3. MATERIALS AND METHODS
3.1 S TUDY DESIGNS , SETTING AND PARTICIPANTS
A chegada do cinema em Belém, na virada do século XIX para o XX, coincidiu com um projeto mais amplo de remodelamento das feições urbanísticas tendo em vista a constituição de uma capital moderna. Partindo do entendimento de que o cinema teve participação relevante nesse processo de modernização, em especial, no conjunto de valores que atuaram no ordenamento da cidade, com o processo de modificação urbana e higienização dos espaços públicos, optei por tentar compreender o papel do cinema na elaboração dos padrões de comportamento, da forma como ele atuou no incitamento de estímulos, desejos de consumo, que poderiam não necessariamente ser novos, e diferentes formas de sociabilidade, o que possibilitava reflexões sobre as representações sociais de gênero e infância.
Assim, a pesquisada realizada sugere que o cinema na capital paraense, tal qual ocorrerá em outros lugares, estimulou a criação de hábitos, costumes e o surgimento de padrões de consumo. Esse padrão de consumo pode ser observado nos anúncios de cigarros, sapatos e roupas publicados nos jornais e revistas paraenses, identificados com os artistas da tela. O consumo dessa cultura cinematográfica, no entanto, extrapola os objetos acima citados. Gestos, formas de olhar, o gosto por tipos físicos específicos são também produtos consumidos pelo público que os assiste. Possivelmente, para algumas espectadoras, a fim de uma afirmação de identidade, não era suficiente usar os sapatos ―Pola Negri‖, era preciso ir além, era preciso olhar e gesticular como ela.
É bem verdade que o cinema constituiu um importante sistema de poder simbólico, no entanto, os sentidos que produziu, entendido o homem como sujeito social participativo, variavam de acordo com as especificidades de grupo ou indivíduo. Neste sentido, o estudo da história do cinema se insere em uma história social da cultura, pois, a construção de representações, significados simbólicos são elaborados a partir dessa interação entre sujeitos sociais e de suas práticas cotidianas. Sobre isso, um ponto de vista interessante é apresentado por Charney e Schwartz, quando nos informam que, o surgimento do cinema fora algo inevitável, pois a cultura moderna assim o tornou, posto que, as características do cinema desenvolveram-se a partir dos traços que definiram a vida moderna em geral. Daí a noção de que ―a cultura moderna foi ‗cinematográfica‘ antes do cinema‖ 512.
Um dos principais caminhos de interpretação sobre a história do cinema nestas primeiras décadas do século XX é compreendê-lo nesse diálogo com o surgimento de uma
512 CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa R. (Orgs). Cinema e a invenção da vida moderna. 2. ed. revisada
variedade de novas formas de tecnologia, representação, consumismos, que marcaram a história cultural da modernidade. A relação entre cinema e sociedade/cultura deve ser entendida como uma relação de troca. Nestes termos é importante lembrar que, a cultura de fins do XIX e inicio do XX, ―não ‗criou‘ o cinema em um sentido simples, nem tampouco o cinema desenvolveu quaisquer formas, conceitos ou técnicas novas que já não existissem disponíveis em outros caminhos‖ 513.
O cinema, para além de uma arte de massa, estabelece com o público aquilo que podemos entender por circularidade cultural, haja vista que estabelece com os espectadores uma relação circular de influência mútua, da qual não apenas os filmes trazem representações da sociedade que o produziu como também exerce grande influência sob aqueles que o assistem.
Importante destacar que na capital do Pará da década de 1920, que ainda experimentava os efeitos do declínio da produção da borracha, o cinema foi um dos mais importantes espaços de lazer da cidade de Belém. Consonante com os novos ritmos e estímulos da vida moderna, este aparato permitiu a criação de novas formas de sensibilidade urbana e de diferentes formas de sociabilidade no espaço citadino. Em Belém os anos 20, marcam uma época de consolidação deste espaço de lazer, com um circuito de salas fixas muito bem estruturadas. Que só fizeram progredir nas décadas seguintes.
Esses circuitos de salas fixas só passaram a entrar em declínio em fins da década de 1960 e início de 1970514, agravado mais ainda nos anos 80, chegando aos primeiros anos do século XXI com algumas poucas salas em funcionamento. Como reflexo disso, no início de 2006, atuavam apenas três empresas na exibição de cinema na cidade: o Grupo Moviecom, com sete salas de cinema; Cinemas Severiano Ribeiro, com três salas; Grupo Cinearte com cinco salas 515. Ainda naquele ano, tem-se um dos momentos mais expressivos desse declínio. Em fevereiro de 2006, o Cinema Olimpia (desde 1930 deixara de ser Olympia) correu o risco
513 CHARNEY, SCHWARTZ, op.cit. p. 26.
514 Segundo nota do jornal A Província do Pará de 1989, o número de salas que fecharam suas portas entre
1960/70 em Belém, chegou a surpreender. Na década de 1970, fecharam todas as salas às empresa Cardoso e Lopes, sendo eles: cinema Moderno, Independência e Vitória. Fecharam ainda naquela década as salas de projeção Popular, Iris, mais tarde também encerrou atividades o cinema Guarani. Esse processo de fechamento das salas de bairro foi maior acentuado com a popularização da TV. Cf: Jornal A Província do Pará. O cinema mais velho ainda em atividade. Belém, 07 de agosto de 1989, p. 06.
515 DAMASCENO, Alex Ferreira Damasceno. A EXIBIÇÃO DO CINEMA EM BELÉM DO PARÁ:
INDÚSTRIA CULTURAL E MONOPÓLIO. Anais do VI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Norte, Belém-PA. Disponível em:
de ser fechado com a justificativa da baixa arrecadação com as exibições e o fato de que essas não estavam mais cobrindo os custos de manutenção 516.
Por conta desse fato foram publicadas várias notas em jornais de Belém e páginas pessoais na internet, que clamavam pela manutenção daquele cinema e apelavam para a sua ―importância histórica‖ 517. Esses artigos, que se estenderam até o ano seguinte, trouxeram importantes dados sobre a história do cinema na capital paraense e sua importância para a história cultural da região 518. As discussões sobre o fechamento ou não daquele cinema foi seguida de uma fase de grande destaque na mídia para várias análises sobre o fechamento dos cinemas de bairro, do surgimento da era dos cinemas localizados em shopping center´s, e foi justamente através do acesso a essas matérias e da minha paixão por filmes que surgiu a curiosidade e atração em relação à história dos cinemas em Belém no início do século XX.
Quando se apelava para a importância histórica daquele cinema, uma questão saltava aos olhos naquelas páginas de jornal. A da existência de uma fragmentada história sobre as salas de exibição na região, especialmente nas primeiras décadas do século XX. Quanto à produção, então, mais nebulosos são os percalços. A década de 1920 é marcada pelas escassas informações sobre a produção local 519. Pouco se sabe sobre os filmes que aqui foram feitos, apesar de saber-se que foram feitos. Muito do que havia sido gravado perdeu-se com o tempo, deixando grandes obstáculos para as pesquisas sobre o período. Penso que uma história do cinema é melhor compreensível quando estão presentes os dois momentos que a cercam: a produção e exibição, o que infelizmente não fora possível concluir-se neste espaço.
A importância da recepção, e das motivações nela empregadas, dão aos signos fílmicos, significações que fogem aos domínios daquele que o produz. Em Belém, isto ficou
516 Sobre a história do fechamento do Olympia Cf: http://www.cinemaolympia.com.br/. Acessado em:
23/05/2011.
517 As matérias podem ser encontradas nos jornais O Liberal e O Diário do Pará, Belém, no mês de fevereiro de
2006. Dentre estas destaco: ―Olímpia fecha as portas‖, O Liberal, Belém 09 de fevereiro de 2006, Cartaz, p. 01, ―cinéfilos lamentam o fechamento do Olímpia‖, O Liberal, Belém 10 de fevereiro de 2006, Cartaz, p. 08, “um
tempo de Olímpia na história de Belém”, O Liberal, Belém 11 de fevereiro de 2006, Cartaz, p. 07. Dentre os
blog‘s consultados estão: http: //alprado.blospot.com; http://wwwlimacoelho.jor.br; http://publicitariababy.com. Acessados em: 23/05/2011.
O resultado disso foi que a Prefeitura de Belém fechou um acordo com o diretor do grupo nacional Severiano Ribeiro, Luiz Severiano Ribeiro Neto, o então administrador do Olympia, e desde então o Olympia foi transformado em um espaço cultural do município.
518 Além das matérias veiculadas pela imprensa local no mês de Fevereiro de 2006, outras matérias destacando a
importância histórica do cinema Olympia podem ser encontradas em: A Província do Pará. O cinema mais velho ainda em atividade. Belém, 07 de agosto de 1989, p. 06. Jornal O Liberal, Belém 16 de Abril de 1989, p. 05; O
Liberal, 15 de dezembro de 1986, p. 08.
519 Pedro Veriano destaca para aqueles anos, o conhecimento de uma única produção, tratava-se de um filme que
versava sobre a história da imagem da virgem de Nazaré. Segundo Veriano, o filme foi rodado em uma barraca no arraial de Nazaré, mas, não se base quem realizou o filme, sua metragem e muito menos o destino que tomou.
evidente nos diferentes olhares que se lançavam para um mesmo objeto fílmico, e aos outros símbolos nele envolvidos. Aprovações, identificações, reprovações, eram apenas algumas das reações àqueles signos. Penso desse modo, que o estudo do cinema enquanto prática social deve passar pela observação do que é produzido, e ainda dos significados que estes adquirem no momento da exibição.
Os anos de 1920 em Belém, longe se serem arenosos no campo da produção, marcavam o período de intensa atividade da empresa Grão-Pará film, cujo dono Estanislau e Cia ―não mediam sacrifícios‖ para produzir filmes naturais 520, como comentado no primeiro capítulo. Pouquíssimo se sabe sobre aquelas produções. Mas, pelo que consta nas revistas consultadas, elas mereciam grande distinção naquelas publicações, especialmente na Belém Nova por representarem ―o nosso cinema‖ 521. O olhar sobre aquelas produções abrem para diferentes possibilidades de pesquisa, dentre elas destaca-se a da relação entre as discussões sobre identidade nacional e a produção fílmica.
Os estudos sobre a produção audiovisual no Brasil vêm merecendo destaque nas últimas décadas, tanto por iniciativas particulares522, quanto por parte das politicas públicas. Em 2001 foi criada a Ancine, Agencia Nacional de Cinema, que hoje conta com o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (O. C. A.) 523. Uma das principais iniciativas tomadas pelo O. C. A. foi o de criar um banco de teses e dissertações relacionadas ao mercado cinematográfico e audiovisual, por acreditarem que os contatos com as informações e estudos nessa área reforçam a capacidade de planejamento do Estado e dos agentes econômicos privados. E é dessa forma que se justifica a necessidades de maiores pesquisas sobre o tema, posto que estas, dentre outras possibilidades, podem inspirar aperfeiçoamentos na legislação e nas políticas públicas referentes a este setor. É também por intermédio deste diálogo entre história e cinema que se abre como possibilidade a problematização de questões presentes na sociedade contemporânea, como aquelas relativas ao entretenimento e às novas tecnologias, entre outros.
520 Um dos filmes que se tomou conhecimento fora ―A conquista da Guiana Brasileira‖, que segundo Dom Q.
colunista de a Belém Nova, era um bom filme, ―boa fotografia das primeiras partes e ótimos ângulos da maquina‖. Cf: Belém Nova, 15.09.1928, nº 80, sem paginação.
521 Em alguns números da revista Belém Nova visualizava-se a coluna ―o nosso cinema‖, dedicada a informação
de produções cinematográficas locais.
522 Foi por conta da necessidade de um repertório específico sobre cinema brasileiro, tendo como fonte a
produção acadêmica nacional e internacional, sentida por vários pesquisadores da área que a Mnemocine (órgão de apoio a professores, estudantes e pesquisadores, e para todos aqueles que se interessam pela história do cinema, da fotografia e do audiovisual) resolveu publicar um banco de teses e dissertações sobre o cinema brasileiro, a maioria delas defendidas nos últimos 30 anos no país e no exterior. Cf: http://www.mnemocine.com.br/. Acesso em: 05/05/2011.
523 O banco de teses e dissertações da O. C. A. pode ser acessado em: http://www.ancine.gov.br/oca/teses.
FONTES
ÁLBUNS:
Belém da Saudade: a memória da Belém do início do século em cartões-postais. Belém: Secult, 1998.