■ Middelverdier i perioden 1973-1980
6. SALG AV TUNGOLJE
No capítulo anterior, a dissociedade apareceu como a conseqüência de um conjunto de valores e de práticas que levam a uma mescla de isolamento e de massificação. O tipo de convivência que se estabelece entre os homens parece ditado pela funcionalidade de cada um num projeto, cujas finalidades não são claras, e pela confiança na possibilidade que se possa construir uma história previsível a partir do egoísmo e do interesse bem entendido e bem atendido de cada indivíduo. Segundo Généreux, isso significava o esquecimento ao mesmo tempo da interdependência das pessoas e da impossibilidade de prever o destino de cada um.
A experiência espiritual narrada pela Bíblia, principalmente no seu começo, no livro do Gênesis, abre um universo de compreensão e, por conseqüência, uma dinâmica de vida totalmente opostos. A Bíblia aponta para um horizonte onde o ser humano não se autoproduz: ele é criado no âmbito de uma relação
- com o húmus do qual ele foi tirado;
- com o outro humano que lhe é apresentado para que, com ele, estabeleça uma relação “face a face”.
Neste capítulo, também introduziremos nossa reflexão com o livro de Jó que, para muitos autores contemporâneos, cristaliza ainda hoje os questionamentos fundamentais sobre a experiência humana. A seguir, refletiremos sobre a experiência criadora; será ela constitutiva do humano? Por que, no âmbito bíblico, ela está ligada ao monoteísmo? Num terceiro momento, antes de começar nossa leitura do Gênesis, esclareceremos algumas premissas que influenciaram nossa interpretação bíblica. Num quarto momento, faremos uma leitura detalhada dos primeiros capítulos do Gênesis, olhando para a criação do homem e suas conseqüências. Finalmente, indagaremos se a experiência da criação oferece também uma chave de acesso ao Novo Testamento.
5.1 - UMA PERSONAGEM: JÓ
Jó é uma personagem bíblica fascinante. A primeira vez que li o livro de Barthélémy, citado em seguida, percebi que essa personagem, provavelmente mítica, oferecia uma porta de entrada ímpar para a experiência espiritual da Bíblia. Com a passagem dos anos, essa impressão se confirmou e cruzei com vários autores, vindos de diferentes horizontes, religiosos ou não, que encontraram em Jó um interlocutor valioso para discutir, principalmente, as limitações que qualquer discussão sobre o humano encontra. Depois de introduzir o livro de Jó, apresentarei a reflexão de dois autores, não escolhidos ao acaso. Philippe Nemo é um pensador de matriz liberal. Antonio Negri é um pensador e militante revolucionário de matriz marxista.
5.1.1 - O LIVRO DE JÓ COMO “PALEONTOLOGIA DA REVELAÇÃO” 271
Segundo Dominique Barthélémy, a Bíblia encerra uma grande pergunta: como se formou uma distância quase que intransponível entre a criatura e o Criador, e
271 Usamos a expressão de BARTHÉLÉMY em Dieu et son image, ébauche d´une théologie biblique.
Nesta primeira aproximação do livro de Jó, usaremos o primeiro capítulo do livro. Dominique BARTHÉLÉMY, dominicano, lecionou muitos anos teologia bíblica na universidade de Fribourg na Suiça.
como a relação entre Deus e o homem é reconstruída por iniciativa de Deus? Ele começa seu ensaio de teologia bíblica, destinado a enfrentar essas perguntas, pelo livro de Jó. Segundo ele, para poder entrar em sintonia com a revelação bíblica, é preciso primeiro ter a coragem de entrar na situação de trevas na qual o povo de Israel se encontrava, num dos momentos mais trágicos de sua história:
O ser humano não precisa da revelação para estar em diálogo permanente com Deus, para defrontar-se sem cessar com o modo estranho com o qual Ele guia o universo e ficar escandalizado, para sentir dentro de si, a crítica da própria consciência e ser, com isso, desmoralizado. O homem está sempre às turras com Deus. Mas é um Deus cujo comportamento é misterioso e não responde quando interrogado, esse Deus de Jó. É um Deus que não se explica e, por isso, Israel colocou frente a ele um sábio pagão.272
Para o povo de Israel, é uma prova de maturidade ousar perguntar: qual é a relação com Deus de um homem que não conheceu a revelação? Por isso, o livro de Jó representa uma volta à situação anterior em relação à palavra dirigida por Deus a Abraão e, por contraposição, transmite uma vontade de questionar o que significava de verdade a revelação que o povo tinha em mãos.
Para Jó, o problema não era a existência de Deus, mas a existência do homem. No capítulo 14, percebe-se que o homem, que teria o desejo de dar fruto e aspira à fecundidade, vê a morte chegar bem no momento em que ele consegue enxergar o que quer realmente. Além disso, este ser humano frágil e decepcionado é levado ao tribunal e cobrado em relação a uma justiça que Deus exige dele. Deus não permite que ele morra tendo a impressão de ter feito algo de válido. Em Jó 7, 16-21, Jó expressa o drama da presença silenciosa e acusadora de Deus pelo olhar.
272 Dominique BARTHÉLÉMY em Dieu et son image, ébauche d´une théologie biblique, p. 24-25.
(Tradução nossa) Como para muitos outros estudiosos do livro de Jó, BARTHÉLÉMY data os poemas que compõem a parte do livro que vamos estudar durante o Exílio porque, segundo ele, Jó inclui algumas conclusões de Ezequiel, mas não as do quarto canto do Servo do Deutero- Isaías. O exílio do reino de Judá foi uma tragédia para os israelitas que habitavam ao redor de Jerusalém e que tinham tentado converter-se seriamente na época do rei Josias, o que não impedira Nabucodonosor de assediar a cidade e de deportar a elite do povo. Será que Deus destruiria os que voltam para Ele? Se for assim, qual é o sentido escondido deste sofrimento que cai sobre aqueles que fizeram um grande esforço de retificação interior? Daí vem a pergunta mais grave ainda: o homem pode ser justo diante de Deus? Como não ousam fazer diretamente a pergunta, eles colocam em cena não o povo, mas um indivíduo estrangeiro, um pagão, ele mesmo duramente castigado por Deus, embora se achando justo e inocente. Pela boca de um pagão, o autor expressa seu escândalo, seus dramas de consciência frente à conduta dura de Deus em relação a seu povo. Ele coloca alguns amigos encarregados de lembrar a sabedoria piedosa e tradicional dos judeus, mas isto não convence o autor do livro de Jó.