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The 1980s: Growth through new technology and market mechanisms 20

O processo de filtragem automatizado, realizado por inteligências virtuais na web, difere, segundo Parisier (2012), do nosso processo reflexivo de filtragem, em três princi- pais aspectos:

1) A “bolha dos filtros” nos isola dos outros. Em redes sociais da internet, a ten- dência é que só vejamos conteúdo compartilhado por amigos cujos gostos e opi- niões se assemelhem aos nossos. Além: é possível que, de todo o conteúdo pro- duzido e compartilhado por esses mesmos amigos, só vejamos aquilo que poten- cialmente pode nos interessar, pelo menos segundo a lógica do algoritmo que faz a escolha por nós, enquanto não temos acesso ao resto do que é compartilhado.

web, o acesso a esses conteúdos se dava primariamente através das mídias de massa, da televisão, do rádio, e da publicidade

de um modo geral. Havia uma limitação sobre os produtos culturais que consumíamos, pois não tínhamos acesso fácil a outros que não estivessem sendo massivamente distribuídos. Com o aumento do número de usuários conectados à internet, têm-se a ilusão de que agora temos acesso a tudo que quisermos, e que temos total liberdade para exercer nossas práticas de consumo. A verdade é que, como citado neste estudo, há uma série de mecanismos que filtram o conteúdo ao qual temos acesso, muitas vezes sem estarmos plenamente cientes disso. Essa aparente liberdade talvez seja mais danosa aos processos formativos humanos do que a escassez de conteúdo por si só. Mas isto cabe a outros estudos. Aqui, tratamos apenas de elen- car algumas diferenças entre o nosso processo de filtragem reflexiva, e a filtragem automatizada dos algoritmos da web.

2) Como afirmado anteriormente, a maior parte dos usuários não sabe que está den- tro de uma “bolha” ou, se tem consciência disso, não tem ideia de como ela fun- ciona ou de o que está sendo feito com seus dados.

3) Não se pode optar por entrar nessa “bolha” ou não, ao menos uma vez que já se está usufruindo dos serviços que dela se utilizam. A menos que utilizemos sof-

twares específicos38, é quase impossível acessar redes sociais da internet ou na- vegar em sites on-line sem que nossas interações dentro do ciberespaço sejam filtradas por múltiplas variáveis, organizadas por algoritmos complexos, e per- sonalizadas especialmente para nós.

A ideia da personalização é, inclusive, atraente: o principal objetivo é tornar nossas experiências mediadas o mais adequadas e adaptadas possível aos nossos gostos e desejos. É, literalmente, termos acesso àquilo que quisermos, na hora que quisermos. É podermos navegar com segurança, sem esforço, em um universo polifônico e plural como a web, com um volume inimaginável de informação. Essa personalização, embora assim aparen- te, não é gratuita.

Se pensarmos nos serviços mais relevantes que se utilizam da personalização na

web, podemos pensar que, de fato, não temos de pagar nada para ter acesso a eles. Face-

book, Google e Instagram, apenas para citar alguns, são ferramentas gratuitas que, embora tenham serviços monetizados à parte, não cobram nada pelo serviço de personalização; es- te, aliás, é automático, e o usuário o vivencia a partir do momento que acessa qualquer um dos sites citados. Não há a opção de negá-los: você deve estar em contato com uma inter- face personalizada, queira ou não, para utilizar o Facebook, ou o Google, ou qualquer pla- taforma semelhante. Mas, afinal de contas, qual seria o mal nisso? Estaríamos tendo aces- so a um conteúdo dirigido especialmente para nós, sem ter que pagar nada por ele.

Se o serviço é gratuito, o pagamento por ele são as informações. No caso, informa- ções sobre nós mesmos. No Facebook, cada campo do perfil que preenchemos, cada inte- ração que experimentamos e cada conteúdo que compartilhamos são informações que são coletadas e armazenadas; no Google, é o nosso histórico de pesquisa, as informações co- lhidas por nossos smartphones Android39, dentre outras. Mas as informações em si ainda

38 Como o DoNotTrackMe ou o NoScript, softwares projetados para evitar o rastreamento das atividades do usuário na web.

O DuckDuckGo, por sua vez, é um mecanismo de busca que promete não rastrear as atividades do usuário.

precisam ser revertidas em lucro para as empresas que prestam esses serviços. Logo, nos- sas informações pessoais serão revendidas para anunciantes, que vão interpretá-las de ma- neira a dirigir para nós apenas os anúncios que tem o maior potencial de chamar nossa atenção.

Os usos dados às informações coletadas pelas plataformas on-line são múltiplos, sendo limitados apenas pelo poder de interpretação e dedução daqueles que têm acesso a esses dados (sejam cérebros humanos ou inteligências artificiais). Não é objetivo deste es- tudo fazer uma análise exaustiva dos modos genéricos de como essas informações podem ser utilizadas. O que nos interessa, no momento, é compreender a questão da personaliza- ção, tanto como um mecanismo de defesa contra a superexposição a uma torrente infor- macional vasta, assim como um potencial isolador, que nos mantém alienados de novas experiências e opiniões.

Se, como já vimos, a utilização de filtros pode nos ajudar a nos orientar e, inclusive, tornar mais fácil e menos dispendiosa a tarefa da busca pela informação – seja essa infor- mação qual for – também há um lado negativo.

E, embora esse regime possa ser útil, uma coisa boa, em excesso, também pode causar problemas reais. Quando deixados por conta própria, os filtros de personalização ser- vem como uma espécie de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com as nossas próprias ideias, amplificando nosso desejo por coisas conhecidas e nos deixando alheios aos perigos ocultos no obscuro território do desconhecido. [...] Por definição, um mundo construído a partir do que é familiar é um mundo no qual não temos nada a aprender. Se a personalização for excessiva, poderá nos impedir de entrar em contato com experiências e ideias estonteantes, destruidoras de preconceitos, que mudam o modo como pensamos sobre o mundo e sobre nós mesmos. (PARISER, 2012, p. 20).

Tendo isto em vista, é preciso sempre relembrar que a personalização, como outras várias características observadas na web, não surgiram com ela, mas apenas encontraram no ciberespaço um local ideal para se amplificarem. De fato, essa “alienação” causada pe- la personalização excessiva, da qual nos fala Pariser, lembra em vários aspectos os impac- tos negativos que os produtos da mídia podem ter na formação do self, definidos por Thompson: como citamos anteriormente 1) a intrusão mediada de mensagens ideológicas; 2) a dupla dependência mediada; 3) o efeito desorientador da sobrecarga simbólica e; 4) a absorção do self na interação quase mediada (THOMPSON, 2014).

É importante termos em mente que esses impactos negativos (assim como os positi- vos) podem ser potencializados nos ambientes do ciberespaço. No terceiro capítulo desta monografia retomaremos essa questão em maior profundidade.

Tendo em vista a questão da superexposição, a “bolha dos filtros” e a personaliza- ção, a seção seguinte se deterá a explanar a construção da narrativa midiática, levando em consideração esses conceitos e aqueles apresentados no capítulo anterior.