escurecendo e adensando-se, do azul ao verde-mar, como penachos de cavalo, como aigrettes de damas, tão orgulhosamente subiam e baixavam, tão soberbamente- o deixariam louco, sim. Mas ele não enlouqueceria. Fecharia os olhos; não olharia mais. (WOOLF, 2015, p.24)
Novamente é no campo do olhar que Septimus é convocado e apreendido. É requerido para que olhe para um mundo o qual ele recusa, e esse mesmo olhar que é negado ao Outro captura-o. É Evans quem olha, assim como seus médicos, assim como Lucrezia, desses Septimus foge. Quando seu olhar é direcionado, ele é tomado por aquilo que vê.
36 “Como o faz com força sentir Michael Cunnigham, a pulsão de morte atravessa Mrs. Dalloway, mas ninguém se impede de pensar que a criação do personagem de Septimus, o duplo de Clarissa, seu Doppelgänger, havia sido projetado pela autora. [...] A aliança do mundano e uma acuidade de percepção tipicamente feminina confere a Mrs. Dalloway uma qualidade jubilatória que contrasta felizmente com o tema da morte”. (tradução livre)
Precisa fechar os olhos, precisa não ver, como se para evitar que o de fora o invada e o domine.
Em determinado momento do seu texto sobre o estranho, Freud (1919) comenta que, na literatura, um recurso utilizado para causar essa experiência consiste em criar em quem lê a incerteza quanto à natureza de determinado personagem. Nos dois exemplos dados por Freud (1919) no texto, repete-se a situação de algo que comparece como tendo sido visto, uma imagem que captura e é capturada através do olhar. É justamente no campo da imagem, do que se vê, do que é capturado pelo olhar que o fenômeno do Unheimlich será tomado. Não à toa, Virginia (WOOLF, 2015, p.26) escreve:
-Olha implorou ela, pois o Dr. Holmes lhe havia recomendado que o fizesse interessar-se pelas coisas reais, ir a um music hall, jogar críquete [...]
- Olha –repetia ela.
- Olha, ordenara-lhe o invisível, a voz que agora se comunicava com ele, que era o maior dentre os humanos, Septimus, recém-chegado da vida para a morte, o senhor que tinha vindo renovar a sociedade, e que jazia como um manto, como um tapete de neve apenas tocado pelo sol, para sempre sacrificado, sofrendo para sempre, o bode expiatório, o eterno sofredor; mas ele não queria, dizia gemendo, enquanto rechaçava com um gesto da mão aquele eterno sofrimento, aquela solidão eterna.
Na psicose, os objetos parciais da pulsão ganham o caráter de objetos totais, a exemplo do que ocorre ao objeto olhar. Segundo Quinet (2002, p.221), no campo da psicose, o objeto olhar pode ser visto, “o sujeito é o olhar gozoso do Outro”, continua o autor:
Entre o sujeito e o outro, lugar de onde parte o olhar, não há barreiras; os muros são transparentes, tudo o que lhe acontece é observado. As roupas não escondem a nudez diante do olhar do Outro. A visibilidade é total; o Outro vê através das paredes, da roupa, da pele, e chega a ler pensamentos. Essa onividência do Outro, provoca horror, pois reduz o sujeito a um objeto de sua Schaulust, seu gozo de ver, seu gosto de vigiar. Na psicose, a Coisa olha. (Quinet, 2002, p.57).
O sujeito é então tomado como objeto do gozo do Outro, tendo por consequência sofrimento e aniquilação deste frente ao Outro absoluto. O olhar, portanto, não será mais um objeto perdido, mas algo pertencente ao Outro e do qual o sujeito não pode escapar. Olhar este que aniquila e que torna o sujeito equivalente ao objeto (Quinet, 2002).
Em seu delírio, Septimus fala da impossibilidade de um crime. Em um mundo que lhe parece sem lei, é natural também não haver transgressão, a morte emerge, portanto, como uma salvação, como uma saída. Para Septimus, ele e Lucrezia deveriam se matar como única forma de escapar ao mundo. Septimus relata: “Quis discutir com ela sobre a necessidade de se matarem; explicou como a gente era má; as mentiras que inventavam os transeuntes e que ele via. Conhecia todos os seus pensamentos, disse; conhecia todas as coisas. Conhecia o sentido do mundo” (WOOLF, 2015, p.60).
Em um lugar que não há espaço para o desconhecido, para a falta que mobiliza o desejo, para o enigma que emerge do Outro, a morte surge para Septimus como uma
possibilidade de renascimento, o fim de um mundo que nada mais tem a oferecer, apenas sofrimento e desesperança.
A morte, esta já havia acontecido. Estivera morto e havia renascido. Não via, mas agora podia ver. Entretanto, estava cansado de sua lucidez, como se esse total conhecimento fosse um mal que ele tinha que carregar. Podia ver os mortos, via seu cachorro se transformar em gente, ouvia os pássaros cantando em grego na sua janela, porém estava cansado. Não suportava aquela nitidez.
Mas ele próprio permanecia no alto de sua rocha, como um marinheiro náufrago. Inclinei-me à borda do barco e caí, pensou. Mergulhei no mar. Estive morto, e, no entanto, estou agora vivo, mas deixem-me descansar, suplicou (estava falando sozinho outra vez- era horrível, horrível); e, tal como, antes de despertar, as vozes dos pássaros e o rumor das rodas se confundem e dialogam numa estranha harmonia, e se tornam cada vez mais fortes [...] (WOOLF, 2015, p.62).
Septimus sentia que a natureza humana o acossava. Lucrezia insistia que ele sobrevivesse, para isso recebia as visitas diárias do Dr. Holmes, tão detestado por ele. O médico receitava passeios, insistia que Lucrezia internasse o marido em uma de suas casas de repouso, repetia que Septimus precisava reagir, “são sintomas nervosos e nada mais, dizia ele” (WOOLF, 2015, p. 80). No desenrolar do delírio de Septimus, a figura do médico vai lhe estorvar:
Em suma, a natureza humana estava no seu encalço, aquela repelente besta de focinho ensanguentado. Holmes estava no seu encalço. Holmes vinha regularmente todos os dias. Tropece alguém, escreveu Septimus nas costas de um postal, e a natureza humana o perseguirá! Holmes o perseguiria. A única salvação era escapar- se, sem que Holmes o soubesse; para qualquer parte...longe do Dr. Holmes. (WOOLF, 2015, p.80)
O personagem vai oscilar entre momentos de lucidez e de total delírio, sempre remetendo à guerra, ao companheiro Evans e à descrença no mundo. Ao longo daquele único dia, Septimus parece desorganizar-se cada vez mais, até o momento em que o Dr. Holmes chega a sua casa, Lucrezia tenta impedir que o médico entre, pois já percebe a situação do marido, e mesmo assim aquele entra. Ao avistar o homem, Septimus pensa: “Holmes estava subindo a escada. Holmes ia entrar porta a dentro. Holmes diria: ‘Com uma crise hein?’ Holmes o levaria embora” (WOOLF, 2015, p.126).
Septimus, que já havia cogitado diversas formas de se livrar daquela existência, que já tinha ponderado sobre as variadas formas de sair da vida, não vê outra solução para fugir do médico, que, em sua natureza humana, o estava perseguindo, além de uma janela que se encontra aberta.
Era a ideia que os outros faziam da tragédia, não ele, nem Rezia (pois Rezia estava com ele). A Holmes e Bradshaw agradavam tais coisas. (Sentou-se no peitoril). Mas esperaria até o último momento. Não desejava morrer. A vida era boa. O sol aquecia. Se não fossem os seres humanos... Um velho que descia a escada da casa fronteira estacou e ficou a olhar para ele. Holmes já estava na porta- Isto é para
você- gritou-lhe Septimus, e arrojou-se com força, violentamente, sobre a cerca de Mrs. Filmer. (WOOLF, 2015, p.126-127)
Septimus parece representar uma imagem esplêndida da própria Virginia, novamente, sua obra não se dissocia de elementos da sua vida e escreve em uma tentativa de dar conta. Traz as alucinações do personagem muito próximas às suas, denuncia constantemente a ineficácia do tratamento dado a ela, até mesmo a forma como Septimus suicida-se remete à sua primeira tentativa de suicídio.
Ao escrever sobre Septimus, Virginia parece, mais uma vez, tentar transmitir algo de sua doença e de seu desejo de morte que, por mais que não houve logrado êxito, parecia ser sua vontade mais profunda. Escrever dessa vez sobre a loucura e a morte, servem ao propósito de tentar comunicar algo de si mesma.
“Mrs. Dalloway”, diferentemente de “Ao Farol” não parece tratar-se da elaboração de um luto, mas da exteriorização de um desejo genuíno de morte, característica magna do lugar de império da pulsão de morte.